Crítica | Profissão: Repórter

Após Blow-Up – Depois Daquele Beijo e Zabriskie Point, Profissão: Repórter foi o último filme da parceria entre o produtor Carlo Ponti e o diretor Michelangelo Antonioni para a produção de três longas em inglês. Porém, se Blow-up é um trabalho histórico, resultando em uma indicação ao Oscar de melhor diretor e roteiro, Zabriskie Point é apenas regular. Felizmente, em Profissão: Repórter, Antonioni aproxima-se da qualidade conquistada em seu primeiro filme com Ponti, mostrando porque tornou-se um diretor obrigatório na história do cinema.  

O filme mostra a jornada de David Locke (Jack Nicholson), um jornalista em viagem ao Deserto do Saara para reportar sobre as guerrilhas locais. No hotel, ele conhece um homem muito parecido com ele que morre repentinamente e, aproveitando a oportunidade de mudar de vida, assume a identidade do falecido. Porém, já se passando por outra pessoa, ele descobre que o homem era um traficante de armas.

Em Profissão: Repórter, a primeira fala do filme ocorre com cinco minutos de projeção, quando o protagonista pergunta para um nativo: “você sabe falar inglês?”. Durante o tempo em que ficou calado, acompanhamos o homem tentando chegar a algum local, que não sabemos onde é, com a ajuda da população, mas falhando em seu objetivo. Sem o apoio necessário, o protagonista só encontra seu destino após uma exaustiva caminhada pelo deserto. Nessa sequência, Antonioni utiliza planos abertos que isolam o personagem em uma paisagem desértica, ressaltando sua solidão e desorientação.

Esse início poderoso e bem construído serve como síntese do filme, de poucas falas, mas repleto de mensagens, principalmente acerca da falta de comunicabilidade das pessoas. Aliás, não é a toa que o protagonista seja um jornalista, profissional responsável por retratar a realidade, mas, como vemos durante o longa, falha nisso por olhar as pessoas com um filtro de arrogância e pré-julgamento, impedindo-as de se expressarem, defeito também presente em uma sociedade cada vez mais preocupada em responder e não em ouvir.

Outro fator que dá mais profundidade à obra é presença de elementos do road-movie, mostrando o protagonista viajando e se redescobrindo pela Europa. Portanto, cada cidade que David visita representa claramente seu estado de espírito. A passagem do protagonista pelo deserto, por exemplo, representa seu momento de conflito interno, vazio existencial e perda da identidade. Já a viagem por cidadezinhas espanholas ressaltam sua leveza por conseguir escapar de sua vida. Porém, aproximando-se do término, perceba como o longa volta a ter uma paleta repleta de cores neutras e tons pastéis, ressaltando como a aventura de David não serviu para satisfazê-lo.

Dito isso, fica claro como um dos grandes acertos de Antonioni está na escolha dos cenários, optando por cidades com arquitetura cativante ou paisagens vastas, como a Barcelona arquitetada por Gaudi, a imensidão do deserto da Argélia ou os belos campos do interior da Espanha. Para valorizar os cenários que possui, o diretor prioriza planos abertos, como, por exemplo, planos gerais, visando justamente construir imagens repletas de significados. Quando vemos David passeando entre os prédios peculiares e cheios de curvaturas em Barcelona, fica evidente o momento de transformação e redescobrimento do personagem. Antonioni ainda faz algumas transições em plano sequência, ou seja, sem cortes, que transmitem fluides e a sensação da rápida passagem do tempo da vida.

Além disso, as viagens de David pela Europa também representam uma fuga interna, não apenas de seu passado, mas de sua própria persona. Por isso, ele troca de identidade, visto que o protagonista não estava apenas insatisfeito com a vida, mas com o que era. Aliás, no final da obra, o personagem conta a história de um cego que conseguiu recuperar a visão aos 40 anos, mas, após o êxtase de ver pela primeira vez, decepcionou-se com a sujeira do mundo e se matou, servindo como um ótimo resumo da própria história de David. Quando assumiu outra identidade, o personagem obteve o apogeu, livre das algemas de sua vida; porém, com o decorrer de sua viagem, percebeu que estar na pele de outra pessoa jamais mudaria sua visão do mundo, resultando em seu suicídio.

Essas transformações vividas pelo protagonista são perfeitamente pontuadas pela interpretação de Jack Nicholson. Diferente de outros trabalhos de sua carreira, a composição de Nicholson aqui é sutil, sem momentos de exaltação, mas transmitindo com clareza a melancolia inicial, a empolgação com a liberdade e queda de David. Infelizmente, o trabalho de Maria Schneider é oposto, falhando em construir uma personagem meramente interessante, também prejudicada pelo roteiro, falando com um tom demasiadamente pausado. Devido a isso, pouco nos importamos com a garota e a química do casal  fica comprometida.

Até que chegamos ao terço final da película e Antonioni nos presenteia com um plano-sequência de sete minutos que não é apenas o auge do filme, mas um dos grandes momentos de sua brilhante carreira. A câmera começa a movimentar-se dentro do quarto de David, mostrando uma janela com grandes e movendo-se lentamente para frente. Pela janela, observamos a moça que o acompanhou durante a viagem, os dois traficantes de armas que negociaram com ele, um idoso sentado, uma criança brincando e alguns carros passando, todos entre grades, ressaltando como, inevitavelmente,o ser humano está preso em sua vida, em sua rotina e em sua própria pessoa, sendo um momento de extrema profundidade. Quando a câmera avança pela janela, inverte seu eixo e revela David morto em sua cama, fica claro os motivos do suicídio do personagem, que não suportava mais viver em sua prisão.

Poucos diretores possuem talento para inserir tanto significado em uma sequência ou composição. Michelangelo Antonioni está no grupo dos agraciados com tal dom, a ponto de proporcionar momentos como esse várias vezes dentro de um mesmo filme. O brilhante Profissão: Repórter é mais um exemplo do mestre que Antonioni tornou-se para o cinema.

Profissão: Repórter (Profissione: Reporter) – Itália, Espanha e França, 1975
Direção: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider, Jenny Runacre, Ian Hendry, Steven Berkoff, Ambroise Bia, Chuck Mulvehill
Duração: 126 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.