Crítica | Pro Dia Nascer Feliz

Pro Dia Nascer Feliz

estrelas 5,0

O artigo nº 22 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação é bastante esclarecedor ao apontar que “a Educação Básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornece-lhes meios para progredir no trabalho e em situações posteriores”. Diante do excerto, surge a pergunta que muitos educadores, estudantes e demais cidadãos fazem diante da proposta: tais recomendações são, de fato, exercidas?

Ao longo dos 88 minutos, o documentário Pro Dia Nascer Feliz, dirigido, montado e roteirizado pelo cineasta e pesquisador João Jardim vai apresentar argumentos para estas perguntas, além de dar conta de outro extenso feixe de questões sobre a condição da educação no Brasil, tendo em vista a sua dinâmica que parte de realidades díspares e estrutura que contempla depoimentos de alunos, professores, gestores e demais agentes deste agonizante e impiedoso sistema.

Experiente no ato de captar depoimentos de forma singela, Jardim traz para o filme o mesmo cuidado empregado eficiente Janela da Alma, co-direção assinada em parceria com o cineasta Walter Carvalho. O filme abre com uma campanha educacional brasileira lançada em 1962. Na época, o país tinha 14 milhões de jovens que estavam fora da escola. O material não deixou de fazer alusão aos altos índices de criminalidade como os problemas responsáveis pela exclusão social do momento. Ao assistirmos ao excerto, nos fazemos outro questionamento retórico: o que foi feito para melhorar esta situação?

É a partir daí que o filme aborda o sistema educacional brasileiro, coletando depoimentos de estudantes de escolas da rede pública e privada, bem como professores, familiares e membros da gestão, em depoimentos que denunciam a banalização da violência, a desigualdade social e o abismo entre a qualidade do ensino básico público e privado, pois todos os problemas sociais apontados na produção partem do ponto de vista do sistema educacional em decadência.

O filme é fruto de quatro anos de pesquisa. Começa em Manari, Pernambuco, uma das regiões mais pobre dos Brasil. No local, somos apresentados aos problemas de Valéria, estudante que sofre perseguição por conta das suas redações muito qualificadas, algo fora do comum no local, situação que constantemente a coloca como plagiadora. Em Duque de Caixas, no Rio de Janeiro, a criminalidade é um dos problemas que mina alguns trabalhos de docentes dedicados no interior das escolas. Pro Dia Nascer Feliz ainda mergulha no cotidiano de instituições de São Paulo e apresenta o fosso entre duas escolas distanciadas por uma hora de deslocamento de carro. Enquanto no Alto de Pinheiros, estudantes circulam com segurança e tem acesso ao melhor da tecnologia e da produção cultural, em Itaquaquecetuba, os estudantes enfrentam um espaço de ensino precário desde as questões estruturais, onde geralmente falta tudo.

Muitos projetos no Brasil funcionam. Outros ficam no campo das ideias. Por ser uma nação de dimensões continentais, gerenciar as demandas seculares requer um foco específico do Estado e da sociedade civil. No entanto, na prática, a tarefa socializadora da educação, bem como a sua função de preparar o individuo para a sociedade, dando-lhe algum suporte para os problemas cotidianos não está sendo devidamente aplicada.

A câmera passeia por várias instâncias das instituições: os corredores, as rodas de conversas entre estudantes, reuniões de professores, um conflituoso conselho de classe, enquadra depoimentos emocionantes e tem o devido tratamento da direção de fotografia quando há uma narração com carga dramatúrgica essencial para a reflexão proposta pelo documentário. Ao assistir ao filme, somos relembrados que falta muita coisa para a combustão dos mecanismos que engendram a educação no Brasil: falta água, comida, transporte seguro, interesse dos estudantes e dos professores. Mas, sem maniqueísmo barato, Jardim aposta em apresentar outra realidade: a da escola particular, deflagrando crises existenciais, debates sobre diferença social, depressão e outras celeumas que atingem uma classe que tem água potável, comida na mesa e empregada doméstica, mas mesmo assim, também se sente em conflito com algumas questões próprias de suas respectivas realidades.

