Crítica | Procurando Dory

estrelas 4

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A Pixar sempre entregou obras-primas irretocáveis em termos de histórias originais, mas é um fato que enfrentou dificuldades ao revisitar universos consagrados. Obviamente, a exceção fica com a trilogia Toy Story, que rendeu 3 ótimos filmes, mas o mesmo não pode ser dito do inchado Carros 2 e do decepcionante prequel Universidade Monstros. Quando foi anunciado que Procurando Nemo ganharia uma continuação centrada em Dory, o medo da repetição pairava novamente no ar. Porém, felizmente Procurando Dory revela-se uma grata surpresa

A trama é ambientada um ano após os eventos do anterior, e Dory (voz original de Ellen DeGeneres) está vivendo com Nemo (Hayden Rolence) e seu pai, Marlin (Albert Brooks). Porém, uma forte memória afetiva de seus pais – perdidos há tempos – lhe desperta o súbito interesse de encontrá-los, levando consigo os dois peixes palhaços em uma jornada que culminará em um parque aquático californiano.

Da mesma forma como Toy Story expandia o universo temático envolvendo brinquedos, o roteiro de Andrew Stanton e Victoria Strouse segue essa fórmula muito bem. Se Toy Story 2 se aventurava pelo mundo dos colecionadores de brinquedos e o terceiro por “creches” de figuras abandonadas, é quase lógico que Dory aposte no controverso mundo dos parques aquáticos; aliás, tamanha polêmica que a produção planejava uma baleia orca como personagem central, descartando a ideia após a repercussão chocante do documentário Blackfish, que denuncia os maus tratos dessas baleias em locais do tipo.

Porém, fiquem tranquilos. Ainda que traga algum subtexto mais sutil, Procurando Dory não trilha pelo caminho sombrio, entregando aqui um dos filmes mais divertidos e engraçados de 2016. Colocar Dory como protagonista funciona graças ao carisma da personagem e o mistério cômico de seu passado evidenciado por uma série de flashbacks ao longo da narrativa; repetitivo, mas se desenrola quase como um Amnésia versão kids; a escolha do título também é muito apropriada, já que o “Procurando”, no caso, é uma busca mais interna e espiritual do que uma relação realmente espacial.

Com os personagens se separando sem certo ponto da trama, e a dupla de roteiristas sabiamente confere um co-protagonista para equilibrar a cena com Dory (que requer um balanço para que seu timing cômico funcione): o sensacional polvo Hank. Ao contrário da maioria dos personagens em ambos os filmes, Hank é desesperado para viver em cativeiro, trazendo consigo um pessimismo e nervosismo que rendem momentos hilários com a personalidade energética de Dory.

O cenário do parque aquático também oferece a presença de outros dois personagens memoráveis: o tubarão baleia Destiny e o beluga Bailey. Ambos rendem alívios cômicos divertidíssimos e uma importância narrativa muito relevante para o desfecho da trama, especialmente pela incrível habilidade de Bailey de captar ondas sônicas.

Não são muitos deméritos aqui. Além da já comentada fragmentação da narrativa em flashbacks, ficam evidentes os momentos em que os realizadores tentam extrair momentos emotivos dignos da produtora; vide as relações familiares em Toy Story, Up: Altas Aventuras e no recente Divertida Mente. Porém, vemos essa abordagem, mas ela não funciona tão forte como deveria, o que representa um tiro no pé do ponto de vista dramático. O clímax também requer uma grande suspensão de descrença do espectador mais adulto; mesmo que estejamos vendo uma animação com peixes falantes, fica um pouco difícil acreditar em moluscos conduzindo automóveis.

Em termos de animação, não é uma evolução gigantesca se comparado ao primeiro, que já era belíssimo e de encher os olhos em 2003. Os gráficos em 3D surgem melhores definidos e as cores permanecem vibrantes, tendo no cenário do parque aquático o palco das inovações mais perceptíveis: o gigantesco aquário onde Dory encontra uma pista sobre seus pais é um dos pontos altos, principalmente por tratar-se de um ambiente escuro iluminado por uma coloração azul forte em seu interior. Algo realmente belíssimo. E por falar nisso, Stanton e a equipe de animação divertem-se com a habilidade de camuflagem de Hank, colocando-o nas mais inesperadas posições e enquadramentos; a textura e movimentação do personagem também merecem aplausos, representando ali o maior salto tecnológico da produção.

No geral, Procurando Dory é um filme divertidíssimo e que deve agradar a todos, seja pela narrativa agitada ou por seus personagens incrivelmente carismáticos. Pode não ser uma obra-prima do nível que a Pixar já nos ofereceu no passado, mas é certamente um avanço em termos de suas continuações.

Procurando Dory (Finding Dory, EUA – 2016)

Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton e Victoria Strouse
Elenco com as vozes no original: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Hayden Rolence, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver
Duração: 103 minutos

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.