Crítica | Projeto Flórida

“Você poderia nos dar algum trocado, por favor? O médico disse que nós temos asma e temos que comer sorvete imediatamente.”

  • Observação: Com o intuito de comentar sobre o final de Projeto Flórida, deixarei as minhas impressões sobre ele na sessão de comentários. Portanto, os spoilers estarão liberados naquela área. Cuidado!

Quem nunca sonhou em ir ao Walt Disney World Resort, complexo de parques situado na Flórida? Mesmo que a Disneyland, na Califórnia, já tivesse surgido da mente inventiva de Walt Disney antes da abertura do resort, a cidade de Orlando comportaria, depois da morte desta icônica personalidade, um dos lugares mais visitados em todo o mundo. Em Projeto Flórida, o Walt Disney World ganha papel de personagem, mesmo que se ausente diretamente na maior parte da duração do filme. Os entornos do complexo são os reais protagonistas, principalmente as crianças que moram em uma Flórida além dos parques pelos quais o estado é mais conhecido globalmente. A relação estreita entre o mundo de sonhos de Walt Disney e uma infância que não tem a oportunidade de acompanhar as passeatas de seus personagens mais queridos no Magic Kingdom não é por acaso. O titulo do longa-metragem de Sean Baker, mesmo diretor de Tangerine, vem do nome inicial para o projeto que mais tarde viria a ser conhecido como Walt Disney World.

Ademais, se Sean Baker conseguiu fazer Tangerine usando apenas câmeras de celular, imagina o que ele pôde fazer agora, tendo o equipamento completo a sua disposição. Mesmo com os pés amarrados em uma realidade infantil diferente, fortemente pontiaguda se comparada com a privilegiada, relativa a crianças de todos os países que frequentam regularmente os parques, Sean Baker não resume seu filme a uma temática instigante. Projeto Flórida é, basicamente, uma obra imperdível. Na história do longa-metragem, Moonee (Brooklynn Prince) é uma criança que não vive esta mesma realidade que milhares de outras têm a oportunidade de viver. O diferencial maior do universo da garotinha e de seus amigos com este outro, mais oportuno para deslumbramento “fácil”, é que os parques encantadores estão logo ali, virando a esquina; tão perto, mas tão longe. A infelicidade ao seu redor, todavia, está muitíssimo longe de afetar a sua alegria, constante pelos dias que passam dessas férias de verão, acompanhadas de amizades antigas e outras novas, criadas do nada, mas nunca do nada.

Sua jovem mãe Halley (Bria Vinaite) não é a figura materna mais responsável do mundo, falhando em várias tarefas mínimas e tendo que se sustentar a base do momentâneo, sem planos para o futuro, resistindo um dia por vez dentro do Magic Castle, um nome curioso para uma hospedagem à beira da estrada, longe de qualquer magia. Sean Baker nos convida a vivenciar uma rotina infantil recortada. Entre longas caminhadas desacompanhadas e conversas ingênuas com estranhos, sobressai-se o maravilhamento surgindo do nada e tornando-se extraordinário. A protagonizar a obra, Brooklynn Prince revela-se como uma das atrizes mirins mais completas dos últimos anos, relacionável em suas atitudes e orgânica em seus comportamentos. Mesmo no erro, há algo para se olhar adiante da superfície da menina, uma verdadeira heroína diante de um mundo mais difícil do que aquele que seus olhos podem captar. Ao mesmo passo que se constrói a rotina repetitiva, fomenta-se uma belíssima amizade de Moonee com Jancey (Valeria Cotto), nova moradora da hospedagem ao lado, igualmente distante de tirar uma foto com o Pateta.

