Crítica | Psicose Mortal

  • Filme sete de sete da Maratona de Horror que relatei em detalhes aqui.

Psicose Mortal é um daqueles filmes que são inexplicavelmente produzidos, lançados no cinema só para constar e esquecidos nas brumas do tempo. Para se ter uma ideia, o faturamento com sua exibição cinematográfica nos EUA – no gigantesco circuito de oito cinemas(!!!) – foi de quase seis mil dólares, ou seja, valor que certamente não cobriu nem mesmo os custos com as oito cópias necessárias para sua carreira por lá. Até mesmo seu lançamento em DVD demorou absurdamente, acontecendo somente em 2013 e mesmo assim como parte de uma coletânea de filmes igualmente obscuros.

Mas a grande verdade é que essa pequena pérola cinematográfica foi indevidamente enterrada e esquecida. Não que ela seja excepcional ou que vá mudar a vida de alguém, mas sim porque houve muita coisa muito pior lançada com toda a pompa e circunstância em 1992 e a fita, que conta com o saudoso Bill Paxton como protagonista e o sempre sinistro Michael Ironside como coadjuvante, definitivamente merecia mais atenção.

No filme, Graham Krakowski (Paxton) é um típico yuppie em começo de carreira e cheio de si agora que conseguiu um emprego promissor, procurando moradia. Convencido por uma nada convencional corretora de imóveis (vivida por Colleen Camp) a comprar uma casa caindo aos pedaços em um bairro ainda nascente, Graham logo descobre que tem um vizinho desagradável: um mendigo sujo e nojento (Marshall Bell completamente irreconhecível) que vive nos arredores, usando a casa antes vazia como uma de suas bases para pernoites e outras coisas bem menos sanitárias. Não demora e uma relação de conflito é estabelecida entre os dois, com Graham cada mais obsessivo com o mendigo, culpando-o por tudo que acontece de errado com ele.

O que torna a obra diferente e intrigante é seu lado psicológico. A direção com câmera proeminentemente subjetiva de Chris Walas e o roteiro de Richard Jefferies, que narra a história a partir do ponto de vista não confiável de Graham, nos faz duvidar constantemente da sanidade dele e até mesmo da existência do mendigo, que tem todas as características de um construto mental fruto de uma espiral de paranoia que vai acometendo o protagonista cada vez mais violentamente. E Paxton, sempre muito carismático, mas que nunca realmente demonstrou uma latitude dramática de nota, tem, aqui, uma belíssima atuação que usa seus histrionismos e exageros a favor da história, mantendo um ritmo cômico que surpreende positivamente o espectador mesmo quando o roteiro escorrega em saídas fáceis em nível pastelão que poderiam ter sido evitadas.

E, para o que seria apenas mais um “terrir”, diria que o filme tem uma inesperadamente forte carga de humor negro, com mortes sendo utilizadas sem pudor para estabelecer situações cada vez mais impossíveis que acabam exigindo a interferência da polícia, aqui simbolizada pela presença contrastante de um sisudo tenente Ralf Barfuss (Ironside), que não liga para os balbucios cada vez mais incoerentes de Graham. No entanto, quando, a partir de um pouco antes do terceiro terço, a narrativa dá uma guinada que altera completamente o status quo de Graham, o filme perde consideravelmente suas marcas mais carregadas de uma comédia quase doentia, correndo para uma resolução um tanto quanto simplista que destoa do conjunto e permite que o tão interessante aspecto psicológico do roteiro passe a ser uma lembrança longínqua. Não que o filme desabe por completo, longe disso, mas ele acaba tornando-se substancialmente mais convencional e, portanto, menos interessante.

Ajudando muito o envolvimento do espectador, Walas e Jefferies impõem um tom farsesco à narrativa que se encaixa tanto com a forma de atuação de Paxton e de Ironside, quanto com a presença quase mítica do mendigo, permitindo que aceitemos os fatos como eles nos são apresentados e, ao mesmo tempo, levando-nos a duvidar de Graham em sua queda vertiginosa pelos meandros de sua mente que pode ou não ser perturbada. Se o roteiro tivesse seguido esse caminho até o final, esquivando-se de uma abordagem clara sobre o que aconteceu e não aconteceu e, no processo, deixando o espectador em constante dúvida, o resultado teria sido muito superior. Do jeito que o filme acabou chegando às (pouquíssimas) telas, seu vigor se esvai no fim do segundo ato, ainda que Paxton segure seu personagem com pura presença em cena até o final.

Psicose Mortal, como o mendigo do título original em inglês, parece um filme que não existe. Mas sim, ele foi feito, lançado e mantido debaixo do manto do esquecimento desde então. E, diferente de um caminhão de outras obras noventistas que mereceriam ser apagadas da existência, esta curiosamente tem seu valor, nem que seja para ver Paxton carregando um filme nas costas como poucas vezes foi capaz de fazer.

Psicose Mortal (The Vagrant, EUA/França – 1992)
Direção: Chris Walas
Roteiro: Richard Jefferies
Elenco: Bill Paxton, Michael Ironside, Marshall Bell, Mitzi Kapture, Colleen Camp, Patrika Darbo, Marc McClure, Stuart Pankin, Teddy Wilson, Derek Mark Lochran, Mildred Brion
Duração: 91 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.