Crítica | Projeto Manhattan – Vol. 1

estrelas 5,0

O que mais me chamou a atenção nessa série, antes de conhecer seu conteúdo ou mesmo prestar atenção no autor, foi a sutileza do título original: The Manhattan Projects. O plural fez toda a diferença e aguçou minha curiosidade para descobrir que projetos seriam esses, já que o nome do projeto de pesquisa e desenvolvimento posto em andamento pelo presidente americano Roosevelt em 1939 e que levou à invenção da bomba atômica (dois tipos, na verdade), chamava-se, apenas Projeto Manhattan, assim, no singular. É uma pena que a Devir tenha elegido traduzir no singular, portanto.

Mas, claro, esse é um problema menor, irrelevante mesmo. O fato é que Projeto Manhattan (usarei o título errôneo da Devir para fins de homogeneidade) é um trabalho próximo do genial co-criado por Jonathan Hickman (responsável por East of West, também da Image Comics e por carregar nas costas Vingadores e Novos Vingadores pela Marvel, além da saga Infinito e a ainda em andamento Guerras Secretas) no roteiro e o relativamente desconhecido Nick Pitarra nos desenhos, artista que já trabalhara antes com Hickman.

pm vol 1 capaMesmo considerando as loucuras (no bom sentido) que Hickman vem criando na Marvel, é na Image que sua criatividade não parece sofrer qualquer tipo de ingerência e ele acaba tendo rédeas soltas para colocar no papel um misto de reimaginação histórica com muita ficção científica e aspectos psicológicos perturbadores. A premissa é que o Projeto Manhattan foi, na verdade, uma espécie de engodo para projetos muito mais ousados do que apenas a bomba atômica. A bomba, na verdade, é a história contada para a população em geral, enquanto que os Projetos Manhattan iriam muito além, incluindo viagens espaciais, teletransporte e todo tipo de ciência misturada com “mágica” que o leitor possa imaginar. E, sem fazer invencionices, Hickman mantém a ação, pelo menos nesse primeiro volume, em 1942, com o mundo em plena 2ª Guerra Mundial, mas uma guerra diferente, travada com alta tecnologia que inclui torii (aqueles portões vermelhos tipicamente japoneses) comandado mentalmente por monges budistas e que permitem o teletransporte de robôs samurais, próteses mecânicas e um sem-número de questões tecnológicas dos dois lados do conflito.

E a história começa com o recrutamento de Robert Oppenheimer que, na história real, foi mesmo o responsável pela criação das bombas atômicas. Logo nas duas primeiras páginas o vemos aceitando a missão do tenente-general Leslie Groves (também tirado da vida real) e aprendemos que há algo de estranho na história pregressa de Oppenheimer, envolvendo um irmão que teria tendências comunistas. Usando o azul e o vermelho, Jordie Bellaire cria uma bela diferenciação – chamemos de doppelgänger – nos flashbacks de Oppenheimer e também no de Albert Einstein, personagem a quem somos misteriosamente apresentados como um cientista que fica trancafiado em uma sala olhando para uma espécie de monólito. Há muitos outros personagens históricos (Enrico Fermi, Harry Daghlian, Werner von Braun, Richard Feynman, dentre outros) e segredos revelados nesse volume e que Hickman não esconde por muito tempo, mas manterei minha crítica sem spoilers, pois as descobertas são muito interessantes e orgânicas dentro da narrativa.

mosaico pm

(1) O tenente-general Leslie Groves; (2) Dr. Robert Oppenheimer e (3) Dr. Albert Einstein.

Estabelecida a premissa, Hickman nos dá um gostinho da ação, com um ataque kamikaze japonês por intermédio do torii que mencionei mais acima. Nesse momento, a arte de Nick Pitarra ganha todo seu brilho, com um nível de detalhamento impressionante e completo domínio da composição de quadros entulhados de personagens (humanos ou não). Sua arte em close-ups exige, porém, certo costume, pois ele carrega na caricatura, ainda que ao mesmo tempo tente ser realista, resultando em uma fusão estranha, mas fascinante, com alguns exemplos realmente aterradores, como o próprio Dr. Oppenheimer.

Mas Hickman caminha sempre em frente e funde fatos com ficção sem perder uma verve satírica e crítica sobre os reais acontecimentos e sobre as guerras em geral. Vemos a operação de recrutamento de von Braun na Alemanha nazista, os fatídicos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e, no meio de tudo isso, o autor consegue abordar a morte de Roosevelt (e, principalmente, o que “fizeram” com ele após o falecimento), a posse de Truman e até uma invasão alienígena. A costura entre eventos é invisível e obedece, sem erros ou artificialidades, a lógica interna estabelecida pelo autor.

No entanto, mesmo com uma boa quantidade de eventos acontecendo, Hickman faz questão de deixar a impressão de que algo ainda mais misterioso está acontecendo por trás de tudo. Uma aura de perigo é mantida o tempo todo, especialmente quando aprendemos mais sobre Oppenheimer e Einstein. Fica claro que o autor tem um plano maior, muito maior e que o primeiro volume é o trampolim para uma viagem imaginativa que nenhum leitor quererá perder.

Mesmo, porém, que consideremos o primeiro volume como uma história com um fim em si própria, é possível deleitar-se com a perfeita fusão entre História (essa com letra maiúscula) e história, em uma narrativa engajante que ganha vida com a detalhada arte de Nick Pitarra e as cores de Jordie Bellaire. Seja a ponta de um iceberg ou uma história fechada, Projeto Manhattan – Vol. 1 passa a ser leitura obrigatória para os amantes da Nona Arte.

Projeto Manhattan – Vol. 1 (The Manhattan Projects – Vol. 1, EUA – 2012)
Contendo: The Manhattan Projects #1 a 5
Roteiro: Jonathan Hickman
Arte: Nick Pitarra
Cores: Jordie Bellaire
Letras: Rus Wooton
Tradução: Marquito Maia
Editora (nos EUA): Image Comics
Data de publicação original: março a julho de 2012
Editora (no Brasil): Devir
Data de publicação no Brasil (encadernado): fevereiro 2015
Páginas: 141

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.