Crítica | Priscilla, A Rainha do Deserto

estrelas 4,5

Priscilla, A Rainha do Deserto é um fenômeno. Poucos filmes conseguiram tratar de temas complexos através de camadas generosas de ironia, sem se deixar cair nas armadilhas da caricatura e da banalização.  Dirigido e escrito por Stephan Elliott, a ideia para o filme curiosamente surgiu durante uma viagem do cineasta ao Brasil, em 1989, especificamente no Rio de Janeiro, depois de assistir a um desfile repleto de transformistas.

Ao flertar com temas como pedofilia, homoafetividade, violência física e simbólica, este inesquecível filme traz à baila questões contemporâneas referente ao universo dos homossexuais e artistas da performance, alvo de preconceito e estigmas sociais. Galgado na possibilidade de ser subversivo, a narrativa trata da resistência aos modos vigentes, numa ode aos elementos estéticos da alegria, em contraposição ao ressentimento.

O road-movie acompanha a trajetória de duas drag queens, Felicia (Guy Pearce) e Mitzi (Hugo Weaving), juntamente com a transexual Bernadette (Terence Stamp), todas rumo a um resort em Alice Springs, região turística no remoto deserto australiano. Elas viajam no estilizado e irreverente Priscilla, ônibus que dá nome ao filme. No percurso, vários desafios ao estilo Thelma & Louise são impostos, numa jornada que mudará para sempre as suas vidas.

Do roteiro aos aspectos visuais, o filme é uma sucessão de escolhas certeiras: antes de traçar uma análise dos melhores detalhes dramatúrgicos do filme, excursionarei pelos elementos estéticos. Os figurinos são excêntricos e delineiam os perfis psicológicos dos personagens, em contraste com a aridez da cenografia desértica. Tim Chappel e Lizzy Gardiner, responsáveis pelos figurinos ultrajantes capricharam em vestidos feitos de sandálias, fantasias de animais da região, perucas e adereços que refletem com maestria a estética camp.

A direção musical assinada por Guy Gross caprichou nas músicas incidentais e nos clássicos que dão espaço para a inserção de videoclipes que funcionam, inclusive, quando assistidos separadamente: destaque para Mamma Mia, do ABBA; Finally, de CeCe Peniston; e o hino I Will Survive, de Gloria Gaynor. No caso da direção de fotografia de Brian J. Breheny, temos a cuidadosa iluminação, bem como os enquadramentos vivos e a boa relação com a Direção de Arte de Colin Gibson. A montagem de Sue Blainey também merece um olhar mais apurado, pois torna bastante orgânica as viagens entre passado e presente, sem quebras abruptas do ritmo narrativo.

Apresentados os elementos visuais, precisamos dar um enfoque no roteiro de Stephan Elliott, competente ao dirigir e escrever o filme. Ao usar o road-movie como metáfora para os personagens em transformação, a viagem se torna um acerto de contas dos acontecimentos do passado, reconfigurados no presente. Revolucionário, o filme espalha confetes por todos os lados sem deixar a reflexão e a crítica de lado. Mesmo tendo o sombrio passado recente da década de 1980, era de pesadelo para os homossexuais no tecido das relações sociais, a produção consegue manter-se coesa e capricha no equilíbrio narrativo.

Em Priscilla, A Rainha do Deserto, todos os personagens escondem algo que será fruto do devir de cada um, no momento exato ao passo que a narrativa avança. Sem as comuns revelações bruscas e descuidadas comuns aos cineastas apressados, o filme sabe o momento certo de revelar as suas subtramas e transformar ainda mais o universo dos personagens.

Temos o afetado e inconsequente Adam, nome de batismo de Felícia, personagem cínico, irônico e irritante em alguns trechos, “artista vinte quatro horas por dia, sete dias por semana”. Em seu passado, guarda como lembrança o assédio do seu tio, responsável por convidar-lhe para adentrar na banheira e fazer parte do banho durante uma situação que termina de forma inusitada. Sem recalcar o acontecimento e transformá-lo em trauma, Adam narra o que aprontou com o tio, numa espécie de estratégia demonstrativa de como aprendeu a se defender ao longo da vida.

Representante da experiência e do amadurecimento, temos Ralph, nome de batismo de Bernadette, que por sinal, o abomina. Ela é a transexual que acabou de perder um companheiro de longa data. Sem apoio da família e solitária, resolve acompanhar a trupe e vai protagonizar diversos embates com Felícia. Em um flashback, somos apresentados a uma festa de natal no passado, provavelmente nos anos 1970, com Ralph e sua irmã disputando o presente de natal, uma boneca. Os conflitos familiares fazem parte de alguns dos motivos da sua relação hostil com os pais. No entanto, como diz em certo trecho, “se hoje sei lutar é porque apanhei muito”. É a experiência que faz de Ralph uma espécie de mentor do grupo.