O trabalho de Sean Baker, porém, não se limita apenas a posicionar o camundongo falante em direção oposta ao cenário infantil estabelecido. Há de se destacar os contrastes na estética atribuída ao seu filme. O verde e o roxo, todos em tonalidades variadas, contemplam a maior parte das composições visuais, seja no figurino, seja no cenário, criando um senso de puerilidade, mas também uma leve perversidade, relacionada aos delitos e erros crassos cometidos pelas crianças, ainda presas em suas respectivas ingenuidades. Na abertura do filme, por exemplo, vemos Moonee e seus amigos partirem de uma presunção de brincadeira saudável para uma série de ações fortemente inadequadas. Não há uma maldade verdadeira em tais atos retratados, que se repetem pelo filme em diferentes situações, mas há uma malícia subjacente que pode trazer sérias consequências no futuro se não remediada. Além disso, tanto o azul do céu quanto o verde das árvores não estampam o cenário ao acaso, sendo ambas cores parte de uma fotografia, responsabilidade de Alexis Zabe, verdadeiramente atmosférica.

Dessa forma, o roteiro tem um espaço propício para nos levar a uma infância menos higienizada. Na falta de palavras mais adequadas, não há criança “bonita” em Projeto Flórida. Enquanto, em um momento, Moonee e Scooty (Christopher Rivera) ficam todos lambuzados de sorvete, apenas um para duas, senão três pessoas, em um outro as crianças estão suadas, falando palavrão e limpando as mãos no travesseiro, encharcadas em decorrência de alguma chuva. A obra não usa do sentimentalismo naturalmente atrelado aos pequenos. A infância em Projeto Flórida é retratada da maneira mais verdadeira possível, dentro do recorte proposto para que o discurso seja embasado corretamente. Um distanciamento das crianças em situações de calamidade máxima, como as sírias, por exemplo, das crianças que viajam com os seus pais para os parques da Disney, é, apesar de extremamente cruel, óbvio. Não espere presenciar crianças “sofrendo”, no sentido mais cru dessa palavra. O roteiro é mais afiado por justamente trazer distâncias pequenas que comportam realidades díspares.

A exemplificar o seu cuidado em evitar expor algo de forma gratuita, Baker não se propõe nem a mostrar o outro lado da moeda, o da infância “feliz”, deixando-o subtendido inúmeras vezes, como no caso da brasileira que surge em cena, um representativo do turista estrangeiro em condições privilegiadas, que pode sair do seu próprio país para visitar a magia tornando-se realidade, enquanto Moonee e seus amiguinhos, há alguns quilômetros dali, do fantástico em seu estado mais contraditório, têm que se contentar em tornar o ordinário, mágico. Mas não pensem que a Disney, mesmo que fora do âmbito físico de Moonee, está necessariamente fora de sua vida. A fantasia, portanto, permanece, tendo que ser acomodada pela imaginação. Em paráfrase a entrevistas do próprio Sean Baker, se não é possível Moonee visitar o Animal Kingdom, ela inventa o seu próprio safári. Se não é possível que ela visite as casas mal-assombradas típicas desses parques, as aventuras por prédios abandonados tornam-se peças de terror tão honestas quanto as reais.

O estudo de personagens é tão complexo que, para as telas, são traduzidas figuras com camadas de profundidade imensas. Em um misto de amor e negligência, Halley é uma personagem que o espectador não julgará de uma maneira maniqueísta; o filme em si não busca ser indulgente, mas compreensivo. Projeto Flórida, por se tratar de um filme aparentemente “sem história”, brinca com a trivialidade do cotidiano de mãe e filha de uma forma genuína, amarrando todas as cenas para que elas levam a uma conclusão triste e dolorosa, para ambos os lados. Mas será que era assim que as coisas deveriam ser? Moonee, afinal, é um protótipo da também criança que ela chama de mãe; uma versão em miniatura prestes a eclodir para o mundo. Mas o amor, que Halley definitivamente nutre pela sua filha, é a única ferramenta necessária para se criar a criança? Se hoje a garota ainda pode entrar “nos trilhos certos”, será que amanhã essa possibilidade ainda existirá? Quando a linha entre o remediável e o irreversível será cruzada, se é que há algo no mundo imutável?

