Crítica | Prenda-Me Se For Capaz

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“Querido pai, você sempre me disse que um homem honesto não tem nada a temer, então eu estou tentando o meu melhor para não ter medo.”

Contém spoilers.

Na extensa carreira cinematográfica de Steven Spielberg, poucos filmes exigiram mais da habilidade magnífica do diretor em contar histórias que Prenda-Me Se For Capaz. Isso acontece não porque a trama em si é fraca, sem grandes surpresas, complexidade ou resoluções inteligentes, exigindo, em consequência, um trabalho de direção muito mais evidente. Muito pelo contrário, a tamanha responsabilidade existe porque a trama é, de fato, bastante chamativa, com pretensões naturais de ser uma abordagem grandiosa do crime, o que ofuscaria a realização de diretores menos competentes, desinteressados em irem além de uma história apenas incrível, caracterização certeira para as desventuras do protagonista desta narrativa afiada. Acima de tudo, o brilho maior é em decorrência da inspiração da obra ser em fatos reais, que deram margem ao livro adaptado para o roteiro de Jeff Nathanson. O longa-metragem origina-se, assim, de uma narrativa extremamente sagaz, impressionante, permitindo, portanto, o diretor ceder a uma ambição benigna e se desvencilhar pelas suas habilidades como cineasta, através da mera superfície, naturalmente surpreendente. A condução de Spielberg vai muito além, empregando um estilo consciente, mas não exagerado, uma direção ágil, que permite diversos blocos narrativos serem costurados com bastante fluidez, sem possibilitar a presença de grandes digressões desnecessárias, além da abordagem extremamente certeira da vertente de discussão moral que Prenda-Me Se For Capaz possui, embasada sobre personagens extremamente marcantes.

Para um diretor como Steven Spielberg, voltado a uma ideia um pouco mais moralista da realidade, argumentada em muitas de suas obras, não necessariamente equivocando-se por isso, Prenda-Me Se For Capaz é justamente a contradição de sua própria filmografia, sendo um trabalho mais ousado e corajoso do cineasta, pois coloca bandido e herói para duelarem, sem fazer, nesse meio tempo, qualquer julgamento óbvio. Na realidade, Spielberg apresenta apenas anti-herói e herói, encarnados respectivamente por Leonardo DiCaprio e Tom Hanks, mas nenhum vilão de fato. Tendo isso em mente, ao entender os personagens que possui nas mãos, partes da envolvente perseguição de gato e rato conduzida pela narrativa, focada na história verídica de Frank Abagnale Jr, adolescente que foge da casa dos seus pais e passa a cometer diversos crimes de falsidade ideológica e falsificação pelos Estados Unidos, Spielberg constantemente aproxima o bandido interpretado por DiCaprio do detetive vivido por Tom Hanks. Contudo, o cineasta nunca dá ao espectador a sensação de um encontro verdadeiro, definitivo. A perseguição é basicamente interminável, ainda mais pelos olhos do público, querendo mante-los tão distantes quanto juntos. A derradeira prisão, notificada logo no início do filme, não é sobre vitória alguma, mas sobre a derrota dos envolvidos. O público assistindo Prenda-Me Se For Capaz, dessa forma, não sabe por quem torcer, visto que o trabalho de simpatização dos espectadores pelos personagens é justamente por aqueles que estão em posições antagônicas.

Durante essa inteligente condução da direção, o protagonista de Prenda-Me Se For Capaz comete crimes atrás de crimes, apesar do público nunca torcer realmente contra o garoto. Em muitos casos, o jovem até mesmo mostra-se, embora mentindo sobre sua identidade, verídico em seus sentimentos, como na relação construída com a personagem de Amy Adams. O resultado final é maior que qualquer empatia, encontrando espaço em uma ótica de simpatia. Steven Spielberg não quer o espectador abraçando os delitos de Frank – a moral do diretor não permitiria isso – mas quer ele abraçando o próprio jovem, investido em uma bola de neve sem fim, encurralado em seus próprios erros – a corda em volta do pescoço do garoto é paulatinamente apertada pelo personagem de Hanks. Sendo assim, Leonardo DiCaprio recebe uma abertura enorme para montar, no filme, um de seus personagens mais geniais e complexos, coincidindo, na atuação, a natural sagacidade de seu personagem com uma infantilidade inerente ao contexto que reside. Spielberg, ao mesmo tempo que evidencia um olhar quase intocável sobre o jovem, em decorrência das tantas vezes em que ele consegue se safar dos detetives, bastante engrandecedoras e também moleques, nunca permite o espectador enxergar, nem mesmo momentaneamente, Frank como um ser isento de falhas, colocando-o no chão e demonstrando seu medo e sua ingenuidade durante a constante fuga que participa, não apenas do sistema, mas também da vida adulta.

