Crítica | Procurando Elly

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estrelas 4

É muito frequente falarmos no cinema iraniano como se fosse um só. De fato, há alguns temas e abordagens muito caros aos diversos diretores daquele país. Mas a filmografia relativamente curta (e de enorme qualidade) de Asghar Farhadi possui características peculiares. Em Farhadi, não há nenhum carro ou homem solitário chegando a uma paisagem longínqua e desolada – leitmotiv que o grande Abbas Kiarostami utiliza em tantos filmes, como Gosto de Cereja e O Vento Nos Levará. Também os temas de cunho filosófico de Kiarostami, que esmiuçam profundamente dramas individuais, cedem lugar aos conflitos familiares e coletivos de Farhadi. O diretor de A Separação oferece um olhar autoral sobre a existência e a realidade de seu país.

O momento é bastante oportuno para falar em Asghar Farhadi. Seus filmes sempre tocam, com maior ou menor intensidade, em temas políticos. Mas em 2017, seu novo trabalho – O Apartamento, que concorre ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, envolveu-se em um conflito político para além da obra em si. A política externa do presidente americano Donald Trump proibiu a entrada de pessoas vindas de diversos países, incluindo o Irã, o que impedirá o comparecimento do diretor e seu elenco à cerimônia. Farhadi, poucos dias depois do decreto, anunciou que boicotaria a premiação, mesmo que o banimento fosse revogado. O proeminente cineasta, cuja obra é permeada pelo conflito entre as culturas iraniana e ocidental, viu-se no epicentro de uma das maiores polêmicas do Oscar em todos os tempos.

Procurando Elly, filme de 2009, foi sua primeira grande realização a nível internacional, vencendo o prêmio de Melhor Direção no Festival de Berlim. O filme aborda a história de um grupo de amigos que viaja para passar um fim de semana numa praia próximo a Teerã. A cena inicial, muito particular dentro da cinematografia iraniana, mostra o carro em viagem dentro de um longo e escuro túnel. Nos primeiros segundos de projeção, o silêncio é quase absoluto. Somente quando o carro se aproxima do fim do túnel é que podemos enxergá-lo e, então, os gritos dos jovens com a cabeça para fora rompem o silêncio. Esse não é propriamente um filme cheio de simbolismos, mas essa cena é uma exceção, pois mostra jovens cujos gritos de liberdade se contrapõem à repressão cultural e política que habitualmente marca o cinema iraniano.

A primeira meia hora de filme, um tanto morna e arrastada, serve para apresentar os personagens. Eles cantam, dançam e se divertem juntos ao chegarem à casa onde todo o enredo se passará. O afeto é algo muito presente nos filmes iranianos e esse primeiro momento de Procurando Elly não é diferente. Além dos amigos, uma convidada também está presente – Elly (Taraneh Alidoosti), professora de uma das crianças, que Sepideh (Golshifteh Farahani)) convidara para que a apresentasse ao recém divorciado Ahmad (Shahab Hosseini). O conflito irrompe quando Elly desaparece misteriosamente e Sepideh revela a todos que ela estava noiva. O longa-metragem ganha um tom de thriller, pouco comum em filmes dessa nacionalidade, mas que Asghar Farhadi desenvolve muito bem e sem os cacoetes desgastados do gênero.

O filme desenvolve duas grandes discussões em paralelo. A primeira delas é a dialogia entre a tradição e o novo. Os personagens apresentam várias características de ocidentalização – possuem celulares, jogam vôlei nas areias da praia e um deles chega a usar uma camisa da marca americana Nike. Por outro lado, os problemas da cultura iraniana também se fazem presentes, principalmente nas relações que homens e mulheres estabelecem entre si. Todas as decisões são tomadas pelos homens e a truculência com que as mulheres são tratadas pelos maridos, especialmente na cena em que Sepideh é agredida, denuncia o machismo ainda fortemente arraigado naquela sociedade. Farhadi retrata um país em que a abertura para o Ocidente convive com a tradição linha-dura da cultura iraniana.

A segunda discussão, para mim ainda mais interessante, se desenvolve no campo moral e não está circunscrita à realidade específica do Irã. Como julgar as atitudes e as opções de cada um dos personagens diante da situação que se apresenta? Elly foi infiel ao noivo. Este, por sua vez, não aceitara suas tentativas anteriores de pôr fim ao relacionamento. Mas o sofrimento do rapaz é genuíno e também nos comovemos com sua dor. Já a atitude de Sepideh, ao mesmo tempo em que quebra uma importante regra social, também revela solidariedade à sua amiga. Os outros personagens também fazem opções contraditórias ao longo da projeção e até as crianças são cúmplices de seus pais. A opção de Farhadi por tantos planos traseiros e de nuca parece nos dizer que não conhecemos bem nenhum personagem e que há sempre algo a ser desvendado, que modificará nossa percepção do problema.

O final do filme é frustrante por dois motivos e é formidável que seja assim. Eu me explico. O suspense que se cria em torno da dúvida do que aconteceu com Elly tem um desfecho absolutamente previsível e sem nenhum salto ou reviravolta. Farhadi não esboça nenhuma pretensão de surpreender seu público e é como se o alertasse de que não é disso que trata o seu filme. O miolo da obra, com toda a discussão moral e sociocultural que propõe, é sua grande fortaleza. A segunda frustração que o filme provoca é a de envolver o espetador na tentativa de ponderar erros e acertos dos personagens e, assim, poder classificá-los em compartimentos estanques – inocentes ou culpados. Mas o longa-metragem dá um nó que não desata facilmente e termina sem oferecer meios para se chegar a qualquer conclusão definitiva, dada a complexidade de uma situação tão crítica quanto verossímil.

Procurando Elly é mais um ótimo filme de Asghar Farhadi, que introduz temas que serão abordados também nos posteriores A Separação, O Passado e O Apartamento. Apesar de demorar um pouco para dizer a que veio, quando engrena, cumpre muito bem seu objetivo. Tem momentos de brilhantismo equivalentes aos da obra-prima A Separação, embora sem a mesma regularidade. Já valeria a pena pela discussão moral brilhante que realiza, mas a direção muito acima da média de Farhadi é um elemento adicional para fazer desse um dos melhores filmes do cinema iraniano. E também um filme afinado com o momento atual, mesmo que realizado há 8 anos. Quando a arte esbarra na intolerância e vence a crença de que o mal está todo do lado de lá, a dificuldade que o filme oferece para apontarmos seus culpados torna-se um belo e oportuno motivo de reflexão.

Procurando Elly (Darbareye Elly) – Irã, 2009
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Ahmad Mehranfar, Golshifteh Farahani, Mani Haghighi, Merila Zarei, Peyman Moadi, Rana Azadivar, Sabe Abar, Shahab Hosseini, Taraneh Alidousti
Duração: 119 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.