Crítica | Predador 2 (Adaptação em Quadrinhos)

Se pensarmos em retrospecto, adaptações de filmes em quadrinhos são quase sempre fracassos completos por diversos fatores. Normalmente, são feitas às pressas para capitalizar em cima do lançamento da obra nos cinemas e, na maioria das vezes, são demasiadamente escravas do material fonte, o que nem sempre resulta em algo bem traduzido para a Nona Arte. Há exceções claro, como as versões em quadrinhos dos filmes originais das franquias Planeta dos Macacos e Star Wars, dentre algumas outras.

A adaptação de Predador 2: A Caçada Continua, por incrível que pareça, apesar de não ser um primor, consegue a proeza de ser melhor do que o filme justamente por ter sido lançada alguns meses depois da estreia e pelo roteiro de Franz Henkel tomar algumas liberdades que transformam a HQ em algo que pode ser apreciado sem que seja necessário fazer a correlação com qualquer uma das duas obras cinematográficas passada neste universo.

Certamente ajudou o fato de o filme adaptado ter um simples e eficiente roteiro que foi mal aproveitado visualmente pela direção de arte, além da escolha editoral (provavelmente) de contar toda a história em apenas duas edições lançadas com grande espaço entre elas (fevereiro e junho de 1991). Isso deu tempo de maturação ao projeto e permitiu que a história ganhasse uma linguagem puramente de quadrinhos, sem os vícios de uma transliteração. Mas que fique claro: a história contada é rigorosamente a mesma, mas o roteiro ganha em celeridade e economia ao traçar linhas retas que cortam as curvas da obra original.

Henkel, portanto, mesmo sendo reverente ao trabalho de Jim e John Thomas, faz o que é necessário para dar uma roupagem específica para a mídia em que trabalha, não se furtando de fazer todos os cortes necessários para tornar sua versão da história mais fluida e econômica. E, corrigindo os problemas mais sérios do filme, a arte de Mark Bright tem personalidade própria e garante uma homogeneidade muito maior em contraste com o caos visual vazio do material fonte.

As capas cinematográficas da adaptação.

O primeiro acerto de Bright para tornar a HQ uma história própria, não necessariamente conectada a uma mitologia cinematográfica, é desenhar os personagens de seu próprio jeito. Mike Harrigan, o policial vivido por Danny Glover e que caça o Predador urbano depois que ele começa a dizimar gangues de uma Los Angeles mergulhada na desordem e violência urbana depois de uma onda de calor sem precedentes não é Glover nos quadrinhos, mas sim um personagem com as mesmas características físicas básicas e só. O mesmo vale para o misterioso Peter Keyes, interpretado por Gary Busey no filme e que deseja capturar o Predador para colher sua tecnologia, além de todos os demais personagens. Só isso já permite uma outra roupagem à HQ que também ganha uma Los Angeles mais crível menos histérica e caricata, apesar de tão violenta quanto na película.

O Predador, por outro lado, é o bom e velho caçador alienígena que conhecemos no filme de 1987 com as leves alterações empreendidas para sua versão citadina na continuação. Afinal, o velho adágio que determina que “em time que está ganhando não se mexe” é muito verdadeiro e uma criatura tão icônica não deveria receber alterações cosméticas desnecessariamente. Mas Bright imprime leveza e agilidade ao monstro, já que ele não está preso às amarras das próteses cinematográficas. Com isso, suas sequência de ação, apesar de longe de serem particularmente brilhantes ou originais, funcionam com dinamismo e uma baita progressão narrativa que torna a leitura muito fácil e rápída (talvez até demais).

Por outro lado, certamente por exigência editorial, a arte de Bright economiza na sanguinolência, mesmo mostrando sem dó nem piedade alguns momentos icônicos do filme, como o da caveira e espinha dorsal de Jerry Lambert sendo arrancadas nos trilhos do metrô. Não é nada que afete o resultado final, portanto, ainda que esconder sangue e tripas em uma história em que o gore é de sua essência não me pareça uma escolha razoável, mesmo considerando a “censura” imposta pelo então ainda em vigor Comics Code (e que já estava sendo completamente ignorado até pelas grandes editoras, verdade seja dita).

A adaptação de Predador 2 anda om suas próprias pernas e isso já é uma grande vitória em se tratando desse tipo de obra. O roteiro inteligente de Henkel e a arte ainda melhor de Bright resultam em uma HQ que se destaca entre as várias tentativas apressadas e submissas de se adaptar obras da Sétima para a Nona Arte.

Predador 2 (Predator 2, EUA – 1991)
Contendo: Predador 2 #1 e 2
Roteiro: Franz Henkel (baseado em roteiro de Jim Thomas e John Thomas)
Arte: Mark Bright
Arte-final: Randy Emberlin
Cores: Monika Livingston
Letras: Mike Heisler
Editoria: Randy Stradley
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: fevereiro e junho de 1991
Páginas: 70

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.