Crítica | Primitivo

O subgênero eco-horror é bastante frutífero, pois a partir da sua existência há uma série de ramificações: filmes com tubarões, crocodilos, serpentes, morcegos, aranhas, leões, etc. Os crocodilos assustam plateias desde o cinema clássico, em especial, a divertida aventura do réptil jogado pela descarga e que ganha um tamanho descomunal nos esgotos de Nova York, trama exibida exaustivamente na televisão aberta.

Material considerado potência para assustar plateias ao redor do planeta, os ataques de crocodilos são bastante comuns na vida real e às vezes produzem sensação de medo maior que os filmes que se baseiam nestas histórias. Em março de 2017, um jogador de futebol de Moçambique morrer depois de ser atacado por um crocodilo enquanto treinava próximo a um rio. Estevão Alberto Gino teve o corpo dilacerado ao tomar banho depois de uma partida, haja vista a falta de água encanada na região em que treinava. Em abril de 2015, um homem embriagado morreu afogado após ser arrastado por um crocodilo na lagoa Bojórquez, região hoteleira de Cancun. Muito assustador, não é mesmo?

Primitivo, dirigido por Michael Katleman, também se baseia numa história real, mas obviamente, por questões industriais, amplia os horizontes narrativos e torna o animal algo próximo de uma das sequências da franquia Jurassic Park. Confesso que acho uma tremenda chatice, as análises que flertam com o subgênero eco-horror e apontam as suas discrepâncias com a realidade. O mundo parece ter perdido a noção de ironia, ou então, desconhece a metáfora. O que o filme propõe é uma aventura que nos tire dessa normalidade. Quem se submete a assistir aos filmes do estilo sabe o que os espera.

O problema na verdade está na maneira como a história é guiada. Em Morte Súbita temos praticamente o mesmo enredo, com algumas diferenças. Não há a caçada pelo animal, mas a relação de personagens que estão distante de casa, mas submetidos aos horrores de um monstro sanguinário está na estrutura do subgênero. A questão aqui é como a história se desenvolve, porque não adiante os melhores efeitos especiais, se por caso, os personagens são planos, desinteressantes, a trama é pífia e os conflitos estéreis, nos fazendo torcer mais pelo crocodilo que pelos humanos.

Com roteiro de John D. Brancato e Michael Ferris, Primitivo é um filme que segue uma equipe de jornalistas que precisa registrar a captura de um crocodilo que já matou cerca de 300 pessoas. A região passa por um terrível problema político que aumenta as chances dos personagens morrerem, pois além de tentar se salvar do animal, vão precisar driblar a guerra civil que domina o local. O roteiro, ao mesclar tantos temas sem conseguir concatena-los organicamente acaba por realizar o que uma crítica escreveu na época de seu lançamento: a trama como um crossover de Tubarão, Diamante de Sangue e Hotel Ruanda.

Na equipe temos Tim Manfrey (Dominic Purcell), um jornalista que precisará pagar os seus pecados depois de cometer uma falha jornalística que quase coloca a sua carreira a perder; a produtora Aviva Maters (Brooke Longton), personagem típica que precisará ser “salva” pelos homens; o cinegrafista Steven Johnson (Orlando Jones) e outros personagens que são encaminhados para cobrir a história do crocodilo que está dizimando vidas às margens de um rio na região que já sofre pelos problemas de ordem política e social.

Ao longo de seus 94 minutos, a aventura filmada entre os Estados Unidos e uma região do Barundi, pequeno país que abriga a nascente do rio Nilo, inspira-se na história de Gustave, um enorme crocodilo-do-nilo macho. Venerado na antiguidade como divindade egípcia, os crocodilos dessa espécie são conhecidos por carregar as suas vítimas para dentro da água e esperar até que a carne fique macia para se alimentar. Gustave ficou conhecido por este nome depois de ter sido fotografado por um jornalista da National Geographic, ganhado um documentário e ter sua existência registrada até 2008, ano que desapareceu, deixando de ser uma “celebridade”.

Se o filme não é tão assustador e causa incômodo pelos exageros, prefira ver a reportagem sobre o casal de hóspedes em apuros em uma piscina do hotel em que estavam passando as férias, na região de Zimbabwe. Enquanto curtiam um banho relaxante, perceberam a presença de um crocodilo que os atacou imediatamente. Ela foi atacada enquanto nadava na direção contrária da piscina, diferente do marido que conseguiu escapar da piscina por outro lado. Com cortes nas costas, ombro e cotovelo, a sobrevivente é o equivalente de um destes personagens cinematográficos que passam pela terrível e inesquecível experiência, marcada para o resto da vida. Moral da história: a vida às vezes pode ser mais cruel e aterrorizante que a ficção, mesmo que o problema seja um crocodilo cem vezes menor que o monstro fílmico.

Primitivo (Primeval) — EUA, 2007.
Direção: Michael Katleman
Roteiro: John Brancato, Michael Ferris
Elenco: Brooke Langton, Dominic Purcell, Gideon Emery, Kent Shocknek, Orlando Jones, Chris April, Gabriel Malema, Vivian Moodley
Duração: 94 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.