Crítica | Predadores – Prelúdio do Filme

O único filme da franquia Predadores que foi adaptado para quadrinhos pela Dark Horse Comics foi o segundo, com Danny Glover, muito provavelmente porque ele foi lançado logo depois que editora obteve a licença do personagem e de todo esse “universo”. Quando Predadores estreou em 2010, tinha certeza de que haveria uma adaptação, mas o caminho escolhido foi o do sempre espinhoso e normalmente desimportante e mal-feito prelúdio.

Mas a Dark Horse já havia acertado na adaptação de Predadores 2 e, para minha surpresa, acertou novamente no prelúdio, trabalhando duas histórias ao longo de uma minissérie de quatro edições. A primeira é Welcome to the Jungle (Bem-vindo à Selva), passada no mesmo planeta para onde o grupo encabeçado por Royce (Adrien Brody) cai de para-quedas e a segunda é A Predatory Life (Uma Vida Predadora) que acontece na Terra e é focada justamente em Royce.

Com isso, há oportunidade para duas equipes criativas trabalharem nas histórias, ainda que ambas tenham enfoques parecidos que não traem a premissa de todo filme dos Predadores: são caçadas. Mas enquanto a primeira lida com o único sobrevivente de um destacamento das Forças Especiais americanas que se junta a Noland (o sobrevivente de décadas no tal planeta reserva de caça dos alienígenas que é apresentado mais para a frente no filme e é vivido por Laurence Fishburne), a segunda aborda a última missão de Royce antes de ser levado pelo Predator.

Welcome to the Jungle, portanto, é bastante familiar, ainda que nos permita aprender um pouco mais sobre Noland, mas nada realmente crucial ou diferente do que se pode esperar do personagem. O sobrevivente das Forças Especiais, por outro lado, é seguro de si e resolve, no lugar de esconder-se, enfrentar de frente os Predadores, em um embate que todo leitor que viu o filme sabe como acabará, mas que o texto de Marc Andreyko sabe construir suspense mesmo assim. É uma narrativa simples, mas repleta de ação tanto humana quanto predadora que, se não chega a repetir exatamente a fórmula usada no filme, chega próximo, o que não é necessariamente ruim, apenas um pouco desapontadora.

Por outro lado A Predatory Life é uma história cruel, com Royce sendo apresentado, ironicamente, como um predador frio e literalmente invisível em meio à selva de um país africano dominado por um ditador sanguinário que o contrata para assassinar sua “competição”. Na missão, entramos em sua mente e ponto-de-vista e o roteiro de David Lapham não tenta nos fazer simpatizar pelo personagem. Ele é, sem tirar nem por, um altamente eficiente assassino que mata não por esporte, mas, pior ainda, por dinheiro, sem qualquer barreira moral, sem um código de honra, dois aspectos sempre fortemente presentes em relação aos alienígenas que depois o sequestram. Sem querer dar uma de pudico nem nada, chega a ser até um tanto assustador vê-lo colocar seu plano em movimento como se ele fosse o T-800 do primeiro O Exterminador do Futuro.

Mas Lapham merece elogios justamente por isso. Ele não doura a pílula. Não economiza em mostrar uma realidade infelizmente muito comum em lugares em constante estado de guerra civil. Mercenários são a regra por ali e Royce é a epítome dessa “profissão”, com uma eficiência realmente impressionante. Não sem querer os Predadores do filme cortam um dobrado em seu planeta reserva de caça depois.

Apesar de as artes de cada história serem de artistas diferentes, a primeira de Guilherme Balbi e a segunda de Gabriel Guzman, com finalizações, respectivamente, de José Verissimo e Mariano Taibo, há o cuidado de se manter uma certa homogeneidade entre elas, de maneira que não há uma ruptura muito grande com a leitura de cada edição contendo as duas narrativas. Em geral, são artes cruas, tendentes à simplicidade, que só pecam de verdade ao lidar com o corpo humano, algo que Andreyko muitas vezes deixa a desejar. Mas há uma força em ambos os trabalhos que combinam com a violência das histórias e que, em seu conjunto, são eficientes dentro da proposta.

O prelúdio de Predadores não só é uma boa minissérie – melhor do que talvez tivesse o direito de ser – como pode ser lida sem conhecimento do filme, ainda que as histórias tenham finais abertos que se encaixam com a obra cinematográfica, claro. É uma leitura repleta de mortes e de violência, mas que nos faz refletir, nem que seja por alguns momentos, sobre a natureza humana.

Predadores – Prelúdio do Filme (Predators, EUA – 2010)
Contendo: Predadores #1 a 4
Roteiro: Marc Andreyko, David Lapham
Arte: Guilherme Balbi, Gabriel Guzman
Arte final: José Verissimo, Mariano Taibo
Cores: Garry Henderson, Michael Atiyeh
Letras: Nate Piekos
Capas: Paul Lee
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: junho a agosto de 2010
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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.