Crítica | Premonição

estrelas 4

A depender da condição de vida de uma pessoa, morrer é a última coisa que ela desejará. Quando se é jovem, principalmente, afinal, de acordo com os nossos mandamentos terrenos, é preciso estudar, formar-se, viajar, comprar roupas, sapatos, frequentar as melhores festas e jantares, dentre outras coisas boas que a vida nos proporciona. Embaixo da terra, no plano espiritual ou nas chamas do inferno, seja lá qual for a sua crença, não faz parte dos planos.

Será nesse esquema que os jovens de Premonição se encaixarão, salvas as devidas proporções. Quando lançado, a obra foi como um suspiro de inteligência extra, haja vista os três primeiros filmes da franquia Pânico e alguns bons exemplares do terror adolescente, lançados na mesma época. Tendo a morte como algoz, o horror ganhou proporções mais amplas, pois a onipresença a tornou uma vilã mais traiçoeira e mortal.

Sob a direção iniciante de James Wong, um profissional oriundo da televisão, com alguma experiência na série Arquivo X, o filme conta com o seguinte argumento: Alex Browing é um rapaz com destino à França, acompanhado de um grupo contendo uma média de 40 estudantes da mesma instituição pela qual se formou. Antes de alçar voo, o rapaz tem uma terrível premonição que lhe apresentou, de maneira bastante “cinematográfica”, um acidente envolvendo o voo em questão.

Assustado, Alex perde o controle e estabelece o caos ao redor, promovendo uma briga que vai tirar mais seis pessoas do avião. Os envolvidos precisam se retirar para resolver o problema e acabam perdendo algumas horas de curtição na França. O que todos não esperavam é que ao passo que os jovens discutem no saguão do aeroporto, o avião se explode no ar, trazendo mais caos diante de toda a confusão.

Sorte para os que ficaram e azar para os que foram? Ledo engano. Ao contrário, muito além do sentimento de culpa de uns e do trauma de outros, a Morte não se dá por satisfeita e resolve perseguir um a um, na ordem em que morreriam no avião, ceifando as suas vidas programadas para acabar. Com roteiro assinado por Glenn Morgan, em parceria com o cineasta James Wong, Premonição trata de abordar o cotidiano de Alex após o acidente, a sua condição inicial de esquisito, para mais adiante, torna-se um suspeito, pois as mortes não param de acontecer e as evidências não são as melhores.

Com um texto que promove cenas envolventes, mas com diálogos fracos, o filme tem os seus excessos. Há momentos em que a barra, inclusive, é forçada aos extremos, tal como a coreografada e enfadonha morte da professora. Isso se olharmos por um lado narrativo equilibrado. Se você, assim como eu, adentrar na narrativa sem a necessidade de estabelecimento de elos realistas (a corrente artística), seja bem-vindo: Premonição é diversão de primeira, inteligente e sagaz.

Os estereótipos estão todos presentes: a moça bonita e valente, o jovem com postura heroica, um sujeito brincalhão (por sinal, chamado de Hitchcock), o valentão e a sua namorada submissa, dentre outros tipos comuns a este tipo de filme. O bom disso tudo, mais uma vez, é que nada disso atrapalhará a sua diversão.

Com humor e reviravoltas, a produção contou com Ariel Velasco Shaw, responsável pelos efeitos especiais, um profissional que trouxe as suas experiências em Batman Eternamente, Queima de Arquivo e Space Jam, referências audiovisuais no que tange aos efeitos na época. Na seara das referências, além de um personagem carregando o nome do mestre do suspense, temos logo na abertura, durante um diálogo entre Alex e seu amigo, uma citação ao cantor country John Denver, morto acidentalmente num desastre de avião na região costeira da Califórnia. Para os que conhecem, quando ela toca no filme, os indícios não são bons.

Ao longo dos seus 100 minutos de duração, Premonição troca os sustos em excesso por momentos de tensão. Envolvente, a direção de James Wong, eficiente para os momentos de suspense e ação, mas comprometedora no que tange o alcance dramático de alguns atores em certos trechos, faz o espectador ranger os dentes de tanta tensão. É adrenalina do início ao fim. Devido ao sucesso, uma franquia se estabeleceu. Repleta de trechos bem altos e momentos abissais, adentrou no imaginário e no gosto popular e durou cinco filmes.

Premonição (Final Destination) – EUA, 2000
Direção: James Wong
Roteiro: Glen Morgan, James Wong, Jeffrey Reddick
Elenco: Devon Sawa, Ali Larter, Kerr Smith, Kristen Cloke, Chad Donella, Tony Todd, Brendan Fehr, Barbara Tyson, Seann William Scott
Duração: 98 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.