Os dois opostos se unem em um estudo de ambiguidades: a inteligência adulta, símbolo de uma maturidade e sagacidade difícil de ser associada a um jovem, mais esperto que os adultos do mundo real, contra a ingenuidade pueril, quase como um camundongo fugindo de um gigantesco felino, prestes a retorná-lo ao seu lugar de origem. O público enxerga, sente e pressente as duas facetas. Por exemplo, quando o menino passeia pelo aeroporto, a música Come Fly With Me, cantada por Frank Sinatra, surge, enaltecendo ainda mais a atitude e vitória de Frank. O conjunto completo da cena causa euforia ao público, maravilhado com a inventividade do garoto ao realizar tal façanha, já apresentada no filme anteriormente e, portanto, permitida a retornar. Assim como nesse caso, o próprio comportamento do jovem, fingindo ser muitas coisas, de advogado a médico, é uma reincidência naturalizada pelo roteiro. Mais para frente, chegando ao momento da derradeira prisão, todo o charme da criminalidade e daquela perseguição – mostrada sob um olhar ilusório de glória e glamour já na estilosa abertura do filme, com ótima trilha sonora de John Williams – se esvai, mas não abruptamente. As “contradições” comportamentais também são bastante entendíveis pelo espectador, disposto de um ótimo roteiro. O garoto, de certa forma, é apenas um menino clamando por ajuda, enquanto Carl Hanratty, desempenhando um papel quase paternal em relação ao jovem, muito mais do que prender o garoto, perdido em um mundo em que entrou sem querer e é incapaz de sair por conta própria, quer salva-lo.

Dessa forma, Prenda-Me Se For Capaz revela-se como uma obra, acima de tudo, sobre pai e filho, temática recorrente na filmografia do diretor, que sustenta-a, dessa vez, na relação do jovem com a natureza do divórcio. O desejo impossível e deveras ingênuo do menino, ansiando em poder novamente reunir pai e mãe, justifica as suas ações, diferenciando o longa-metragem de outras abordagens cinematográficas relativas a policiais perseguindo criminosos luxuosos, subtraindo, portanto, qualquer caráter genérico presente na fita. O olhar do menino em relação ao seu pai, interpretado magnificamente por Christopher Walken, torna toda a jornada fortemente compreensível. O garoto quer justamente ser o pai, independentemente do que isso seja. A trajetória é, dessa maneira, uma espécie de fuga da vida adulta, do enfrentamento de realidades infelizes, mas ainda assim reais. A grande ironia é que, para afastar-se dela, Frank Abagnale acaba tendo que adentrar uma maturidade inexorável, tornando-se advogado, médico, piloto e até mesmo casando. Sendo assim, Prenda-Me Se For Capaz é realmente um filme diferente de Steven Spielberg. Além de complexo na relação de espectador com personagem – o casting de Hanks é certeiro devido a própria fama do ator, instantaneamente adorado -, o filme caminha para uma conclusão não necessariamente infeliz, mas dissonante de uma felicidade típica dos finais que Spielberg costuma adotar. O destino é o amadurecimento, reunindo o jovem à burocracia mundana que tanto tentou se afastar, mas nunca conseguiu completamente se desvencilhar, sendo o único fim possível para uma história de fuga a um inimigo sempre próximo.

Prenda-Me Se For Capaz (Catch Me If You Can) – EUA, 2002
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Jeff Nathanson
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hanks, Christopher Walken, Amy Adams, Martin Sheen, Nathalie Baye, James Brolin, Brian Howe, Frank John Hughes, Jennifer Garner, Elizabeth Banks, Ellen Pompeo, John Finn, Chris Ellis, Steve Eastin
Duração: 141 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.