Crítica | Primavera (2014)

estrelas 3,5

Primavera é, sem dúvidas, o filme que mais me surpreendeu no Festival do Rio. Não por ser de uma qualidade exemplar, mas por conter um, no mínimo, surpreendente twist na metade de sua projeção. O filme faz parte da mostra Midnight Terror, conhecida por violentas retratações, filmes B ou de um terror mais pesado.

O que vemos no início, contudo, foge completamente do que esperamos. Evan, um jovem em seus vinte anos, recentemente teve seu pai falecido e agora presencia a morte de sua mãe. Desolado ele decide fazer uma viagem para a Itália, onde acaba passando dias e dias junto de um grupo de mochileiros. Lá ele conhece Louise (Nadia Hilker), uma bela jovem italiana, com aproximadamente sua idade, com que, começa a ter um caso amoroso.

Para construir essa fuga bucólica da realidade, os diretores Justin Benson e Aaron Moorhead utilizam uma fotografia mais esfumaçada, emulando uma sensação onírica no espectador. Com uma montagem mais calma, eles garantem um tom tipicamente de drama europeu ao filme. É nesse ponto que o inesperado muda completamente nossa percepção da obra. Louise, na verdade, éuma criatura milenar que assume formas monstruosas, uma mistura de vampiro, lobisomem, monstro da lagoa. Do drama, então, partimos para o filme B e, por incrível que pareça, a mistura funciona de forma orgânica, conseguindo criar uma tensão palpável no espectador ao ponto que o protagonista não sabe do que há por trás de sua nova paixão.

De fato, quando olhamos para trás, a projeção nos dava indícios de algo sombrio por trás dessa trama romântica. Planos de aranhas capturando ,iscas em suas teias, lagartas entrando em seus casulos. E o próprio título, Primavera, se encaixa na trama construindo Uma percepção de algo se desabrochando, nos remetendo imediatamente às constantes metamorfoses da jovem italiana.

O longa-metragem ainda consegue nos convencer da relação entre os dois pela ótima retratação por parte de Lou Taylor Pucci – a perfeita encarnação do garoto desolado – e Nadia Hilker, a femme fatale por definição. Com diálogos bem construídos e situações que oscilam entre o romântico, humor, drama e terror, temos uma interessante amálgama que não cansa o espectador em qualquer ponto.

O deslize somente se faz presente nos trechos finais, estendendo a obra por uma duração indesejável que acaba soando demasiadamente cliché e melosa. A orgânica mistura é substituída por um romance irreal e egoísta, que facilmente poderia ser substituído por um encerramento com maior originalidade, algo que o próprio filme já demonstrara ao longo de seu percurso.

Primavera pode não ser perfeito, mas nos traz uma impensável união de gêneros, que funciona consideravelmente bem. Os problemas no roteiro ao fim do longa prejudicam nossa imersão, mas não nos distanciam do restante da inovação da obra. Definitivamente digno de fazer parte do Midnight Terror.

Primavera (Spring – EUA, 2014)
Direção:
 Justin Benson, Aaron Moorhead
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Lou Taylor Pucci, Nadia Hilker, Vanessa Bednar, Shane Brady
Duração: 105 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.