Crítica | Prometheus (2012)

estrelas 3,5

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Em uma das muitas entrevistas da divulgação de Prometheus, Ridley Scott justifica que nunca havia voltado para o gênero de ficção científica porque nunca sentira o chamado da história certa. É uma grande responsabilidade, afinal as duas incursões anteriores do cineasta foram duas obras que indiscutivelmente marcaram para sempre o gênero: Blade Runner: O Caçador de Androides e Alien, o Oitavo Passageiro. Por isso, quando Scott anuncia que seu retorno ao gênero será um prequel de sua primeira viagem neste gênero, é impossível manter uma expectativa neutra. O que explica em grande parte a divisão polarizante do longa.

Não apenas um mero prequel, Prometheus é uma ficção científica que tematicamente a coloca num grau de ambição faraônico. Aqui, o casal de arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) descobre uma série de pictogramas e pinturas rupestres em diferentes pontos antigos do planeta, reunindo algo que eles teorizam ser um mapa para uma civilização mais avançada que – ainda sob sua tese – teriam sido os responsáveis pela criação da raça humana: os Engenheiros. À bordo da luxuosa espaçonave Prometheus, os arqueólogos são acompanhados pela filha do magnata Peter Weyland (Guy Pearce), Meredith Vickers (Charlize Theron), o andróide David (Michael Fassbender), o capitão Janek (Idris Elba) e um pequeno grupo de cientistas.

É uma premissa épica e empolgante, que expande grandiosamente o universo claustrofóbico e isolado de Alien. O roteirista estreante Jon Spaihts ficou a imensa responsabilidade de rascunhar a primeira versão do roteiro, introduzindo ali todos os principais elementos e personagens; mas algo que seria muito mais próximo de um novo Alien do que de uma aventura original. Eis que entra o mestre da perpétua enrolação Damon Lindelof, que realizou consideráveis mudanças no texto de Spaihts para algo mais próximo do que vemos em tela.

O problema é que Lindelof adora mistérios idiotas, e também enganar demasiadamente o público. Gosto de como a trama se encerra em possibilidades abertas, especialmente por não deixar explícita a ligação com o primeiro O Oitavo Passageiro, e também nebulosas as intenções dos Engenheiros em relação à raça humana. Mas todo o núcleo que envolve o velho Weyland resulta em uma reviravolta descartável e que acaba por  desestabilizar o ritmo e desfocar as motivações dos personagens principais – agora a busca pela vida eterna entra no jogo, abruptamente. Mesmo que vivido por Michael Fassbender com imensa dedicação, as ações tomadas por David são bastante questionáveis, principalmente pelas mudanças de atitude que o movem durante o ato final.

Mas na ala positiva, há muito do que ser desfrutado. Ao lado do diretor de fotografia Dariusz Woslki, Scott nos entrega um dos filmes com visual mais belos de sua carreira, ficando atrás somente do imbatível Blade Runner. Gravado com avançadas câmeras Red, a paleta de cores é uma explosão de energia e cores vibrantes, seja no interior aconchegante da Prometheus, as paisagens inóspitas de LV-223 dominadas por uma coloração fria e cinzenta e o interior das cavernas dos Engenheiros por uma luz azul marcante – especialmente na linda sequência do holograma encontrado por David – ou até os trajes dos tripulantes, que trazem uma luz âmbar em seus capacetes, criando um contraste muito atraente com o restante do figurino e a própria iluminação dos diferentes locais. As paisagens naturais da Islândia também garantem imersão absoluta nos ambientes, que são magistralmente completados por um trabalho de efeitos visuais excepcional; é um filme plasticamente irreparável. Perfeito.

Já na direção propriamente dita, temos um Scott dividido. Parece um tanto perdido quando temos situações que requerem sutileza, tal como a cena em que David opta por contaminar a bebida de Holloway, com o androide dando uma NADA discreta dedada no copo do sujeito; ou, novamente citando o cientista, quando Holloway é chamado por um de seus colegas de expedição para conferir uma descoberta, tendo uns bons segundos a mais de silêncio enquanto o encara antes de finalmente responder o chamado. A cena em que os cientistas vividos por Sean Harris e Rafe Spall encontram uma forma de vida hostil na caverna dos Engenheiros é uma ótima aula de suspense, mas acaba comprometida pelo comportamento estúpido dos dois, que acabam brincando com a cobra mutante.

Porém, o comando de Scott brilha na memorável cena da cesariana, onde Shaw se vê forçada a desesperadamente tentar remover um organismo alienígena de dentro de seu útero. Não tem o elemento de surpresa que a imortal cena do chestburster teve no original, mas é um sucessor digno em termos de gore e na capacidade de provocar calafrios no espectador; e a performance de Noomi Rapace aqui é simplesmente incrível, tanto na intensidade de seus gritos quanto na expressão física marcante de seu corpo. O faro de Rapace não ter explodido em Hollywood depois desse filme ainda me surpreende.

O design das criaturas é outro acerto, começando pela figura dos Engenheiros, que devem representar a mais perfeita anatomia humana possível (inspirados pelo Davi de Michelangelo, o Homem Vitruviano de Da Vinci e… Elvis Presley de Memphis?), o que acaba por obter sutilmente um efeito aterrador: as criaturas assustam pelo tamanho e pelo olhar capcioso. A maneira como fica explícita o complicado ciclo de vida da gênese do Alien Xenomorfo é muito interessante, e respeita a estética sexual introduzida pelo designer H.R. Giger no filme original. Os vasos com o líquido negro, a nojenta versão primária do facehugger e a inesperada primeira aparição do Deacon; nome que foi dado ao primeiro Alien.

Para alguém que mudou o gênero duas vezes em suas imersões, Prometheus merecia mais nas mãos de Ridley Scott. Mas tendo em vista toda a expectativa, é uma ficção científica decente e que resgata o espírito de exploração e ambição que andava em falta em longas recentes, rendendo ainda espaço para teorias e especulações sobre o universo cada vez mais expansivo.

Prometheus (Idem, EUA/Reino Unido – 2012)
Direção:
Ridley Scott
Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong, Kate Dickie
Duração: 124 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.