Crítica | Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas

“Você poderia parar de se desculpar? Você sabe quantas vezes por minuto você se desculpa?

Desculpa.”

O grande fenômeno Mulher-Maravilha, longa-metragem de super-herói estrelando a personagem clássica, esteve acompanhado, não muito tempo depois de alcançar expressivo sucesso em seu lançamento, da cinebiografia contando a origem, longe do paraíso mitológico dos quadrinhos, da personagem e seu criador. A situação inversa, em contrapartida, também aconteceu recentemente, com Adeus Christopher Robin e Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível. Ambos os projetos gêmeos são recheados de conteúdo interessante ao público, por se tratarem de casamentos, coordenados perfeitamente bem, entre as produções, uma sendo o retrato do real e a outra sendo o retrato do ficcional. As histórias, nesses casos, agregam a um pensamento geral sobre os universos existentes, dando origem, aos espectadores, a mais embasamento teórico sobre o que aqueles personagens da ficção, aparentemente inexpressivos, causaram em uma sociedade, indo muito além de suas próprias narrativas literárias, fechadas em si. Quando entendemos suas criações, entendemos mais o que elas significam. Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas é uma história relevantíssima, trabalhando, de maneira extremamente inteligente, aspectos de uma personagem que, em seus fundamentos, seria considerada superficialmente machista. A Mulher-Maravilha é uma criação muito mais provocativa e esperta do que poderíamos imaginar, lendo, despretensiosamente, as páginas da All Star Comics #8.

A diretora e roteirista Angela Robinson tem em mãos uma ideia muito boa, pensando a personagem como um símbolo feminista, mas extremamente complexo em análise – distante do modo como enxergamos a temática atualmente -, desde as suas origens. O professor William Marston (Luke Evans) é um psicólogo, contemporâneo aos anos 20, estudando a mente através de diversas teorias, assim como construindo o detector de mentiras, invenção sua e de sua esposa Elizabeth Marston (Rebecca Hall) – na sagacidade de sua presença. O processo da narrativa é caminhar entre o passado e o futuro, sendo o passado, o processo de criação da personagem clássica, e o futuro, a oposição de William com os representantes de uma associação, desaprovadores do quadrinho da Mulher-Maravilha, dada as insinuações sexuais, a fomentação de um pensamento lésbico e até mesmo sadomasoquismo. O moralismo vigente na sociedade da época, muito tempo antes de qualquer revolução sexual, é uma temática, porém, muito mais do que absolver William, alegando uma visão completamente diferente da compartilhada pelos demais, que enxergavam como imoral as abordagens do autor, Angela Robinson quer nos levar adiante em uma jornada na qual Marston acredita na personagem como uma possível desconstrução do imaginário atribuído à mulher. As mulheres-maravilhas de sua vida, portanto, assumem as rédeas dessa caminhada, justificando uma ficção ao observarmos a realidade de amores completamente subversivos.

A introdução da jovem estudante Olive Byrne (Bella Heathcote) é o primeiro passo para a construção da Mulher-Maravilha como uma ideia de redefinição – na puerilidade de sua presença. A carga erótica presente na leitura dos quadrinhos, de forma extremamente implícita, aparece, na vida real, através do relacionamento entre Marston e sua esposa, além de, posteriormente, entre ele, sua esposa e também Olive, em uma disruptura com os padrões românticos da época e até mesmo os atuais. Angela Robinson utiliza da sua liberdade poética, desapegando-se, pontualmente, de fatos comprovados, e constrói uma trama extremamente coesa. O desenvolvimento de Olive, por exemplo, inicialmente uma garota residente de um lar puritano, mesmo com raízes menos conservadores, descendente de importantes feministas, para uma mulher permitindo-se usufruir de seus desejos sexuais, “pecados” sob determinados pontos de vista, é encaminhado de forma realmente competente, assim como toda a química presente entre as três figuras principais. Justamente essa química, encabeçada pela atuação dessa trindade, que consegue sustentar uma direção consideravelmente blasé. A imagem de Professor Marston e as Mulheres-Mulheres é menos significativa quando são pensadas as composições visuais existentes na obra, vazias. Durante o momento climático dessa interação sexual entre os personagens, a exemplificar, Robinson termina sendo mais piegas na atribuição fílmica direcionada à situação retratada do que verdadeira.

O roteiro, por outro lado, é realmente bom, assim como toda a linha costurando o presente e o passado, uma maneira mais orgânica de dissertar através de um cinema narrativo – a mais óbvia seria por meio de um documentário. O saldo é positivo por, no final das contas, acreditarmos neste amor subversivo, assim como na conjuntura social e sexual existente nele, em um combate contra o moralismo existente não apenas na figura da mulher, mas na figura do próprio sexo. A pressa, no último ato, na união entre o presente e o passado, ao menos, permite o interrogatório de Marston fluir de uma vez por todas, deixando claras, mas nunca óbvias, suas intenções como quadrinista. A desconstrução de uma visão mais simplista sobre a Mulher-Maravilha original, rodeada de muita perversidade intencional, entretanto, não necessariamente negativa em razão disso, é um dos grandes charmes de Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas, que, por vias até então desconhecidas pelo grande público, intensifica o culto à personagem. A figura clássica não mais existe, tendo sido trabalhada e retrabalhada pelas décadas seguintes, as quais ora tiraram a essência da personagem, ora ressignificaram-na para uma nova geração. O passado é contemplado para justamente entendermos essas mudanças através dos anos, que de fato existiram, apesar da Mulher-Maravilha continuar sendo a maior e mais relevante heroína dos quadrinhos e da ficção.

Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas (Professor Marston and the Wonder Women) – EUA, 2017
Direção: Angela Robinson
Roteiro: Angela Robinson
Elenco: Luke Evans, Rebecca Hall, Bella Heathcote, Connie Britton, J. J. Feild, Chris Conroy, Oliver Platt, Maggie Castle, Alexa Havins, Allie Gallerani, Christopher Jon Gombos, Forry Buckingham, Frank Ridley, Ken Cheeseman, Tom Kemp, Christopher Paul Richards, Sebastian Wood
Duração: 108 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.