Crítica | Prova Final

estrelas 4

No dia 30 de outubro de 1938, Orson Welles transmitiu Guerra dos Mundos, uma ficção científica de H. G. Wells e apavorou uma boa fatia da nação estadunidense. Como muitas pessoas só acessaram o programa depois da introdução que alegava ser ficcional o relato que transmitido, houve uma confusão geral em várias partes do país. O New York Times recebeu uma média de 800 telefonemas sobre o assunto, com pessoas que buscam informações num misto de choque e histeria.

O acontecimento é um marco na história do rádio e demonstra como os estadunidenses adoram uma teoria conspiratória, principalmente as que envolvem a temida invasão alienígena. A produção literária é vasta, bem como a cinematográfica e televisiva. O tema já rendeu ótimas produções e grandes fracassos. Prova Final, dirigido por Robert Rodriguez, traz o tema numa embalagem pop cheia de frescor e dinamicidade, sendo um exemplar de sucesso. Não é um clássico, mas consegue dar conta da proposta pretendida.

Numa escola na pequena cidade de Ohio, os professores começam a agir de maneira estranha. Os jovens Casey (Elijah Wood) e Delilah (Jordana Brewster) são os primeiros a perceber os problemas. Ao testemunhar o assassinato da enfermeira Rosa (Salma Hayek), ambos estão convictos de um mistério envolvendo os professores da escola. Mais adiante, outros colegas começam a perceber os problemas e um grupo é formado na luta contra o mal.

Simples, mas com algumas discussões interessantes, o argumento de Prova Final foi escrito por David Wechter e Bruce Kimmel, sendo transformado em roteiro por Kevin Williamson, em alta na época. O roteirista de Pânico e Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado pegou elementos comuns das suas narrativas e misturou com o feixe de ideias do inventivo Robert Rodriguez, além de ter como aliado o compositor Marco Beltrami, profissional que assinou a trilha sonora de ambos os filmes.

O resultado não poderia ser outro: uma mistura de Ghostface, do pescador vingativo, com algumas doses de Alien e generosas pitadas do “estilo” Tarantino de fazer cinema. Entre os pontos altos do filme, temos a ode à cultura contemporânea e a citação aos clássicos do gênero terror e ficção científica, bem como a presença de nomes como Piper Laurie, a maldita mãe fanática de Carrie – A Estranha e Salma Hayek, atriz em alta nos filmes da época.

Na seara temática, uma das abordagens relevantes é o bullying, uma das discussões mais comuns quando se faz uma radiografia do comportamento dos jovens na sociedade contemporânea. Casey sofre horrores na escola por causa da perseguição dos valentões que precisam massacrar um nerd fisicamente mais fraco. Stokely (Clea DuVall) é uma jovem introspectiva e por “aparentar” ser lésbica, é também perseguida, só que pelas garotas sensuais da escola.

Tudo isso já foi visto em diversos filmes melhores, mas em Prova Final ganha maior impacto quando o clássico The Wall é tocada lá pelo meio do filme, uma canção que nos diz que ao invés de motivar as crianças em processo de formação, o sistema oprime com alienação e postura antidemocrática. Os tijolos nas paredes e as crianças caminhando em filas no videoclipe da canção reforçam a ideia de um grande muro na sociedade, sem qualquer resquício de individualidade ou criatividade. É como se a crítica mirasse numa espécie de homogeneização do comportamento e na rigidez do sistema educacional, como acontece durante a perseguição dos professores numa busca sedenta por capturar o grupo de estudantes que não foi dominado pelos alienígenas.

Em Prova Final, os professores não “deixam as crianças em paz” e se tornam muito mais que um “tijolo na parede”, mas metaforicamente pensando, eles representam toda a extensão de um muro com várias camadas de concreto. Sempre abusando do poder e donos da palavra final, os profissionais do ensino neste filme representam, ao lado dos seus gestores e aliados na administração escolar, o terror dos jovens indefesos.

Outro tema interessante é a questão da relação dos alienígenas com um dos bens mais preciosos da contemporaneidade: a água, em crise não só no Brasil, mas em todo o planeta. O líquido da vida ganha bastante importância no roteiro, pois como é explicado no último ato do filme, foi o motivo da visita do nosso vizinho extraterrestre.

Prova Final foi lançado numa época em que a série Arquivo X chamava à atenção para o tema invasão alienígena, um dos tópicos mais abordados nas teorias conspiratórias estadunidenses. Não é um filme grandioso, mas diverte, traz à tona os debates supracitados e não tenta se levar à sério demais, o que seria um abuso, e por isso, merece destaque como uma das produções mais interessantes do período.

Prova Final (The Faculty, Estados Unidos – 1998)
Direção: Robert Rodriguez.
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Elijah Wood, Jordana Brewster, Clea Duvall, Josh Hartnett, Shawn Hatosy, Piper Laurie, Salma Hayek, Robert Patrick.
Duração: 104 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.