Crítica | Presságios de Um Crime

estrelas 3

Escrito originalmente para ser uma continuação do inebriante Seven – Os Sete Crimes Capitais, Presságios de Um Crime tem tudo para ser um ótimo de suspense: tem charme, atores bem competentes desenvolvendo personagens mais esféricos que o convencional, excelente direção e montagem, bem como fotografia. O que será que faltou para ser um daqueles filmes “cinco estrelas”? A resposta, caro leitor, você acompanhará mais adiante.

No filme os agentes Joe (Jeffrey) e Katherine (Abbie) estão numa sufocante caçada a um assassino em série conhecido por deixar uma perfuração na nuca das suas vítimas. Além da “arte” no corpo alheio, o “procurado” também é famoso por não deixar pistas que facilitem o seu caminho. Diante do problema, Joe decide procurar o experiente Dr. John Clancy (Anthony Hopkins), um vidente eficiente que vive isolado desde a morte prematura da sua filha.

Inicialmente, como todo suspense clichê hollywoodiano, tendo em mira identificação mais rápida da plateia, Dr. John não aceitará fazer negócio. Basta aguardar uma rápida elipse para o homem que consegue prever o futuro entrar em cena, ajudar nas investigações e chegar até o audacioso  psicopata (Colin Farrell). Pronto, o filme poderia ter acabado por ai, entretanto, não é um média-metragem e nem um episódio de série de televisão, apesar de parecer bem mais eficiente para o formato telefilme. Dr. John descobre que seu antagonista também é um vidente, tão poderoso quanto ele, talvez mais. E agora, o que fazer?

Bom, é nesse momento que o filme perde impacto. Cientes do anticlímax, os roteiristas estavam cientes da previsibilidade que tudo poderia se tornar. Para não cair nesta armadilha, acabaram tropeçando em algo muito maior: adentraram no pantanoso campo da verossimilhança. Oferecem um festival de potencialidades para o antagonista, mas logo adiante, quando convém ao desfecho do filme, retiram o que haviam dado, tornando o roteiro um texto sem unidade.

Escrito pelo iniciante Sean Bailey, em parceria com o experiente Ted Danson, de Onze Homens e um Segredo e Roubo nas Alturas, Presságios de Um Crime não é um filme ruim. É apenas um pouco CSI, mesclado com todos os filmes de suspense com um psicopata que você já deve ter assistido, seja o filme, o trailer ou apenas a chamada televisiva. Todavia, a sua vantagem é ser bom. Não diria ser culpa do filme, mas sim da sua indústria que recicla a mesma narrativa, à exaustão, todo ano.

Ao final, fica a impressão de já “ter visto algo parecido” antes. Como apontado em outras reflexões cinematográficas, sabemos que estamos diante de uma tradição narrativa milenar. Muito já foi feito e contado na literatura, no teatro, no cinema e atualmente, nas séries de TV, narrativas que se multiplicam como as infames criaturas do filme Gremlins. Os envolvidos no projeto, também cientes disso, adicionaram ao filme altas doses de “estilo”.

A direção do brasileiro Afonso Poyart é eficiente, bem como o trabalho de montagem do seu colega, também brasileiro, Lucas Gonzaga. A direção de fotografia, assinada por Brendan Galvin entrega imagens instigantes e muito envolventes. Visado no mercado desde o longa-metragem 02 Coelhos, Poyart entrega uma direção para produtor hollywoodiano nenhum colocar defeito: os movimentos são inusitados, os enquadramentos sofisticados e adornados por uma fabulosa estética publicitária, principalmente nas cenas premonitórias do personagem de Anthony Hopkins.

Some tudo isso aos ótimos efeitos envolvendo luzes, cores e sons. Elementos unificados que nos fazem deixar de lado a equação crimes estabelecidos + ausência de pistas + investigação + descobertas = desfecho com redenção + pitadas de ética na vingança + eutanásia = por que esse assunto entrou ao final sem maior densidade? Isso tudo é Presságios de Um Crime: uma produção com 101 minutos de imagens sofisticadas e algumas derrapadas perdoáveis no roteiro.

Presságios de Um Crime (Solace) – EUA, 2015.
Direção: Afonso Poyart.
Roteiro: Sean Bailey e Ted Griffin.
Elenco:  Jeffrey Dean Morgan, Abbie Cornish, Colin Farrell, Anthony Hopkins, Marley Shelton, Kenny Johnson, Sharon Lawrence, Janine Turner, Xander Berkeley, Matt Gerald.
Duração: 101 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.