Crítica | Premonições (2007)

PREMONIÇÕES

estrelas 3

Considerado o inventor do gênero ficção policial e científica, Edgar Allan Poe é um dos mais famosos escritores da história da literatura mundial. Dono de uma capacidade magnífica de criar contos surpreendentes e estruturalmente invejáveis, o estadunidense marco do século XIX ganhou ressonâncias em diversos pontos de produção literária do mundo, além de influenciar estilos marcantes no cinema: temas como a morte, a reanimação de mortos e o luto são comuns em suas obras e de certa forma estão presentes, de forma proposital ou não em Premonições, suspense dirigido pelo alemão Menna Yapo.

No filme, Sandra Bullock entrega uma ótima interpretação como Linda Hanson, uma dona de casa que pela abertura da narrativa, parece feliz com o seu marido e duas filhas. Mas como aborda o cartaz do filme, a “realidade está a um pesadelo de distância”. Linda acorda um dia e recebe a notícia de que o seu companheiro Jim (Julian McMahon) morreu em um acidente de carro. O clima não poderia ser outro: triste e arrebatador, entretanto, as coisas parecem ficar piores.

No dia seguinte, Linda acorda e descobre que o seu marido está vivo. Ela acredita ser um pesadelo, mas descobre que não. Os dias da sua semana parecem desordenados e uma cadeia de acontecimentos macabros assinala o seu cotidiano. Um pouco confuso e com ritmo às vezes instigante, mas na maioria das vezes monótono e enfadonho, Premonições é um quebra-cabeça com várias possibilidades de interpretação, o que faz o resultado final ser mais positivo que negativo.

Ao mesclar Paixões Paralelas, drama com Demi Moore, e Os Esquecidos, fatídico suspense com Julianne Moore, Premonições fica no meio termo. Consegue ser interessante por um lado, pois nos mostra a incapacidade que temos de lidar com temas tabus como a iminência da morte, a dificuldade em organizar o tempo diante das novas medidas profissionais e pessoais diante dos avanços tecnológicos, bem como a impossibilidade de mudar certas coisas que convencionamos chamar de destino. O “terror” está neste quesito, diferente de outras narrativas que apostam no gênero através de sangue, assassinatos e outras características inerentes ao vasto campo de possibilidades do terror. O grande problema é como isso tudo é contado.

O roteiro é assinado por Billy Kelly, um profissional que adora questões ligadas ao “tempo”. Basta lembrar da comédia romântica De Volta para o Presente, com Alicia Silverstone, nos anos 1990. Fascinado por este tema, Kelly perde a mão ao dedicar-se ao estabelecimento do “quebra-cabeça”, o que na visão dele, provavelmente deixaria o filme com um aspecto mais “cult”, em detrimento do bom desenvolvimento dos personagens.

A grande sacada está na relação com o universo de Edgar Allan Poe. Ao assistir ao filme em 2007, na época do lançamento, foi possível observar essa relação através dos clichês básicos de corvos, cenários góticos e pelas peças publicitárias organizadas para a divulgação (trailers, cartazes e teaser) que nos leva a este universo literário. Mas recentemente, ao ler Três Domingos numa Semana, conto lançado pelo escritor em 1841, a relação foi solidificada muito além do senso comum.

No conto, o escritor fala de paradoxos temporais e viagem no tempo, muitas décadas antes de H. G. Wells ganhar fama com A Máquina do Tempo, de 1895, além de trazer uma espécie de antecipação da teoria da relatividade. Se a criatividade de Poe está no desenvolvimento de um enredo coeso com bases numa cronologia insólita, em Premonições a coesão e a coerência ganham espaço mais destaque nos aspectos visuais, em detrimento na maneira como a história é contada.

O clima estabelecimento pela fotografia e pelo design de produção é ótimo, pois ajuda no mistério pretendido pela obra. O trabalho de montagem de Neil Travis é inicialmente preguiçoso, se arrasta até mais da metade, mas ganha fôlego no final. Uma das vantagens técnicas da produção é a fuga dos sustos fáceis pelo trabalho de som, o clichê do suspense contemporâneo.

Como drama é arrastado, como suspense é ineficiente, mas no eixo temático, é interessante. Talvez uma pitada maior de adrenalina e uma proposta menos pretensiosa de confundir o espectador deixasse o filme melhor do que é. Mas como dito em algumas vezes em críticas de outros filmes, temos que pensar no filme pelo que ele é e não pelo que poderia ser.

Se tivesse caída nas mãos de um diretor mais pragmático, talvez o final tivesse sido tolo, o que anularia toda a experiência. Premonições é fraco, mas apresenta discussões interessantes sobre a condição pós-moderna. “Tempos líquidos”, com enfraquecimento da instituição familiar, cada vez mais ineficaz, além de mostrar um dos problemas mais comuns do homem contemporâneo: a luta contra o tempo. A produção é mais um filme sobre as rasuras no seio familiar, com direito a um dilema moral no final, bem no estilo “viver ou deixe morrer”.

Premonições (Premonition, Estados Unidos – 2007)
Direção: Mennan Yapo
Roteiro: Billy Kelly
Elenco: Sandra Bullock, Julian McMahon, Nia Long, Kate Nelligan, Courtney Taylor, Amber Valleta, Peter Stomare, Jude Ciccolella.
Duração: 96 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.