Crítica | Punho de Ferro – 1ª Temporada

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estrelas 2

Obs 1: Tentamos evitar, mas pode ser que alguns considerem alguns trechos como spoilers. Portanto, cuidado.

Obs 2: Leiam, aqui, nosso Entenda Melhor com todas as referências e easter-eggs da série.

Não é de hoje que a Netflix se tornou sinônimo de qualidade quando se trata de suas séries. Por mais que existam algumas maçãs podres na cesta, o canal de streaming nos trouxe as impecáveis House of CardsOrange is the New Black, além, é claro, das ótimas Stranger ThingsSense8. Os seriados da Marvel, produzidos pelo canal, também nos deixaram mal-acostumados, afinal, as duas temporadas de Demolidor e mesmo o hesitante Jessica Jones e o controverso Luke Cage conseguiram nos entregar boas histórias, cada uma com seus altos e baixos, porém, com as qualidades se sobressaindo. Mas ninguém é perfeito e todos que alcançam o topo, eventualmente, caem ou, ao menos, tropeçam. Punho de Ferro é esse tropeço da Netflix.

A trama, baseada nos quadrinhos do personagem homônimo, gira em torno de Danny Rand (Finn Jones), um jovem que acabara de retornar à Nova York, após passar quinze anos em um lugar chamado K’un-Lun, onde aprendera artes marciais e se tornara o lendário Punho de Ferro, o guerreiro inimigo declarado do Tentáculo, que deve proteger aquele lugar místico de invasores. Rand, porém, é, também, acionista majoritário de uma das maiores corporações da cidade americana, com bilhões atrelados a seu nome. Sua aparência, contudo, não condiz com seu suposto status, visto que ele está descalço, sujo, com uma longa barba e roupas acabadas. Sem ter como provar sua identidade, ninguém acredita que ele é quem diz ser especialmente considerando que a família Rand fora acreditada como morta em um acidente de avião há quinze anos.

Com um ritmo arrastado, a série foca seus três primeiros episódios nessa tarefa de Rand em ter de provar sua identidade, algo que não afeta em absolutamente nada os capítulos posteriores e que poderia ter sido resolvida brevemente se o protagonista não fosse tratado como estúpido pelo roteiro e começasse a dizer coisas óbvias, que Joy (Jessica Stroup) e Ward Meachum (Tom Pelphrey), seus amigos de infância e diretores das empresas Rand, identificariam de imediato. Ao invés disso, Danny se porta como maluco, nos fazendo sentir apenas raiva do personagem, por não seguir um caminho que está diante de seus olhos. Se ao menos o roteiro houvesse criado em nós a dúvida sobre a identidade do protagonista, todo esse extenso prólogo seria mais engajante, mas nem isso acontece.

Das grandes enrolações que ocorrem em Punho de Ferro, porém, nenhuma delas é tão grande quanto o foco nos irmãos Meachum tentando levar adiante a empresa após o ressurgimento de Danny. Todo esse lado corporativo do seriado soa como um gigantesco filler, como se não soubessem o que colocar nos treze capítulos que compõem a série. É evidente que a intenção era a de construir a personalidade desses dois personagens, mas tudo soa tão desconexo da trama principal, que, no fim, tem seu valor narrativo reduzido a quase zero, podendo ser facilmente substituído por outra forma de trabalhar com os Meachum, que não envolvesse garantir a eles (em conjunto) tanto tempo em tela quanto o próprio protagonista.

O único fator capaz de melhorar minimamente esse enfoque desnecessário é Harold (David Wenham), o pai dos dois, que nos proporciona alguns trechos verdadeiramente angustiante, especialmente quando em cena com Ward, a quem controla por trás dos panos. Sua figura, porém, é tão explicitadamente vilanesca que se torna irreal, uma crítica exagerada ao corporativismo, ao empresário que vende sua alma pelo negócio – não há realismo algum em Harold, certamente um dos personagens mais desperdiçados do seriado, cuja loucura crescente jamais é explorada a fundo. Para complicar tudo ainda mais, ele se estabelece como um vilão extra nos momentos finais, criando a sensação de que estamos meramente vendo um epílogo, uma gigantesca ruptura no ritmo já problemático da série.

