Crítica | Próxima Parada: Apocalipse

Já dá para perceber que How It Ends não tem muito futuro quando o máximo que o Netflix conseguiu fazer em relação à versão do título em português foi o absolutamente ridículo Próxima Parada: Apocalipse. Mas o mais engraçado – ou triste – é notar que o título em inglês é uma enganação completa também, além de ser o menor dos problemas de mais um desapontador longa produzido pelo canal de streaming.

Começarei pelo fim, mas sem dar spoilers além de dizer que, apesar do título em português poder ser traduzido na literalidade por “como isso acaba” (ou “como tudo acaba”, em uma pequena liberdade para fins de adequação à temática), a obra simplesmente não acaba. E não quero com isso dizer que ela é muito longa ou que passa a sensação de ser maior do que deveria ser. Ela até se segura razoavelmente bem nesse quesito, mas a questão, aqui, é direta: o filme não tem fim. Ou melhor, tem. Mas ele é abrupto e completamente preguiçoso, com o roteiro de Brook McLaren meio que jogando a toalha e simplesmente fazendo os créditos subirem assim do nada. E olha que sou o maior defensor de filmes com finais abertos e/ou crípticos (não falo de cliffhangers baratos, lógico, como em O Hobbit 2), mas isso QUANDO faz sentido estrutural dentro da narrativa e não quando o roteirista e o diretor ACHAM que fica mais cool fazer assim, o que, definitivamente, não é o caso aqui.

No entanto, se este fosse o único problema do roteiro, seria perfeitamente possível relevá-lo até certo ponto. A grande verdade, porém, é que o não-final é a cereja estragada no bolo solado que Próxima Parada: Apocalipse é. Mas é um bolo solado que prometia ser razoavelmente apetitoso com sua pegada de baixo orçamento para uma premissa normalmente conectada com produções que esbanjam efeitos especiais. No filme, um evento de proporções apocalípticas atinge a Costa Oeste dos Estados Unidos, o que faz com que Will (Theo James) e Tom (Forest Whitaker), respectivamente namorado (tecnicamente, mas não oficialmente noivo) e pai de Samantha (Kat Graham), iniciem uma road trip de Chicago até Seattle para salvar a dama em perigo. Com isso, a premissa de “fim do mundo” é vista a partir de uma longa viagem de carro, o que automaticamente significa que um orçamento modesto poderia ser esticado de maneira eficiente.

Mas não há orçamento e boa vontade que resista a um roteiro inábil. Se a relação hesitante entre Will e Tom até é razoavelmente bem apresentada, ela não ganha qualquer desenvolvimento ao longo da projeção, com um problema de saúde de Tom sendo introduzido do nada a partir da metade da película, quase que completamente retirando Whitaker dos holofotes. O diálogo entre os dois – e depois também com a jovem Ricki (Grace Dove), que embarca na viagem um pouco mais para a frente – é extremamente limitado e crivado de situações clichê de revirar os olhos, com uma crítica social, especialmente no tocante aos nativos americanos, óbvia e explicada em seus mínimos detalhes. Aliás, a própria Ricki, que ganha uma relevância razoável lá pela metade do filme, tem um arco tão abrupto quanto o final, sem que sua existência seja justificada para além de incluir uma mulher qualquer em meio à dupla masculina.

E, claro, há o cenário Mad Max que chega a ser inadvertidamente engraçado. Vejam que estamos falando de um evento apocalíptico misterioso que não é mostrado em tela e que não afeta fisicamente mais do que a região oeste americana, com a road trip começando praticamente na hora seguinte à constatação de que existe um problema grave, durando, ao total, pouco mais do que seis dias. Deixe-me repetir: SEIS DIAS. Não preciso elucubrar muito para chegar à conclusão de que esse mundo do filme é substancialmente normal, ainda que, na medida em que a dupla se aproxima da zona afetada, as coisas comecem a ficar compreensivelmente mais complicadas. Mas, mesmo diante dessa situação, Will e Tom só encontram só encontram psicopatas enlouquecidos e já devidamente organizados em “tribos” e prontos para matá-los para roubar seu carro e seu combustível. É como se os dois tivessem entrado em um portal dimensional que os tivesse levado diretamente para dentro de um episódio de Além da Imaginação apresentado pelo saudoso Rod Serling. E não, não me venham dizer que isso faz parte de uma crítica social sobre a população da chamada middle America, pois, por mais que alguns queiram realmente acreditar que a meiúca americana é feita somente de caipiras daqueles que vemos em Amargo Pesadelo, a verdade está longe de ser essa. Seria o equivalente a acreditar que, no Brasil, fora dos grande centros, só há gente que anda de jegue e canoa, tendo que desviar de jacarés atravessando a rua empoeirada. A verdade mesmo é que McLaren não tem imaginação alguma para criar um cenário crível imediatamente após uma situação gravíssima de proporções gigantescas. Ele simplesmente pega essa premissa, que poderia ser interessante, e a encaixa em um filme típico de apocalipse. Só faltou aparecerem zumbis…

A situação não melhora muito com a direção de David M. Rosenthal, já que o filme é, praticamente, uma intercalação de sequências noturnas com fotografia escura porque sim (ou seja, ruim) e de sequências de dia que são feitas para servirem de cartões postais das paisagens americanas para que incautos achem que tomadas bonitas do tipo Discovery Channel é sinônimo de boa fotografia. No final das contas, porém, Rosenthal não tem muito com que trabalhar diante do parco orçamento, deixando apenas para os 15 minutos finais o uso de cenários apocalípticos bem trabalhados e um CGI que eu desconfio fortemente que foi “comprado pronto” de algum outro filme de premissa semelhante.

No departamento de atuações, não há muito o que falar. Theo James, da série Divergente, não é o galã com menos latitude dramática que já singrou as telonas e telinhas, mas ele também não tem absolutamente nada de especial a ponto de valer mais do que um frase ambígua como essa em uma crítica. Grace Dove, por outro lado, mostra alguma promessa, mas seu personagem mais parece uma garota contrariada que cruza os braços e bate o pezinho. Whitaker é Whitaker e é sempre bom ver o veterano atuando, ainda que seu papel de “pai durão” e “sogro mais durão ainda” seja um “copia e cola” de um sem número de outros assim. O que sinceramente não entendo é como um ator do naipe dele aceita participar de um filme assim. Mas, é aquilo, todo mundo tem que pagar as contas…

Próxima Parada: Apocalipse vai, do patético título em português até seu final que não é final, desapontando o espectador de pouquinho em pouquinho, apesar de começar prometendo diversão. Mas nem divertido ele acaba sendo, especialmente se lembrarmos que o Netflix vem tornando-se pródigo em produções próprias na seara cinematográfica que tem como padrão ser… hummm, apenas padrão…

Próxima Parada: Apocalipse (How It Ends, EUA/Canadá – 13 de julho de 2018)
Direção: David M. Rosenthal
Roteiro: Brooks McLaren
Elenco: Theo James, Kat Graham, Forest Whitaker, Kerry Bishé, Nicole Ari Parker, Grace Dove, Lanie McAuley, Mark O’Brien, Nancy Sorel, Eric Keenleyside
Duração: 113 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.