Os roteiristas Sean Baker e Chris Bergoch nos provocam por quase duas horas, construindo uma conexão sentimental do público em relação àquela relação materna de uma maneira muito honesta, mostrando o brilho de uma infância que resiste à vida empobrecida, sem esquecer das mazelas inerentes a um dia-a-dia incerto, as quais rodeiam Moonee, promovendo consequências para o seu futuro. Entretanto, Baker definitivamente não teria alcançado esse efeito emocionante, tocante, se não fosse, além da performance de Brooklynn, a atuação realista de Bria Vinaite. A atriz, aliás, foi curiosamente descoberta pelo cineasta em uma rede social, tratando-se de uma novata em longas-metragens. No caso, Bria anula a possibilidade de seus desempenho no filme tratar-se de uma caricatura, ao buscar sobrepor uma humanidade singular, sincera em suas falhas, problemática em seus equívocos. A jovem teve uma chance de ser alguém diferente da pessoa que ela é? A compará-la com a mãe de Scooty, Ashley (Mela Murder), Halley poderia ter sido mais responsável, dedicada e firme com a sua criação.

Isso, em nenhum momento, mostra falta de amor, mas imaturidade, mudando o discurso a ser feito, que possibilita menos verdades e mais interpretações. É uma maneira de se ver tal situação, sem necessidade de se impor lados opostos de óticas, pois basta a verdade no final, apesar das artimanhas da vida nunca permitir que ela seja entendida de uma forma tão simples. Sobra a empatia de qualquer forma. As tantas possibilidades de condução para nossos pensamentos, alguns impossibilitados de se transformarem em um plano coesivo devido a complexidade da situação, permitem que nós, o público, categorizemos Halley como uma excelente personagem, combatida, em termos mais simplórios, pela presença de uma outra figura, tão excepcional quanto, mas que, da mesma maneira, também é compreendida pelo espectador, em um conjunto de entendimentos. Se a experiência cinematográfica não poderia ser ainda mais completa, Sean Baker nos brinda com a presença monstruosa do aclamadíssimo ator Willem Dafoe, neste que é um dos melhores trabalhos de sua carreira.

Por falar especificamente dessa incrível atuação coadjuvante, o personagem de Dafoe, Bobby Hicks, gerente do Magic Castle, tem que lidar diariamente com problemas que vão além de seu âmbito profissional. Mesmo buscando afastamento de contato em alguns casos, é perceptível o carinho que ele tem pelos moradores que ali residem, tentando ao máximo, esbarrando pelo caminho, contudo, em regras importantes para o convívio, prover o suficiente para que os seus companheiros de rotina tenham uma boa passagem por lá – muito provavelmente, não mágica, mas suficientemente generosa para que ainda possamos acreditar nela. Willem Dafoe encarna uma figura protetora, mas sem se jogar para o melodrama afetivo, mesmo existindo espaço para um background desnecessário relacionado ao seu filho, interpretado por Caleb Landry Jones; um efeito inócuo no espectador, na melhor das hipóteses, que não impede a magnitude da produção de alcançar efeitos gigantescos no espectador. O impacto é proporcional ao carinho que construímos em relação a esses personagens.

De resto, há a rispidez, mas também há o cuidado, notável na cena que aborda a presença de uma potencial ameaça à segurança dos moradores da hospedagem. Nesse momento, bastante genial, Dafoe caminha pela esfera da paciência assombrosamente, visto que trata-se de uma contenção interna de seu personagem, explodindo na hora exata para explodir e, consequentemente, assustar. Projeto Flórida, afinal, também abrange a segurança das crianças dentro de seu cerne; os perigos, em diferentes escalas, que surgem para elas, possivelmente mudando as rotinas de uma infância, temporariamente ou para sempre, seja a mudança de uma cidade para outra, seja um castigo interminável que impede contato. As temáticas todas, no final das contas, erguem um dos grandes monumentos cinematográficos dos últimos anos, com força o suficiente para ser, daqui a alguns anos, possivelmente décadas, relembrado como o estupendo coming-of-age que é. Há poucos quilômetros de distância do Walt Disney World, eis um olhar verdadeiro sobre uma infância além de princesas, super-heróis e animais falantes.

Projeto Flórida (The Florida Project) – EUA, 2017
Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker, Chris Bergoch
Elenco: Willem Dafoe, Brooklynn Prince, Bria Vinaite, Valeria Cotto, Christopher Rivera, Caleb Landry Jones, Aiden Malik, Sandy Kane, Macon Blair
Duração: 109 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.