Crítica | Psycho Raman

estrelas 3,5

Anurag Kashyap, influente diretor de Bollywood da atualidade, responsável por obras controversas como Black Friday, nos traz em seu mais recente filme, Psycho Raman, um olhar sobre como a obsessão pode moldar a mente de uma pessoa, transformando-a em uma figura perigosa na tentativa de copiar o objeto de seu desejo. Quando esse objeto é justamente um psicopata famoso a situação se complica ainda mais. Temos aqui um perturbador e violento retrato da psicose, passada nas ruas de Mumbai, um alerta de como as pessoas podem simplesmente enlouquecer graças ao ambiente em que vivem.

A trama gira em torno de Ramanna (Nawazuddin Siddiqui), um morador de rua que acaba ficando obcecado pelo assassino em série Raman Raghav, que assolara as ruas da região na década de 1960, matando mais de quarenta pessoas. Procurando seguir os passos desse seu ídolo, o personagem acaba tendo sua atenção atraída pelo policial Raghavan (Vicky Kaushal) e decide criar inúmeras situações que os colocam em uma eterna caçada de gato e rato, na qual cada um deles altera o papel de tempos em tempos – um se torna o caçado e o outro o caçador. Com muitos corpos sendo deixados pelo caminho esse novo Raman acaba ganhando mais atenção com o passar do tempo.

Com uma divisão explícita em capítulos, Psycho Raman lentamente trabalha a metamorfose de seu protagonista, o assassino, que cada vez mais assume traços desumanos. O roteiro de Vasan Bala e Anurag Kashyap, porém, não trabalha com o óbvio e cria em nós a dúvida: ele sempre fora assim ou, de fato, passou por uma metamorfose? Aos poucos somos oferecidos mais detalhes sobre sua vida, seu passado e o personagem acaba ganhando uma nítida profundidade – passamos a entender o porquê dele ser assim, em uma mistura de pena e espanto.

Siddiqui nos entrega um assustador retrato da psicopatia. Seu personagem é inteligente, manipulador e em seu olhar enxergamos toda a maldade presente em suas intenções. Inúmeras vezes o vemos olhar pelas suas mãos formando dois zeros, como se fossem binóculos, uma manifestação física da loucura que o assola e acaba o tornando ainda mais imprevisível. Verdadeiramente não sabemos o que esperar de cada cena com o personagem, visto que seu comportamento é explosivo, instável – uma hora ele está calmo, na outra ele está prestes a assassinar alguém – nosso único aviso são os títulos dos capítulos, que anunciam o que veremos em cada trecho do filme.

Infelizmente, o ritmo da narrativa acaba caindo em uma monotonia quando acaba simplesmente repetindo alguns pontos que já vimos anteriormente. Por um longo período o roteiro se resume a mostrar o foco de Ramanna, sua vítima e, é claro, o assassinato em si. O que se segue é a perseguição policial, que, soa repetitiva pelas inúmeras vezes que vemos o psicopata se desvencilhar da polícia, criando uma previsibilidade mesmo dentro das inconstâncias psicológicas do personagem principal – enquanto não conseguimos antecipar exatamente quando ele irá fazer algo, sabemos que, eventualmente, ele irá matar alguém.

Por outro lado, o foco na figura do policial cria um interessante antagonismo entre os dois. Eles não são pessoas assim tão diferentes, apenas estão em lados opostos. É claro que Ramanna apresenta uma psicose gigantesca, mas Raghav também não é exatamente “correto”, sendo usuário de drogas e também apresentando uma personalidade explosiva, que o transforma em uma pessoa violenta e implacável. O maniqueísmo, portanto, deixa de existir, ao passo que Anurag Kashyap passa a trabalhar na faixa acinzentada que divide o bem e o mal, é criado, assim, um retrato mais realista de nossa sociedade, por mais que diversas cenas proporcionem uma fuga dessa realidade.

Com esses fatores somados, Psycho Raman se concretiza como uma obra que consegue mexer com seu espectador, o tirando de sua zona de conforte. Seus deslizes, especialmente no ritmo, todavia, acabam prejudicando a nossa absorção da obra, visto que ela se torna arrastada em alguns trechos, mais especificamente na segunda metade da projeção. Não é o melhor trabalho de Anurag Kashyap, mas certamente vale ser assistida, nos oferecendo um perturbador retrato dessa mente insana, que busca, acima de tudo, copiar o trabalho de outro psicopata.

Psycho Raman (Raman Raghav 2.0) – Índia, 2016
Direção:
 Anurag Kashyap
Roteiro: Vasan Bala, Anurag Kashyap
Elenco: Nawazuddin Siddiqui, Vicky Kaushal, Sobhita Dhulipala,  Mukesh Chhabra,  Vipin Sharma
Duração: 132 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.