Crítica | Punho de Ferro #1 a 15 (1975)

Obs: Leiam, aqui, todas as nossas críticas de quadrinhos do Punho de Ferro.

Punho de Ferro pode não ser um dos heróis mais famosos da Marvel Comics, mas sua carreira nos quadrinhos começou impressionantemente bem com uma origem complexa e extensa, contada ao longo de um arco de oito números em Marvel Premiere, que foi seguido de uma edição standalone e duas finais que iniciaram outro arco, mas não o acabaram, pelo menos não nessa mesma publicação. Mas o melhor é que toda essa história de origem foi capitaneada por ninguém menos do que Roy Thomas, Len Wein e Doug Moench no roteiro, uma trinca lendária nos quadrinhos, acompanhados dos excelentes Gil Kane e Larry Hama na arte. E, como a cereja nesse bolo, a imbatível dupla Chris Claremont e John Byrne entraram a bordo em Marvel Premire #25, a última edição da publicação dedicada ao super-herói.

Mas a carreira solo do herói não acabaria ali. Muito ao contrário, ele partiu, imediatamente após a última edição dele em Marvel Premiere, para uma verdadeira publicação solo que, infelizmente, durou por apenas 15 números, de novembro de 1975 a setembro de 1977, mas que teve a dupla Claremont/Byrne por toda ela, algo por si só excepcional e que vale a leitura independente de qualquer outro fator. Ao longo dos 15 números, há um arco longo de sete edições que desenvolve e encerra aquele começado em Marvel Premiere #24, um menor de três edições seguido de cinco edições essencialmente soltas, ainda que subtramas só acabem mesmo resolvidas em Marvel Team-Up #63 e 64. No entanto, o trabalho da dupla criativa, nessas 15 edições, amplifica a mitologia do personagem e de K’un Lun, desenvolve Colleen Wing e Misty Knight, introduz nomes importantes como o advogado Jeryn Hogarth, Alan Cavanaugh, Davos, o Serpente de Aço e tem a honra de conter a primeira participação efetiva de um vilão que se tornaria extremamente famoso como arqui-inimigo de Wolverine: Dentes de Sabre.

Vamos então passear por todas edições que formam a primeira publicação solo de Punho de Ferro, separada por arcos quando possível?

estrelas 4,5

Punho de Ferro #1 a #7
(novembro de 1975 a setembro de 1976)

Ao final de Marvel Premiere #25, Colleen Wing foi sequestrada por um inimigo nas sombras, como parte de uma história que começara na edição anterior. Assim, em essência, os sete números iniciais de Punho de Ferro continuam o referido arco, com o herói, junto com Misty Knight, investigando pistas para achar a amiga desaparecida. Como é comum em primeiras edições de novos super-heróis, Punho de Ferro #1 conta com a participação especial do Homem de Ferro e a obrigatória pancadaria entre eles, até que tudo seja esclarecido e encerrado com um aperto de mãos.

É nesse número que Claremont aproveita para realmente inserir Misty Knight na mitologia do herói, já que ela havia aparecido muito rapidamente apenas em Marvel Premiere #21. Aqui, ela é apresentada como uma investigador particular, ex-policial e colega de profissão da própria Colleen Wing, com as duas sendo sócias na Nightwing Restorations, uma agência de detetives particulares. Esse é o primeiro retcon que o roteirista faz, dando mais substância às duas personagens e ao mesmo tempo construindo um passado entre elas.

punho de ferro montagem 1

John Byrne e sua arte. Na primeira página, uma luta em vários estágios em apenas uma imagem. Na segunda, outra luta, só que quadro-a-quadro, com extrema fluidez.

Punho de Ferro #2, então, lida primordialmente com a expansão da mitologia do herói durante sua estadia de 10 anos em K’un Lun. Descobrimos que Danny tinha uma família na cidade mística e que Miranda Rand K’ai, apresentada na edição, é a única mulher que, desobedecendo as leis, tornou-se mestre em artes marciais, graças aos ensinamentos de seu amante, Lorde Conal D’hu-Tsien, da aristocracia da cidade. Ao ser descoberta como lutadora, ao ajudar Danny a livrar-se de Merrin, ela é condenada, junto com seu amante, a terem suas memórias apagadas, mas eles se recusam a capitular, fugindo para além dos muros da cidade, para uma zona proibida e comandada pelos H’ylithri, seres que representam a natureza do local e que odeiam os humanos.

Entrei nesses detalhes todos apenas para mostrar que Claremont joga, aqui, um jogo de médio e longo prazo, sem furtar-se de desviar de sua história principal para ampliar e muito a história pregressa de Danny e de K’un Lun também, mostrando que a Cidade Sagrada não é assim tão pura e perfeita como a origem do Punho de Ferro em Marvel Premiere havia dado a entender. Trata-se, como se pode ver, do segundo retcon do escritor em apenas duas edições. Ao mesmo tempo, finalmente aprendemos que Colleen Wing está passando por um recondicionamento comportamental por ordem de Mestre Khan, um vilão místico que se parece muito com o Mandarim, ainda que ele tenha mais laços com o Doutor Estranho, inclusive usando os mesmo encantamentos.

