Crítica | Prison Break – 5ª Temporada

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estrelas 3

Obs: Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Prison Break não é e nunca foi uma série muito boa. Longa demais, com um elenco em linhas gerais fraco (a grande e mais constante exceção sendo Robert Knepper, o T-Bag) e baseado em premissa estapafúrdia com roteiros absurdos, que exigem demais da suspensão da descrença e que fazem uso constante de coincidências e deus ex machina para encerrar arcos narrativos, a série, porém, é, pelo menos para mim, um inexplicável prazer. Ou, na verdade, é algo perfeitamente explicável, pois ela cai como uma luva na lista de guilty pleasures, ou seja, obras que sabemos que são no máximo razoáveis, constantemente ruins, mas que funcionam maravilhosamente bem em um nível subconsciente que é mais forte do que nós.

É assim que me senti ao longo das quatro temporadas clássicas da série, de 2005 a 2009, só não  conseguindo ver qualidade alguma no terrível telefilme The Final Break, que serviria para “encerrar de vez” a história. Como todo guilty pleasure, após seu fim, o que ficava era aquela sensação de ter visto algo divertido com um cara tatuado que entrou na prisão para soltar seu irmão, mas não muito mais do que isso. Corta para o presente, com o anúncio da Fox de que, na linha de 24: Legacy e Heroes Reborn, ressuscitaria também Prison Break para uma “temporada evento” de nove episódios. Eis que aquele lugarzinho no cérebro reservado a porcarias divertidas acorda novamente e corre atrás das temporadas anteriores em preparação à volta de Lincoln, Sara e, por incrível que pareça, Michael Scofield, apesar de ele ter morrido e sido enterrado ao final da quarta temporada. Como não ficar curioso pelo menos com a engenhosidade de Paul Scheuring em trazer Michael de volta à vida depois desse tempo todo? Ou será que ele não volta e tudo é apenas uma cortina de fumaça?

E, como o tempo real passado entre as temporadas, a volta de Prison Break começa sete anos depois dos eventos que sepultaram a série original, com T-Bag finalmente saindo de Fox River e recebendo, junto com seus pertences, um envelope com uma foto desfocada e em preto e branco do que seria Michael Scofield vivo em alguma prisão no Oriente Médio ou país de forte influência árabe em razão de um minarete que aparece ao fundo. É a partir do detento que deveríamos odiar, mas que aprendemos a amar, que Scheuring põe todas as suas peças em movimento, logo envolvendo Lincoln, novamente envolvido com a criminalidade, e Sara, casada novamente e cuidado de seu filho Mike (Christian Michael), em uma luta para descobrir o que realmente acontecera com Michael, isso se aquela pessoa que aparece na foto for mesmo ele.

Todo o nível de absurdo que a série havia chegado na quarta temporada não chega nem aos pés do que vemos aqui. E isso, por mais contraditório que possa ser, é muito bom. Esperar verossimilhança, realismo ou qualquer coisa semelhante de Prison Break é o mesmo que esperar água doce no oceano. E Scheuring sabe disso, já que os roteiros trabalhados por ele, Josh Goldin, Rachel Abramowitz, Michael Horowitz e Vaun Wilmott parecem ter sido costurados em reuniões regadas à muita bebida e narcóticos para apagar qualquer traço da libido deles, permitindo que literalmente qualquer coisa fosse para a telinha. Com isso, temos Michael – ou alguém muito parecido com ele chamado Kaniel Outis, terrorista procurado mundialmente – em uma prisão do Iêmen tentando libertar o Osaba bin Laden local, mas com a cidade sendo constantemente bombardeada pelo Estado Islâmico. Lincoln e C-Note (Rockmond Dunbar), este convenientemente com contatos na comunidade muçulmana, partem para libertar esse Michael/Kaniel e, no Iêmen, arregimentam a ajuda da bela Sheba (Inbar Lavi).