É esta câmera eficiente que capta os relatos, montados com muita coesão e coerência pelo cineasta. O ápice do filme, uma obra cheia de momentos elevados dramaturgicamente, é a reunião do conselho de professores de uma escola em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A discussão gira em torno da aprovação de um estudante de comportamento questionável. A decisão dos profissionais e os argumentos expostos revelam algo que no ponto de vista de um educador assistindo, funciona como uma espécie de metalinguagem: para quem mergulha melhor na reflexão, é possível se sentir inserido naquele feixe de percepções, ansiedades, medos, alguns preocupados com o futuro do jovem, outros a prezar por suas respectivas vidas, numa sensação de insegurança desconfortável que os levam a banalizar os juramentos obrigatoriamente, tendo em vista garantir a sua própria sobrevivência.

Há depoimentos inquietantes, outros estarrecedores, além de alguns centrados, montados alternadamente a outros desfocados. No que diz respeito ao que chamamos de “gente que faz”, há que se compreender que a tarefa vital do educador é a constante interpretação, reinterpretação e reflexão sobre a sociedade em que vive. Como aponta inteligentemente Paulo Freire em A Pedagogia da Autonomia: é preciso “ler o mundo”. As pessoas atualmente estão muito alheias a tudo isso. E sem pessimismo ou tom de derrota, podemos observar que o processo que acompanha a sociedade brasileira atual (2017), oito anos após o lançamento do documentário, é vertical no sentido “ladeira abaixo”: muita gente transformando-se em massa de manobra para uma mídia parcialmente comprada e um eixo político repleto de projetos que a cada dia, diminuem os interesses da população e esmagam as práticas educacionais que seriam as possíveis estratégias de mudanças para um futuro melhor.

Um dos depoimentos mais desoladores é de uma estudante que teve a sua identidade preservada, mas surge na narração contando com satisfação a agressão que desaguou na morte de uma colega. Segundo o seu relato, à primeira vista, cruel e frio, ela conta como atacou e esfaqueou a moça por conta de um desentendimento. Com um discurso aparentemente natural,  a moça é mais uma jovem que reflete a falta de perspectivas, esperanças e referências de um contingente da população sem acesso aos princípios básicos da educação. A sua realidade violenta a faz discursar com tanta tranquilidade o ataque e os resultados da situação que nos vemos diante de um sistema há tempos desgastado e desanimador.

Outros trechos são igualmente importantes: “eu poderia ser uma adolescente normal se não tivesse uma família formada por 11 pessoas”, “a professora de química nunca aparece, só manda substituto, na hora da avaliação todos os alunos tiram a mesma nota, até mesmo os desistentes, pois ela não conhece ninguém, assim dá nota igual para todos”. Rompendo com os filmes românticos e idealistas, narrativas que geralmente os professores libertam e humanizam os seus alunos, Pro Dia Nascer Feliz prefere expor as feridas sem ser intrometido, num excelente exercício documental. Alguns momentos nos remetem ao esclarecedor Se Você Finge que Ensina, eu Finjo que Aprendo, de Hamilton Werneck, livro lançado em 1992, mas ainda muito atual: o professor finge ensinar, para posteriormente nada exigir, pois muitos alunos fingem que aprenderam e se calam, por ser, talvez, o caminho menos tortuoso, haja vista a realidade com questões aparentemente mais emergenciais, tais como se alimentar, se vestir e driblar a violência.

A realidade exposta pelo cineasta nos revela que estamos muito longe do que promete o utópico título do filme, homônimo da canção de Cazuza. A escola, microcosmo da sociedade, não é diferente do mundo, como consta no depoimento de uma professora da rede estadual de ensino em São Paulo. Talvez quando as reflexões apresentadas pelo roteiro de João Jardim, em parceria com a pesquisadora Reneé Castelo Branco, tornarem-se algo mais próximo do concreto, possamos acreditar que é possível que estejamos por um “triz… pro dia nascer feliz”, afinal, esta é a vida ‘que eu quero’” e que muitos educadores, agentes de transformação social, buscam cotidianamente.

Pro Dia Nascer Feliz — Brasil, 2009
Direção: João Jardim
Roteiro: João Jardim
Duração: 88 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.