Crítica | Pulp Fiction – Tempo de Violência

estrelas 5

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

É muito difícil falar de Pulp Fiction imparcialmente. O filme foi um dos mais impactantes da década de 90 e gerou – e ainda gera – um sem número de citações diretas e indiretas em filmes, seriados e em conversas em nosso dia-a-dia. Mesmo aqueles que não gostam do filme, e não há pecado algum nisso, têm que reconhecer ao menos o fenômeno pop que a segunda obra dirigida por Quentin Tarantino gerou.

A principal característica do filme é sua narrativa não-linear. Muitos dirão que não foi Quentin Tarantino quem criou essa forma de montar e contar uma história (ou várias), mas ele nunca disse que foi. Há clássicos inquestionáveis como Cidadão Kane, Rashomon e Annie Hall que se aventuraram por esse caminho, com sucesso indiscutível. Mesmo o próprio Tarantino, discreta e habilmente, já havia tentado abraçar essa técnica em Cães de Aluguel, seu invejável début diretorial.

Acontece que o que Tarantino fez em Pulp Fiction foi, de um lado, popularizar essa forma de narrativa e, de outro, transformá-la quase que em sua própria narrativa, dando o “toque Tarantino” nela. A prova da popularização da narrativa não-linear é a quantidade de filmes que seguiram essa tendência ao longo da década de 90 e dos anos 2000, culminando com, talvez, Amnésia e Cidade de Deus.

Sobre transformar a narrativa não-linear em algo seu, essa é uma das características mais incompreendidas de Tarantino. O diretor é acusado de copiador, plagiador e todo tipo de sinônimo disso, como se nenhum outro diretor fizesse o mesmo ou como se o próprio Tarantino já não tivesse afirmado que copia sim obras que gosta. Mas o que o diretor sabe fazer é transformar tudo que copia ou pega emprestado em algo próprio. Sabemos que estamos vendo um filme de Tarantino mesmo que sejamos apresentados à obra lá pela metade. O mesmo se pode dizer de diretores como Woody Allen e Steven Spielberg. Se isso é algo bom ou ruim, não cabe aqui julgar. O que fica evidente é que Tarantino sabe pegar o que aparentemente é lugar-comum e transformar algo com sua assinatura e foi isso que ele fez com a narrativa não-linear em Pulp Fiction: converteu o básico em uma estrutura que se desdobra em diversas histórias paralelas e, às vezes, tangenciais, que, ao final, deixam evidente o domínio que o diretor tem sobre a câmera e sobre a montagem, além da sempre presente e sempre perfeita trilha sonora.

Vejam, por exemplo, o pulo temporal que Tarantino faz no meio do filme, quando vemos o pequeno Butch (o personagem vivido por Bruce Willis) recebendo a visita do Capitão Koons (Christopher Walken), que conviveu com seu pai quando os dois foram prisioneiros de guerra. Toda essa cena, que conta uma história só com um longo monólogo de Koons em um plano-sequência único, que não se desvia do personagem, tem como objetivo demonstrar para nós a importância do relógio do pai de Butch. Isso acontece já no meio da entrecortada narrativa que Tarantino nos impõe, mas, quando o flashback acontece, nós o aceitamos naturalmente, sem estranheza ou sem nem por um momento deixar de entender o que está acontecendo. Hoje, podemos achar isso algo óbvio e pouco imaginativo, mas tentem transportar-se para 1994, quando Tarantino lançou Pulp Fiction em Cannes quase que como uma obra experimental e recebeu aplausos de pé por longos minutos. Ninguém antes havia montado um filme desse jeito, pelo menos não de maneira consistente e contando várias histórias ao mesmo tempo. E aqui, claro, cabem os aplausos devidos à saudosa Sally Menke, a montadora favorita do diretor e talvez a maior responsável pela efetiva gênese da “identidade tarantinesca”.

E não é só isso.

Cada linha narrativa é crivada de diálogos que funcionam como uma expansão do que vimos em Cães de Aluguel. Enquanto seu filme anterior tinha diálogos que ficavam circunscritos a um mesmo círculo de pessoas composto por gangsteres ou assaltantes de banco de origem caucasiana, em Pulp Fiction vemos uma profusão de personagens diferentes em dinâmica de dupla: o casal de assaltantes amador que abre e fecha o filme (Tim Roth e Amanda Plummer); a dupla de assassinos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) em uma missão; o chefão do crime Marsellus Wallace (Ving Rhames) e o lutador de boxe no crepúsculo de sua carreira Butch (Willis) deparando-se com os estupradores Zed (Peter Greene) e Maynard (Duane Whitaker); Vincent Vega e Mia Wallace (Uma Thurman) às voltas com uma overdose de heroína e com o fornecedor de droga Lance (Eric Stoltz) e sua esposa Jody (Rosanna Arquette) e Vincent, Jules, Jimmie (o próprio Tarantino) e o “resolvedor de problemas” Mr. Wolf (Harvey Keitel) lidando com uma desagradável situação envolvendo sangue e pedaços de cérebro espalhados em um carro. Histórias estanques, costuradas por uma temática única em um filme que as conta fora de ordem, mas as conecta brilhantemente.

Cada diálogo é cuidadosamente talhado para funcionar com seu personagem e a respectiva interação com o outro personagem. Há de tudo um pouco, além da incrível capacidade de Tarantino de inserir menções à cultura pop a todo momento. As frases sobre as pequenas diferenças entre Europa e Estados Unidos, sobre os “atos medievais” de Marsellus em cima de Zed, sobre a citação da Bíblia que Jules usa antes de matar e diversas outras são tão vazias de conteúdo quanto repletas de ritmo, ao ponto de terem facilmente entrado na cultura geral de cinéfilos e, também, de espectadores casuais. E tudo isso casado com uma escolha cirúrgica de canções para cada momento, cada situação, em uma trilha sonora antológica.

Não é todo filme que consegue esse tipo de façanha: ser um fenômeno pop em sua própria época e, ao mesmo tempo, ser uma obra que demonstra o mais absoluto controle de câmera e de montagem. Pulp Fiction, apesar de extremamente violento, é um deleite para os olhos e para os ouvidos, além de ser instrutivo. Afinal de contas, onde mais você poderia saber que em Amsterdam, eles servem cerveja em copos de vidro no cinema ou que massagem nos pés sempre tem conotação sexual?

Pulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, EUA – 1994)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary
Elenco: Tim Roth, Amanda Plummer, John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Ving Rhames, Rosanna Arquette, Eric Stoltz, Uma Thurman, Christopher Walken, Maria de Medeiros, Harvey Keitel, Duane Whitaker, Peter Greene, Quentin Tarantino
Duração: 154 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.