Depois da segunda edição, Danny e Misty vão para Londres como parte de suas investigações e acabam envolvendo-se com Ravager/Radion, ser formando de energia atômica. Essa história, que toma a integralidade das edições #3 e #4, desvia-se quase que integralmente da linha narrativa principal e mostra que o Punho de Ferro não funciona muito bem contra vilões exagerados, do tipo que lança raios pelas mãos. Não que a história em si não seja boa, pois a arte de John Byrne faz tudo ser extremamente agradável e fluido, mas ver um especialista em kung-fu que usa esporadicamente o “punho de ferro” lutando contra um gigante de armadura que, depois, se torna um gigante fumegante de radiação pura não funciona de verdade. Mas Claremont faz uma limonada do limão e começa a mostrar, aqui, que os poderes do “punho de ferro” de Danny vão além do soco super-poderoso que ele pode dar: vemos Danny usar seu poder para curar-se e também para absorver energia do vilão, que ele usa em seu favor. Ah, e como poderia esquecer: o autor não se faz de rogado e introduz um novo retcon, revelando que Knight tem um braço biônico.

A edição #5, então, volta para a história principal, fazendo um pulo temporal que dá a entender que mais investigações aconteceram, com Danny ainda em Londres sendo atraído para uma armadilha. No processo, ele conhece o irlandês, ex-membro do IRA, Alan Cavenaugh, que se torna seu amigo. Juntos (ou quase, pois Danny mantem secreta sua identidade de Punho de Ferro), eles enfrentam o Cimitarra, enviado do Mestre Khan, algo que usa toda a maestria de John Byrne desenhando lutas mais realistas, com golpes, chutes e armas brancas, algo muito mais condizente com o Punho de Ferro do que rajadas radioativas. Ao final, aprendemos que Colleen Wing acabou seu condicionamento, tornando-se uma arma para matar Danny como parte dos planos de Kahn.

Muita coisa acontece na edição #6, com Claremont mostrando todo seu controle narrativo ao lidar com o resgate em si de Colleen pelo Punho de Ferro, ao mesmo tempo que faz uso de flashbacks para introduzir o advogado Jeryn Hogarth, que conhecera Wendell Rand e que quer colocar Danny de volta como herdeiro do conglomerado controlado por Joy Meachum, filha de Harold, assassino do pai de Danny e que morrera pelas mãos do misterioso ninja que tomava o corpo do professor Lee Wing. Além disso, vemos K’un Lun no presente novamente, ou, pelo menos, o Sanctum Santorum de Yu-Ti, o regente da cidade que vem acompanhando cada passo de Danny na Terra. Um confronto dele com um irritado Lei Kung, dá a entender que Yu-Ti, irmão de Wendell Rand, é, na verdade, um usurpador do trono de seu irmão e que teria sido responsável, por inação, pela morte de Heather, mãe de Danny.

Como se tudo isso não bastasse, ainda vemos uma fantástica luta entre Punho de Ferro e uma Colleen Wing sem controle de sua mente, que nos mostra que ela é muito mais do que uma lutadora casual de kung fu. E Claremont ainda dá outro uso ao poder de Punho de Ferro: criar uma fusão de mentes para livrar Colleen do condicionamento, o que os une de forma indelével para um certo desgosto da heroína.

No derradeiro número do arco, as linhas narrativas vão se fechando, com o embate entre Punho de Ferro e Mestre Khan, um cliffhanger que quase que integralmente confirma a traição de Yu-Ti e a reiteração de que os Meachum, ajudados por Davos, filho de Lei Kung, que vem de K’un Lun, ainda querem vingar-se do herói. Olhando esse arco de forma ampla, fica evidente que ele é uma excelente continuação de um macro-arco de origem iniciado em Marvel Premiere, com Claremont e Byrne sendo muito bem sucedidos em suas respectivas artes em solidificar a vasta mitologia do Punho de Ferro.

estrelas 3,5

Punho de Ferro #8 a #10
(outubro a dezembro de 1976)

No segundo arco, Punho de Ferro já nos é apresentado como alguém que assumiu de vez o manto de super-heróis e protetor de Nova York. Algum tempo se passou desde que ele derrotou Mestre Khan e ele tem usado o tempo para conhecer cada pedaço de sua cidade.

Aqui, o embate é bem mais terreno do que no arco anterior, já que ele luta para derrotar a gangue dos Tigres de Ouro, mas Claremont é sábio ao amarrar essa história com atividades escusas de Ward Meachum, irmão de Harold e tio de Joy. Fica evidente que Joy é apenas um peão em toda a história, mas que seu desejo de matar o herói continua firme em forte, com Davos sempre ao seu lado, mas sem grande destaque.

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Na primeira página, Claremont e Byrne recontam toda a origem do Punho de Ferro em apenas uma imagem. Na segunda, vemos a página predecessora da famosa capa de Dias de Um Futuro Esquecido, também da dupla.

