Crítica | Prison Break – 1ª Temporada

estrelas 3,5

A 1ª temporada de Prison Break tem uma das premissas mais absurdas, exageradas e impossíveis da televisão, uma execução toda baseada em uma cascata de coincidências de último segundo que resolvem os mais variados problemas a cada episódio e que exigem do espectador um elevadíssimo grau de suspensão da descrença somente para evitar que tudo seja levado na galhofa e um elenco variadíssimo em termos de qualidade dramática. E, por incrível que pareça, ela funciona. E funciona bem, mesmo considerando a estrutura alongada clássica de 22 episódios de algo como 45 minutos cada um.

Paul Scheuring recebeu o conceito da série de Dawn Parouse, prolífica, mas então não muito relevante, produtora de Hollywood. No entanto, o próprio Scheuring duvidou da viabilidade da premissa de uma série baseada em fuga de prisão e demorou algum tempo até desenvolver a ideia até um ponto em que ele pudesse levar para a Fox. Mas, ao chegar por lá, o estúdio torceu o nariz para Prison Break e só voltou ao assunto quando 24 Horas e Lost começaram a despontar na televisão aberta. É perfeitamente razoável imaginar essa hesitação toda, pois, voltando um pouco no tempo, como fazer algo que não fosse uma minissérie baseada na ideia original? Por mais sofisticado e complexo que fosse o plano de fuga, ele teria que entregar a fuga em si como resultado e segurar isso durante a vida de uma série parecia impossível. E, de fato, foi, pois Prison Break, felizmente, limita-se a uma temporada na penitenciária estadual original de Fox River, em Illinois, com uma história que lida com a integralidade dessa parte do plano do protagonista e deságua exatamente na fuga, algo como uma versão interminável – e sem Clint Eastwood – de Fuga de Alcatraz.

A história gira em torno de dois irmãos: Lincoln Burrows (Dominic Purcell) que se encontra preso na referida penitenciária de segurança máxima por um crime que em tese não cometeu e que aguarda sua execução e Michael Scofield (Wentworth Miller), um brilhante arquiteto que monta um plano mirabolante para tirar seu irmão da prisão que envolve ele mesmo ser preso e enviado para a penitenciária e uma tatuagem de corpo inteiro que tem não só a planta do lugar como diversas informações necessárias para a fuga. Reparem bem: Michael, que sempre teve uma vida toda certinha, comete um crime, é preso, enviado para a mesma penitenciária do irmão (não é uma coincidência tão terrível, pois existe uma lógica por trás) e usa as únicas coisas que pode levar lá para dentro, sua mente privilegiada e sua pele tomada por um intrincada tatuagem que disfarça o lado técnico com desenhos elaborados. Só isso já faria qualquer espectador sério rolar os olhos, balançar a cabeça e suspirar em incredulidade.

No entanto, talvez seja exatamente esse “atrevimento” da premissa que torne a série tão empolgante pelo menos em sua 1ª temporada. É tão louco que o espectador quase que se sente obrigado a continuar para ver no que vai dar essa história toda. Estruturalmente, porém, fica evidente que 22 episódios foram demais para a execução do plano. Mesmo considerando que o drama oscila entre sequências dentro da prisão (a maioria) e fora dela, com Veronica Donovan (Robin Tunney), advogada e amiga de Michael, re-investigando o alegado crime cometido por Lincoln e, claro, encontrando novas e interessantes pistas, não havia material para tanto e alguns episódios parecem ser artificialmente alongados com a criação de suspenses que, no lugar de serem sempre eficientes, são desgastantes.

Afinal, quase que a cada episódio Michael se depara com algo que dá errado com determinada parte de seu plano. E, a cada episódio, ele é obrigado a usar sua mente brilhante para driblar o problema, normalmente atraindo a ajuda de detentos locais, alguns que ele já planejava mesmo usar e outros que acabam entrando na história por perceberem que naquele mato tem cachorro. Chega a ser engraçado como tudo dá errado no plano tão bem elaborado por ele, desde a obtenção de um simples parafuso até o avião que deveria resgatá-los ao final, passando por buracos na parede à la Um Grito de Liberdade, policiais sádicos como o exagerado (e, convenhamos, paspalho) capitão Brad Bellick (Wade Williams), até a bela filha do governador, que é médica na penitenciária, Dra. Sara Tancredi (Sarah Wayne Callies) e cujo papel no plano de Michael é tão vital, mas tão vital que chega a ser inacreditável que tudo dependa de ele “conquistá-la”…

Enquanto Wentworth Miller consegue convencer razoavelmente bem com seu ar misterioso-sabichão-pensativo-sofredor, grande parte do restante do elenco – incluindo os nomes que citei acima – vivem seus personagens da maneira mais clichê possível, com Dominic Purcell sendo particularmente ruim mesmo, não convencendo nem como brucutu neandertal. Não que não seja divertido, mas apenas destaco que o sarrafo dramático nos testes para escolher o elenco deve ter sido colocado no chão, talvez para justamente equalizar com a maluquice da premissa. O único verdadeiro destaque é Robert Knepper, vivendo Theodore “T-Bag” Bagwell, um violento detento que gosta de fazer seus “casos” o seguirem segurando o forro de seu bolso que ele coloca do lado de fora (marca registrada dele a tal ponto que, toda vez que vejo o ator em outra série ou filme, espero vê-lo fazendo isso e acabo me frustrando) que força sua entrada no plano de Michael e quase põe tudo a perder umas 15 vezes. Seu T-Bag é composto como um vilão forte, irritante, de presença inesquecível e que faz parte daquela galeria de personagens que nós amamos odiar. Confesso que, em determinados momentos, torci mais por ele do que pelo próprio Michael.

O bom de Prison Break é que, ao menos nessa 1ª temporada, ela tem consciência do que é e não tenta ser mais do que uma diversão descerebrada para ser assistida sem compromisso e, de preferência, com guloseimas ao alcance da mão. Temporadas de mais de 13 episódios são sempre complicadas em termos narrativos, mas, aqui, as coisas são tão over e tão impossíveis, que o resultado final é um baita guilty pleasure.

Prison Break – 1ª Temporada (EUA – 29 de agosto de 2005 a 15 de maio de 2006)
Criador e showrunner: Paul Scheuring
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Dominic Purcell, Wentworth Miller, Robin Tunney, Peter Stormare, Amaury Nolasco, Marshall Allman, Wade Williams, Sarah Wayne Callies, Paul Adelstein, Robert Knepper, Rockmond Dunbar
Duração: 960 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.