Crítica | Premonição 2

estrelas 4

Premonição 2 é um dos casos raros em que sequências são bem sucedidas. Mesmo sem a ideia como novidade, o filme introduz os elementos que deram certo na produção anterior e fornece ao público doses generosas de adrenalina. Com roteiro assinado por J. Mackye Gruber e Eric Bress, o filme reforça as cenas de ação e introduz uma relação satisfatória com o anterior, explicitada mais adiante.

A escolhida da vez é Kimberly (A J Cook), uma jovem em viagem com alguns amigos. Durante o percurso de ida, a garota tem a tal premonição de abertura, padrão dos filmes da franquia. O cineasta David R. Ellis, ciente da sua condição de continuação, entrega ao público uma cena de acidente extremamente poderosa, superando a abertura do primeiro filme. Após ver os seus amigos e uma fila de desconhecidos envolvidos num engavetamento na estrada, a jovem decidi interromper a estrada e impedir que os carros continuem o seu trajeto.

Um policial, importante para o deslanchar da narrativa, surge no intuito de resolver o suposto surto psicológico, até que o acidente previsto realmente acontece e a Morte, mais uma vez enganada, retorna para ceifar a vida dos sortudos que graças ao dom premonitório de Kimberly, foram poupados temporariamente. A partir dai, não precisa ser muito explícito: de forma sofisticada, a Morte retornará para dar conta da sua lista, levando um a um através de acidentes coreografados com maestria e doses cavalares de situações absurdas. Antes que o leitor pense que tais adjetivos estão dispostos para desmerecer a obra, adianto: é nessa dinâmica do exagero que o filme conquista o espectador, pois ciente dos absurdos que estão sendo projetados para o público, o roteiro e a direção assumem sem problemas o tom de autoparódia.

No que tange aos aspectos visuais o filme continua tão bem quanto o seu anterior. A direção de arte é equilibrada, a trilha sonora eficiente, bem como o ótimo trabalho de montagem. Os enquadramentos dão conta de captar as mortes mais gráficas e impactantes. Já no que diz respeito ao roteiro, a trama se contenta em repetir a estrutura do anterior, inserindo alguns elementos para fazer a diferença. O resultado é misto: todos os envolvidos no acidente atual possuem uma ligação direta com o voo 180. O retorno de Clear River (Ali Larter) também soa bem, já que a personagem apresenta-se esférica, carente de interpretações. Internada num hospício depois dos acontecimentos do desfecho de Premonição, a moça dribla a morte, mas vê a necessidade de sair da clausura quando a necessidade de ajudar os próximos envolvidos no jogo da morte fala mais alto.

Os problemas que deixaram o texto um misto de sensações não são muitos, mas saltam aos olhos. Quando se tenta elevar a tensão, a narrativa perde um pouco do seu rumo e exagera nas ações pouco prováveis por parte de seus personagens. Há alguns furos e a impressão que se tem é a de que para deixar a trama fluir, os escritores, com o aval do diretor, empregam as suas licenças e permitem que tudo aconteça, adentrando no perigoso terreno da contradição.

Mesmo assim, ao passo que o problema surge, logo adiante, a narrativa estabelece uma dinâmica favorável que retoma o fôlego e organiza as coisas. Enfim, é um filme que se constrói em torno de exageros, mas que agrada pela forma fluente do seu desenvolvimento. Depois do sucesso desta continuação, outra produção foi agendada para a franquia, mas desta vez, não há praticamente nada que tenha a capacidade de ser resgatado. Isto, entretanto, é assunto para o próximo texto, uma análise de Premonição 3.

Premonição 2 (Final Destination 2) – EUA, 2003
Direção: David R. Ellis
Roteiro: Jeffrey Reddick, J. Mackye Gruber
Elenco: Ali Larter, A. J. Cook, Michael Landes, David Paetkau, James Kirk, Lynda Boyd, Tony Todd, Sarah Carter, Alejandro Rae.
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.