O foco fica mesmo com os Tigres de Ouro e sua tentativa de fincar sua bandeira no submundo da cidade, liderados por Chaka. A vibe, aqui, é de Warriors – Os Selvagens da Noite que, porém, ainda estaria três anos no futuro. De toda forma, a estrutura de gangue lutador de kung-fu somada com mais uma vez o Punho de Ferro sendo acusado de uma assassinato que não cometeu soa batida, mas há momentos artísticos brilhantes, com John Byrne mostrando toda sua forma não só ao criar o protótipo do que seria a famosa capa de Dias de Um Futuro Esquecido, como, também, usando seus fluidos desenhos para cria memoráveis splash pages demonstrando toda a habilidade do herói.

Em outras palavras, há muito mais a observar nesse pequeno arco do que realmente ler, pois a história não tem o poder do arco anterior, ainda que seja bem superior a muita coisa da época. É um momento, light, digamos assim, da histórica dupla Claremont/Byrne.

estrelas 3

Punho de Ferro #11 e #12
(fevereiro e abril de 1977)

O mini-arco seguinte, composto de apenas dois números, começa a afastar-se do cerne da mitologia do herói e a mostrar que a edição solo de Punho de Ferro estava em perigo. Afinal, a edição #11 traz de volta os convidados especiais, no caso Scott Summers e Jean Grey em micro-pontas, algo que só havia sido usado em Punho de Ferro #1. E a tendência continua na edição seguinte, com o herói lutando ao lado do Capitão América. Para quem não conhece quadrinhos, esse é o primeiro sinal de que há algo de errado nas tiragens de uma revista e sinaliza seu cancelamento.

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Na primeira página, uma cinematográfica progressão narrativa de Claremont e Byrne. Na segunda, mais uma fantástica e complexa luta mostrada em apenas um quadro, cortesia de John Byrne.

Aqui, a ameaça é a sempre divertida Gangue da Demolição, grandalhões com nomes como Aríete, Maça, Destruidor e Bate-Estaca e com poderes asgardianos, que surgem do nada, enfrentam o Punho de Ferro, sequestram Misty Knight e forçam o herói a invadir a Mansão dos Vingadores e desabilitar todos os alarmes para que eles possam entrar para matar Thor. No lugar de Danny simplesmente apertar a campainha da mansão, ele tem que entrar de maneira furtiva para tornar tudo mais ameaçador e acabar enfrentando o Capitão América. Não faz sentido, mas é bacana ver a luta entre os dois no lápis de Byrne, mesmo que, por muitas vezes, o diálogo de Claremont – especialmente os balões de pensamento de Danny – acabe atrapalhando o resultado final.

Mas não há dano aqui. Trata-se de um arco para puro  divertimento, sem compromisso. E a mistura de todos os ingredientes acima divertem.

estrelas 3

Punho de Ferro #13 a #15 
(junho a setembro de 1977)

As três edições finais da primeira publicação solo de Punho de Ferro amplificam a sensação de que a revista estava mesmo para acabar. Mesmo com Claremont e Byrne ainda como sua dupla criativa, a queda no interesse dos filmes de artes marciais em Hollywood marcaria o fim dessa vertente da Marvel Comics, que manteria apenas O Mestre do Kung-Fu viva até 1983.

Na edição #13, o vilão principal é o ridículo Bumerangue (porque as editoras principais insistem em vilões que usam bumerangues como únicas armas?), mas Davos, o Serpente de Aço atua nas sombras, sempre aproveitando-se de oportunidades para minar o Punho de Ferro. A história tem passo rápido e funciona, ainda que seja completamente esquecível.

Mas isso não acontece na edição seguinte (#14), já que é nela que Dentes de Sabre, célebre vilão de Wolverine e dos X-Men, aparece efetivamente pela primeira vez. Trata-se de uma história substancialmente longe da mitologia principal do herói, mas ela é irresistível não só pela presença do vilão, como por ela também servir de ótima desculpa para John Byrne usar seus “poderes artísticos” para tirar o máximo das sequências de ação entre ele e Punho de Ferro. Técnica versus ferocidade em um trabalho muito bom.

E o Punho de Ferro, em seu derradeiro número (#15), tem um crossover com os próprios X-Men, depois que entra no apartamento de Misty Knight e encontra Wolverine também lá. Claro que os dois saem na pancada – isso é obrigatório com heróis que se encontram pela primeira vez, não é mesmo! – e os demais mutantes também entram na história, que ainda conta com Davos mais uma vez atacando sorrateiramente o herói.

No entanto, a subtrama de Davos é deixada em aberto e só termina em outra publicação. Mas isso é outra história.

Punho de Ferro #1 a #15 (Iron Fist #1-15, EUA – 1975/77)
Roteiro: Chris Claremont
Arte: John Byrne
Arte-final: Al McWilliams (#1), Frank Chiaramonte (#2 a #7)
Cores: Janice Cohen (#1, #3), Michele Wolfman (#2), Don Warfield (#4), Phil Rache (#5), Karen Mantlo (#6), Bonnie Wilford (#7)
Letras: Dave Hunt (#1, #3), Joe Rosen (#2, #5, #7), John Costanza (#4), Karen Mantlo (#6)
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 1975 a setembro de 1977
Páginas: 20 por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.