Crítica | Programa de Extermínio (Tie-In de Guerras Secretas – 2015)

estrelas 1,5

Obs: Leia a crítica da saga aqui e dos demais tie-ins aqui.

O que são os tie-ins: Em Guerras Secretas, saga de 2015, o Doutor Destino – agora Deus Destino – recriou o mundo ou, como agora é conhecido, Mundo Bélico, a seu bel-prazer, dividindo-o em baronatos, cada um normalmente refletindo de alguma forma um evento ou uma saga passada da Marvel Comics. Com isso, a editora, que, durante o evento, cancelou suas edições regulares, trabalhou como minisséries – algumas mais auto-contidas que as outras – que davam novo enfoque à situação anterior já conhecida dos leitores, efetivamente criando uma saga formada de mini-sagas, com resultado bastante satisfatório, muitas vezes até superior do que as nove edições que formam o coração de Guerra Secretas.

Crítica

Publicado originalmente entre novembro de 1990 e janeiro de 1991 em nove edições compreendendo as três revistas mutantes da época, Uncanny X-Men, X-Factor e New Mutants, o crossover Programa de Extermínio lidava com o sequestro de Tempestade, dos X-Men e Dinamite, Warlock, Lupina e Rictor, dos Novos Mutantes por magistrados de Genosha ajudados por Destrutor (sem memória) e comandados pelo androide Cameron Hodge, que usa “mutoides” escravizados para fazer a cidade mutante – na verdade uma ditadura opressiva – funcionar. Ao final, Destrutor (novamente com sua memória) e Lupina ficam para liderar a cidade à prosperidade, com Hodge, com a cabeça cortada, soterrado por um desabamento causado por Rictor.

A proposta da minissérie de mesmo nome, como parte das dezenas de tie-ins autocontidos (ou quase) de Guerras Secretas, pula 10 anos no futuro depois do final do crossover original, com Destrutor e Lupina ainda comandando Genosha juntos. No entanto, quando a história começa, há um grave crise, que inclui falta de comida, com mutantes e mutóides revoltosos, em razão de uma epidemia mortal que assola o país-ilha. Desesperados, os dois procuram a ajuda de Deus Destino, que nada faz e apenas aponta na direção da Baronesa Rachel Grey que, por sua vez, recusa-se a ajudar, sob conselho do Fera, para evitar riscos de contaminação e extermínio de toda a raça mutante. Claro que Destrutor e Lupina não se contentam com isso e partem, junto com outros mutantes, para invadir a Cidade-X, capital desse pedaço do Mundo Bélico, para sequestrar Triagem, mutante com poderes de cura, e Vampira, que, absorvendo os poderes de Triagem, poderia duplicar a eficiência da medida.

E, a partir desse ponto, a pancadaria entre os mutantes de Genosha e da Cidade-X tomam as páginas da minissérie de maneira incansável. O primeiro ataque, que demonstra a inteligência estratégica de Destrutor, funciona muito bem em termos dramáticos e catalisa um contra-ataque que passa, então, a ser misturado com a trama paralela sobre a origem do vírus mortal e a evidente volta de Cameron Hodge em versão turbinada, com as traições e os sacrifícios heroicos que normalmente povoam esse tipo de linha narrativa.

Infelizmente, porém, o roteiro de Marc Guggenheim é inábil em convencer o leitor do conflito em si. Afinal, sua missão era nos convencer que colocar Genosha contra a Cidade-X era algo inevitável e, para isso, estabelece que um dos lados está morrendo e o outro não quer ajudar, apesar de um de seus mutantes – justamente Triagem – ter o poder para isso. A explicação: o Fera diz que é improvável que Triagem tenha sucesso absoluto em sua empreitada e que, por isso, é melhor nem tentar nada para evitar que a população mutante seja exterminada. Mas, hein? Como assim? Se isso por si só já não ferisse de morte todos os princípios pelos quais sempre viveram os X-Men, a matemática simplesmente não bate. Mesmo se Triagem fosse para Genosha e não conseguisse curar todos os doentes, para evitar uma epidemia geral bastaria que ele fosse testado antes de voltar à Cidade-X e permanecesse em Genosha caso o resultado desse positivo e ele não conseguisse se curar, não é mesmo? Além do mais, é completamente inconcebível que o Fera não conseguisse criar uma roupa de contenção para Triagem de forma que fosse impossível ele ser contaminado. E, como se isso não bastasse, o que justificaria Rachel Grey não ter interferido logo no começo da epidemia, quando a situação era mais gerenciável?

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Em outras palavras, Guggenheim simplesmente joga uma situação qualquer com uma justificativa mequetrefe que é eivada de falhas estruturais. Não estou eu aqui achando pequenos detalhe para criticar negativamente o trabalho dele. Ao contrário, o ponto que levanto acima é da essência da obra e, como ele não se sustenta, tudo vem abaixo muito rapidamente como uma premissa inconciliável com a mitologia da série, considerando que, aqui, não estamos falando de um mundo completamente refeito, mas sim uma das possibilidades lógicas da continuação da linha narrativa original, ou seja, tudo o que veio antes – personalidades especialmente – é mantido.

Mesmo que o leitor consiga relevar esse grave problema, o texto de Guggenheim tem um outro problema difícil de aceitar. De forma completamente aleatória e sem que não tenha nenhum função narrativa ou dramática, ele estabelece que o Fera – assim como nos quadrinhos regulares dos X-Men – trouxe do passado, de antes dos X-Men enfrentarem Krakoa (ou seja, bem lá atrás mesmo), alguns mutantes. São eles: Wolverine, Banshee e Pássaro Trovejante. Wolverine ainda tem algumas linhas de diálogo. Pássaro Trovejante aparece aqui e ali, mas nada fala. E Banshee nem mesmo aparece na ação. Em outras palavas, Guggenheim tira o artifício da cartola por uma razão apenas: porque quer. E não tem nada mais deficiente do que escrever uma linha narrativa paralela que não serve para nada e não leva a lugar nenhum. Simplesmente não dá para entender o que passou na cabeça do roteirista.

Em situações em que o roteiro falha dessa maneira, a salvação costuma ficar com a arte. E, de fato, Carmine Di Giandomenico tem um traço bonito, de certa forma emulando o espírito noventista de se desenhar corpos, mas sem os exageros da época, que até o final do segundo número, ajudam a tornar mais palatável o texto de Guggenheim. Mas, então, nos números seguintes, quando os conflitos se intensificam, o desenho de Di Giandomenico começa a ficar extremamente poluído e confuso, ganhando proporções e transições que não suavizam em nada a bagunça que o roteiro faz. Muito ao contrário, sua arte amplifica o problema, tornando o final absolutamente banal (o “plano” de Lupina para acabar com Hodge é, por falta de palavras melhores, idiota ao extremo) e apagando o que de bom ele havia feito nos primeiro números.

Infelizmente, Programa de Extermínio consegue ser um dos piores tie-ins de Guerras Secretas. Se o crossover original já não era nenhuma maravilha, o que Guggenheim e Di Giandomenico fazem aqui é uma continuação da pior espécie, sem cuidado narrativo e completamente aleatória.

Programa de Extermínio (X-Tinction Agenda, EUA – 2015)
Contendo: X-Tinction Agenda (2015) #1 a #4
Roteiro: Marc Guggenheim
Arte: Carmine Di Giandomenico
Cores: Nolan Woodard
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: agosto a novembro de 2015
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2016 (encadernado – Guerras Secretas: X-Men #4)
Páginas: 100

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.