Para equilibrar alguns conflitos entre a geração Bernadette e o juvenil e pouco responsável jeito de Felicia, temos Anthony, nome de batismo de Mitzi, personagem que já foi casado, descobriu-se gay no processo, é muito amigo da ex-mulher e descobre, ao longo da jornada, que tem um filho de oito anos. É neste segmento, inclusive, que o filme se mostra uma produção que vai além do transformismo e da luta por representação gay, ao tratar também da paternidade.

Uma das grandes preocupações de Anthony é saber como o seu filho aceitará a sua condição de artista e homossexual. Sabemos que nem sempre as coisas funcionam desta maneira, mas o caminho escolhido pelo filme é emocionante, meigo e carinhoso: em uma das cenas mais intensas, o filho diz que sabe que o pai é “um artista”, isto é, compreende a sua condição sem os julgamentos comuns ao universo heteronormativo. Ao viajar com o pai, pois a mãe se envolveu em um projeto e precisa de férias, o jovem rapaz demonstra respeito e adentra tranquilamente no universo lúdico e afetado do pai, sem celeumas. Muito, mas muito bonito de se ver. Uma belíssima demonstração de respeito às liberdades individuais. É na expectativa deste reencontro com o filho que parte do filme encontra o combustível dramatúrgico para necessário para continuar.

Há ainda a presença de Bill Hunter como um mecânico que presta socorro durante um problema com o ônibus. Depois de uma crise com a esposa inconstante, ele segue juntamente com o trio em viagem e um romance com Bernadette se revela na sutileza. Uma aula de sugestão que o cinema, em especial o apressado, explicativo e didático nicho hollywoodiano, deveria aprender.

Antes de encerrar este olhar direcionado aos elementos que estruturam a narrativa internamente, cabe ressaltar alguns detalhes da estética camp, termo cunhado por Susan Sontag nos anos 1960, reconfigurado com o passar do tempo. O termo, que pode ser traduzido para “fechação”, significa “aceitação”. Segundo os estudos da área, conhecida no meio acadêmico como Teoria Queer, as piadas, caricaturas e histrionismos gestuais possuem o objetivo de transformação diante da conflituosa realidade vivida por estes indivíduos, numa espécie de simulação da vida como manifestação artística. É nessa transformação de cunho estético que se impõe o político, o que dá corda aos famigerados comentários heterossexuais do tipo “não precisa isso”, “ele é homossexual, mas não precisa se vestir assim”, etc.

Ao longo dos divertidos 103 minutos, Priscilla, A Rainha do Deserto é um espetáculo visual merecedor do Oscar de Melhor Figurino, do prêmio homônimo, juntamente ao de maquiagem do BAFTA 1995, além das indicações ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical e ator para Terence Stamp. Ganhou montagem musical, migrou para a Broadway e depois teve a sua versão brasileira, sucesso de bilheteria teatral em São Paulo.

Numa época que o cinema australiano era conhecido pelas aventuras selvagens de Crocodilo Dundee, o road-movie de Stephan Elliott veio para dar novo olhar ao que se produzia na Austrália, tendo ainda a grata missão de fornecer novo verniz aos integrantes das comunidades LGBT ao redor do planeta, pois o contexto pós-AIDS e o constante olhar estigmatizado da mídia e da sociedade tinham tornado os homossexuais um nicho de demonização.

Priscilla, A Rainha do Deserto ainda é bastante atual e vai demorar muito tempo para sair do mapa da memória coletiva do cinema. Numa época em que o transformismo está em alta, com o sucesso mundial de RuPaul’s Drag Race, reality show apresentado por RuPaul, conhecido pelas disputas de drag queens pelo título de Drag Superstar da América, creio que vá demorar bastante para a indústria cultural perder o interesse pelo tema. Voltando ao filme, destaque para a performance no teto do ônibus, imortalizada pelas paródias e releituras produzidas ao longo dos vinte anos de ressonâncias do filme na cultura da mídia e na sociedade do espetáculo.

Priscilla, A Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, The Queen of Desert) — Austrália, 1994
Direção: Stephan Elliott
Roteiro: Stephan Elliott
Elenco: Alan Dargin, Bill Hunter, Bob Boyce, Daniel Kellie, Frank Cornelius, Guy Pearce, Hannah Corbett, Hugo Weaving, John Casey, Joseph Kmet, Julia Cortez, June Marie Bennett, Ken Radley, Leighton Picken, Maria Kmet, Mark Holmes, Murray Davies, Rebel Penfold-Russell, Sarah Chadwick, Terence Stamp, Trevor Barrie
Duração: 103 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.