Crítica | Predadores

Predadores, filme do mediano Nimród Antal sob a batuta da produção de Robert Rodriguez, não ultrapassa as expectativas nem desaponta. Ele é exatamente o que deveria ser, considerando sua premissa, se não esperarmos que a pluralização do título de uma alienígena famoso do cinema deva resultar em algo semelhante ao que Aliens, o Resgate, representa para Alien, o Oitavo Passageiro. E isso é ao mesmo tempo bom e ruim. Bom porque ajuda a apagar os crossovers com os xenomorfos de nossa mente e ruim porque não tem cacife para finalmente colocar a franquia Predador no patamar que ela tinha o potencial de alcançar.

Afinal de contas, depois que Arnold Schwarzenegger saiu no braço com o primeiro alienígena caçador, lá nos idos de 1987, sob a direção de John McTiernan, a imagem dos caçadores alienígenas foi sendo progressivamente arruinada. Em 1990, depois que Schwarza teve uma discussão salarial que acabou afastando-o da continuação, veio Predador 2: A Caçada Continua, que deslocou  a ação para um centro urbano, colocando um novo monstro contra Danny Glover e de quebra expandindo a mitologia cinematográfica dessa raça mortal, com um resultado bom, mas nem próximo do original. Depois de nada menos do que 14 anos de silêncio, depois que a sequência não trouxe o resultado financeiro e crítico desejado, veio Alien vs Predador e, inexplicavelmente, três anos para frente, uma continuação desse embate que é tão ruim, mas tão ruim que ela automaticamente estabelece um novo patamar de falta de qualidade cinematográfica. Predadores, portanto, consegue ser uma evolução impressionante se comparado com os dois filmes imediatamente precedentes e uma melhoria discreta em relação à cultuada obra de 1990.

Antal e Rodriguez conseguiram, com Predadores, resgatar a história original e fazer um filme que respeita as bases do primeiro, notadamente no que se refere a sua simplicidade e objetividade, ou seja, sem inventar muita moda. Como o filme original, Predadores parte do básico, quase arriscando ser repetitivo: alienígenas caçam humanos no meio de uma selva. As diferenças são praticamente cosméticas, justamente para trazer aqueles traços de diferenciação que toda continuação procura ter, mas nem sempre consegue. Desta vez, inspirando-se nos quadrinhos da Dark Horse Comics, humanos são raptados e jogados (literalmente e de pára quedas, em uma eletrizante sequência de abertura) em uma espécie de “planeta reserva de caça” dos Predadores. Mas, diferente da equipe azeitada  comandada por Dutch, ninguém se conhece e, para fazer jus ao título, há quatro alienígenas à espreita, sem contar com Predadogs, ou seja lá o nome dessas criaturas. Mas, em espírito, Predadores é igualzinho ao primeiro, o que não é necessariamente algo ruim.

No lugar de Schwarzenegger, contrataram o improvável e oscarizado Adrien Brody. Muito magro, ele é do tipo físico oposto ao do ex-Mister Universo, ainda que, na sequência final de luta, ele mostre que se dedicou muito para não fazer feio sem camisa. Aqui, Brody vive Ryce, um mercenário durão que logo percebe o que está acontecendo com eles e acaba conseguindo criar alguma coesão no eclético grupo formado por Hanzo (Louis Ozawa Changchien), um silencioso membro da Yakuza; Stans (Walton Goggins), um prisioneiro condenado à morte; Nikolai (Oleg Taktarov), um comando russo da Spetsnaz; Isabelle (nossa Alice Braga), uma sniper do exército israelense; Cuchillo (Danny Trejo), um assassino de um cartel de drogas mexicano e, finalmente, Edwin (Topher Grace), um médico e o único com perfil completamente diferente dos demais até que um segredo é revelado.

O elenco, apesar de muito variado, carrega um peso de qualidade e, por incrível que pareça, o diretor consegue extrair o melhor de cada um deles. Nesse ponto, o roteiro de Alex Litvak e Michael Finch ajuda, já que cria complexidade hierárquica entre eles, com a falta de liderança óbvia sendo objeto de conflito principalmente entre Ryce e Isabelle. Como Brody e Braga são dois ótimos atores e com uma química estabelecida logo de cara, isso ajuda não só na aceitação fluida da premissa da obra, como também a “compra” de todos os demais “soldados” que, claro, são apenas buchas de canhão e, assim como no primeiro filme, vão morrendo um a um, com grande destaque para o embate de espadas com o membro da Yakuza, pois armas brancas tornam tudo sempre melhor. Laurence Fishburne, o eterno Morfeu da trilogia Matrix, faz uma ponta interessante mais lá pelo meio do filme.

Mas o que é bom mesmo é voltar a ver uma pancadaria variada e bem coreografada ganhar foco, com direito a homenagens diretas ao primeiro filme quando Isabelle conta em detalhes o encontro de Dutch com a criatura na América Central. É um filme que muito claramente não quer ser mais do que precisa ser para proporcionar uma boa diversão descerabrada, mas que não avilta o Q.I. do espectador como os dois crossovers entre Aliens e Predadores.  Além disso, o trabalho prostético nos quatro Predadores é mais uma vez excelente, com personagens realmente diferenciados que podemos ver em detalhes e não em meio a uma névoa e por alguns segundos como ao final de Predador 2. Se os alienígenas não são exatamente personagens bem desenvolvidos, eles pele menos ganham atenção e cuidado, com uma direção de arte de alto gabarito, mesmo com o orçamento econômico, algo que Rodriguez, vale lembrar, sabe manejar muito bem. A fotografia noturna de Gyula Pados é outro ponto de destaque, pois procura evitar que o filme fique sombrio demais ou que as tomadas de Antal escondam os momentos de ação.

A grande verdade é que é difícil exigir desse filme o mesmo impacto do primeiro, pois, lá, o espectador não sabia exatamente o que os soldados estavam enfrentando e só iam descobrindo na medida em que os personagens também descobriam. Predadores não teve esse luxo e Antal acertadamente partiu logo para escancarar os monstros (e seus simpáticos “cachorrinhos”, claro). Outro ponto que o primeiro tinha e esse não tem é a já citada presença do simpático ex-governador da Califórnia. Afinal de contas, como barrar Dutch fazendo careta e dizendo, nas fuças do Predador, com seu sotaque austríaco, “You’re one… ugly motherfucker!”? É só um desperdício que os alienígenas, aqui, sejam bem mais fáceis de matar do que o original ou mesmo o que enfrenta Danny Glover, o que retira o pouco impacto que o filme poderia ter e emudece aquela sensação de urgência em relação aos personagens que sabemos que, no mínimo, serão os últimos a serem liquidados.

Predadores definitivamente não é a volta à forma da franquia que nunca realmente decolou depois do filme oitentista. Mas, por outro lado, é a garantia de pouco menos de duas horas de pipoca bem empregada.

Predadores (Predators, EUA – 2010)
Direção: Nimród Antal
Roteiro: Alex Litvak, Michael Finch
Elenco: Adrien Brody, Topher Grace, Alice Braga, Walton Goggins, Oleg Taktarov, Laurence Fishburne, Danny Trejo, Louis Ozawa Changchien, Mahershala Ali, Carey Jones, Brian Steele, Derek Mears
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.