Crítica | Pulp Fiction – Tempo de Violência (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

“Uma das coisas que eu faço, antes de começar a escrever um filme… Quando estou pensando em começar a escrever um filme, é ir até minha coleção de discos e botar pra tocar canções. Tentando encontrar, basicamente, a personalidade… O espírito do filme.”

Acima temos um trecho de entrevista com Quentin Tarantino, disponível na última faixa da trilha sonora de Pulp Fiction – Tempo de Violência. Já fica claro como a música tem um papel importantíssimo em suas obras, surgindo quase como o esqueleto para a criação de suas histórias. Em seu segundo filme, Tarantino traria uma seleção musical ainda mais marcante do que a que tivemos em Cães de Aluguel.

O álbum começa tão bem quanto. De Dick Dale & His Del-Tones, Misirlou invade os créditos iniciais após a sequência de assalto envolvendo Honey Bunny e Pumpkin, logo após de tomarem um café. A melodia, uma das mais tradicionais do Mediterrâneo Oriental (acredite, suas gravações mais antigas datam de 1919, tendo atingido popularidade apenas com a versão de Dale, em 1962), ganha uma vibrante interpretação para o surf rock, consistindo apenas de instrumental. E é assim, simplesmente, que Tarantino nos diz que a violência e o crime são elementos cotidianos no universo dos personagens que conheceremos.

Então chegamos à pequena “trilogia” de canções que compõem o arco de Vincent Vega e Mia Wallace. Son of a Preacher Man, single de Dusty Springfield de 1968, é um fantástico soul que estabelece um tom desconfortável para a situação de Vega, incumbido da tarefa de levar a esposa de seu patrão em um encontro. Não deixa de ser irônico, já que Springfield fala de como se “entretia” com as constantes visitas do filho de um pastor, criando um sutil paralelo com Vega.

Em seguida, aquele que talvez é  o grande momento do filme: a famosa competição de dança do Jack Slim’s, em que Mia e Vincent acabam na pista de um restaurante temático dos anos 50. É ao som de You Never Can Tell, balada empolgante de Chuck Berry, que Uma Thurman e John Travolta protagonizam uma das melhores cenas de dança do cinema (além de ser uma referência direta ao passado de Travolta em Embalos de Sábado à Noite), sendo um importante momento para a aproximação dos dois.

Finalmente, mais uma canção repleta de significados. Girl, You’ll be a Woman Soon foi escrita originalmente por Neil Diamond em 1968, mas foi com o cover da banda Urge Overkill que a suave canção criou a atmosfera para a overdose de Mia. É um momento de antecipação bizarro, já que Vincent está claramente confuso quanto a seus sentimentos, querendo sair dali o mais rápido possível, enquanto Mia dança e prepara-se para seduzir o empregado de seu marido. A canção suave e às vezes agitada é perfeita para o desfecho da situação, que coloca Vincent em uma situação ainda pior.

Para finalizar, é importante falar sobre o estilo predominante no álbum: Surf rock. Já estava presente na abertura com Misirlou, mas suas batidas e acordes de praia permanecem durante praticamente todo o longa. Bullwinkle Part II, de Ernest Furrow é perfeita para a primeira cena em que vemos um nítido uso de drogas, quando Vincent se injeta com heroína e parte para dirigir em uma estrada escura e com a capota do carro baixada; é quase como se a música também “dopasse” o espectador, envolvendo-o em uma sequência passageira que realmente não traz muita função narrativa além de antecipar a chegada de Vincent à casa de Mia.

Por fim, Tarantino não poderia escolher faixa melhor para encerrar a projeção. Após o verdadeiro espetáculo espiritual de Jules Weinfeld no café, Surf Rider, do The Lively Ones, empresta sua melodia desbravadora para a saída dos dois gângsteres e a entrada dos créditos finais.

É facilmente uma das melhores coletâneas que já vimos no cinema.

Pulp Fiction (Original Motion Picture Soundtrack)
Compositor:
Various Artists
Gravadora: MCA
Ano: 1994
Estilo: Rock, Surf Rock, Soul, Pop.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.