Crítica | Primeiro Janeiro

estrelas 5,0

Poucas coisas afetam a vida de uma criança tanto quanto a separação de seus pais. Naturalmente não defendo que uma relação não-saudável deva ser mantida, o que pode ser tão ou até mais prejudicial para o filho, sem falar nas próprias duas pessoas envolvidas. Primeiro Janeiro, primeiro longa-metragem dirigido por Darío Mascambroni lida com essa questão, demonstrando a dificuldade de um menino em aceitar que seu pai e sua mãe não se encontram mais juntos, um filme curto, de apenas 65 minutos, mas que consegue atingir o espectador de forma certeira, tendo ganhado o prêmio BAFICI de Melhor Filme Argentino em 2016.

A projeção tem início dentro do carro de Jorge (Jorge Rossi), que leva seu filho Valentino (Valentino Rossi) em uma viagem para o campo. Sua intenção é, em uma cabana na beira da mata, realizar uma lista de tarefas que seu pai e seu avô fizeram antes dele juntamente de seus filhos, uma espécie de ritual, visando uma maior aproximação com a criança. De ver a noite estrelada no topo de um morro até comer a carne de um cordeiro recentemente abatido, acompanhamos a dinâmica da relação entre pai e filho, tendo, como plano de fundo, a separação.

O que mais nos chama a atenção é a realidade que enxergamos em Primeiro Janeiro. A impressão é que, de fato, estamos frente a frente com duas pessoas que estão verdadeiramente em uma viagem. A escolha de utilizar o ator e seu filho pode ser arriscada – trabalhar com crianças não é algo exatamente fácil – mas Mascambroni consegue colocar em tela toda a química presente entre os dois e no olhar de Valentino enxergamos  uma tristeza escondida, a vontade absoluta de ver seus pais juntos novamente e a cada pergunta ou insinuação desse seu desejo para Jorge evidencia a dor que o pai também sente.

O roteiro, contudo, não se permite afundar somente nessa questão e sabiamente coloca em segundo plano a relação entre os dois. Com isso, ele consegue criar uma mistura bastante homogênea do humor e o drama. Não há como não rir da forma como Valentino age, ações e falas típicas de crianças, como o clássico “estou cansado” ou as repentinas mudanças de humor, como se o mundo estivesse acabando por qualquer coisa. A forma como atitudes adultas eclodem da mente das crianças é outro atrativo aqui, evidenciando o quanto há na cabeça do jovem.

O naturalismo presente em tela é também garantido pela iluminação natural e a diegética, que tomam conta do longa-metragem, criando em nós a impressão de que somos um elemento observador presente naquele local. Além disso, toda a questão do refúgio para o campo, longe da tecnologia e da luz elétrica é ressaltada por essa escolha da fotografia, que procura realizar tudo da forma mais realista possível.

Primeiro Janeiro é um filme que certamente marcará a todos de alguma forma, seja porque tenham vivido uma separação ou simplesmente pela forma de conexão estabelecida com o pai e o filho. É uma narrativa que aposta na simplicidade, em situações completamente normais, mas que relembram a importância das coisas pequenas em nossas vidas, como jogar cartas com o pai ou fazer uma pizza com ele – de fato, o que há mais importante que se aproximar de alguém que o ama? A obra de Darío Mascambroni funciona como uma necessária lembrança disso.

Primeiro Janeiro (Primero Enero) – Argentina, 2016
Direção:
Darío Mascambroni
Roteiro: Darío Mascambroni
Elenco: Valentino Rossi, Jorge Rossi, Eva Torres
Duração: 65 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.