Nos EUA, Sara tenta desbaratar o mistério envolvendo essa possível volta à vida de Michael, passando a ser perseguida por uma dupla de assassinos – A&W (Marina Benedict) e Van Gogh (Steve Mouzakis), mais incompetentes do que os stormtroopers em Star Wars – e sendo ajudada algumas vezes por T-Bag. O enorme mistério por trás de tudo parece girar em torno de um agente da CIA com agenda própria cujo codinome é Poseidon e é esse quebra-cabeças que passa a ser montado ao longo dos frenéticos nove episódios da temporada que realmente prendem a atenção do espectador que estiver disposto a aceitar os absurdos e só divertir-se da maneira mais descerebrada possível.

Aliás, descerebrada não, pois há uma hilária prepotência por trás desse trabalho de Scheuring ao pontilhar os episódios, de maneira nada discreta, com elementos que fazem remissão à Odisseia. Sim, aquela mesmo escrita por Homero, uma das mais importantes obras literárias do ocidente. Poseidon, como todos devem saber, é o deus que desvia o caminho da volta de Ulisses (ou Odisseu) para o reino de Ítaca e, consequentemente, para sua mulher e seu filho, depois que Ulisses cega Polifemo, o cíclope que é filho desse deus. Não coincidentemente, não só um dos vilões menores da temporada não tem um dos olhos e é apelidado de Cíclope (Amin El Gamal), como a cidade onde Sara e o pequeno Mike moram com Jacob (Mark Feuerstein) é justamente Ithaca, em Nova York, e há diversas outras menções a mitos gregos, especialmente nos desenhos que vemos Mike fazer já lá pelos episódios finais. Ou seja, a quinta temporada de Prison Break é, na cabeça de Scheuring, uma versão da Odisseia. O showrunner obviamente deixou o sucesso afetar sua sanidade, ou não?

Mesmo com todos os seus problemas de roteiro que são carregados de temporadas passadas e amplificados geometricamente a cada episódio, o que permite furos homéricos (pegaram a referência?) na história, a odisseia de Lincoln e essa pessoa que pode ser ou não seu irmão morto há sete anos tem um charme irresistível para quem gosta da série. Chega a ser quase sadomasoquista deixar-se envolver com os cliffhangers escalafobéticos e deliciar-se com as revelações improváveis e explicações surreais que vão se amontoando como se não tivessem solução possível, mas que, por incrível que pareça, chegam a um final redondo. É até perfeitamente possível perdoar alguns momentos com CGI sofrível e superposição de determinadas cenas – especialmente com Lincoln – que claramente deixam entrever o chroma key, diante da volta de personagens clássicos que ainda incluem pontas de Amaury Nolasco como Sucre e de Paul Adelstein como Paul Kellerman.

A volta de Prison Break era necessária? Certamente que não. A temporada pelo menos é boa? Certamente que não também. Mas seu fator guilty pleasure a alça a um patamar de divertimento que, somado à breve estrutura de nove episódios que tem, gera uma temporada-evento que, não tenho vergonhar de dizer, não deixa muito a dever ao que veio antes.

Prison Break – 5ª Temporada (EUA – 04 de abril a 30 de maio de 2017)
Criador e showrunner: Paul Scheuring
Direção: Nelson McCormick, Maja Vrvilo, Guy Ferland, Kevin Tancharoen
Roteiro: Paul Scheuring, Josh Goldin, Rachel Abramowitz, Michael Horowitz, Vaun Wilmott
Elenco: Dominic Purcell, Wentworth Miller, Sarah Wayne Callies, Rockmond Dunbar, Amaury Nolasco, Robert Knepper, Paul Adelstein, Mark Feuerstein, Inbar Lavi, Augustus Prew, Rick Yune, Kunal Sharma, T.J. Ramini, Numan Acar, Amin El Gamal, Akin Gazi, Marina Benedict, Steve Mouzakis, Christian Michael Cooper, Curtis Lum, Crystal Balint
Duração: 405 min. aprox. (9 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.