Viremos, agora, nosso olhar para a trama principal e protagonista de Punho de Ferro. A guerra contra o Tentáculo (The Hand no original) se baseia mais em uma missão ligada à figura mística do Punho de Ferro do que a Danny Rand em si – sua necessidade de combater a organização criminosa parece ser justificada simplesmente por um “porque é o meu dever” do que um motivo inerente à história pessoal do personagem. Se pegarmos um exemplo próximo, o Demolidor, por exemplo, tudo escala para que ele se sinta incumbido de acabar com o Rei do Crime, existem inúmeros passos antes de chegarmos a isso. Rand, por sua vez, simplesmente diz que ele é o inimigo declarado do Tentáculo e pronto. Existe, é claro, o fato da organização estar usando a sua empresa para vender drogas, mas isso soa mais como desculpa do que motivação de fato, visto que o protagonista tem surtos só de ouvir o nome desses vilões.

Já que entramos nessa questão, a personalidade de Danny e todo seu modus operandi é algo que simplesmente devemos aceitar. Estamos falando de uma história de origem que não aparece em tela, o personagem somente diz como foi treinado e breves flashes nos obrigam a aceitar suas palavras. Toda sua jornada em K’un Lun não é mostrada em momento algum e o vínculo entre espectador e protagonista custa a aparecer. Tudo piora com os ataques repentinos sofridos pelo personagem, que evidentemente não conta com controle algum de suas emoções (por mais que tente fazer parecer o contrário), dando verdadeiros “chiliques” com qualquer menção a seus pais, que aparecem morrendo mais vezes do que gostaríamos de ver, a tal ponto que qualquer empatia por Danny parece mais forçada em nossas goelas do que efetivamente construída. Não ajuda, é claro, o fato de Finn Jones estar praticamente com a mesma cara durante toda a série, alternando unicamente entre o olhar “de combate” e o de inocente.

Felizmente, Jessica Henwick e Rosario Dawson, como  Colleen Wing e Claire Temple, respectivamente, salvam o dia contracenando constantemente com o personagem principal. Chega a ser irônico enxergar que ambas passam por um arco dramático mais expressivo que o próprio protagonista, já que Rand começa como um homem tentando ser o Punho de Ferro e termina ainda não sendo o Punho de Ferro (algo gritante, considerando o título do seriado). Temple, recorrente nas séries da Marvel produzidas pela Netflix, conta com uma participação tão grande quanto a sua em Luke Cage e suas ações soarão um tanto forçadas para quem não assistiu os outros seriados, mas nada tão gritante. Colleen, por sua vez,  consegue engajar o espectador não somente pela sua história pessoal, como pela interpretação de Henwick, que realmente dá o máximo de si, principalmente nas sequências de ação.

Aqui entramos em outro aspecto bastante problemático da série. Veja, estamos falando de uma obra sobre um lutador de artes marciais, portanto era de se esperar que o seriado, por mais que seja baseado em quadrinhos, honrasse toda a história cinematográfica de filmes de kung-fu e, de fato, Punho de Ferro chega a homenagear mais de uma vez o gênero, com uma referência mais que evidente a Operação Dragão. Porém, as cenas de ação em si jamais chegam a nos surpreender, contando com coreografias preguiçosas aliadas a um irritante trabalho de direção, que quase sempre divide as ações em dois planos seguidos, evidentemente a fim de facilitar as filmagens, não pedindo muito dos atores e dublês. Inúmeras vezes não entendemos absolutamente nada do que acontece nesses momentos, fator que atinge seu máximo em uma luta em um corredor com luzes piscantes, que tornam evidente a falta de coreografias do seriado.

A montagem também não ajuda quando cria elipses repentinas ou quebra a continuidade de inúmeros trechos, indo do simples ator em postura diferente até o mais gritante teletransporte de personagens, especialmente madame Gao (Wai Ching Ho), que parece contar com supervelocidade quando não está em tela. Outros erros também ocorrem, como coadjuvantes desaparecendo do cenário sem nenhuma razão aparente. Mas aqui entramos em um território conjunto do roteiro, direção e montagem e a quebra de realismo na série se torna mais evidente nas empresas Rand, cujos funcionários desaparecem convenientemente de uma hora para a outra em inúmeras ocasiões.

As conveniências do roteiro não param por aí, com a mais surreal delas sendo um morador de rua que aparece do nada no primeiro capítulo oferecendo o celular que achara para que Danny realizasse uma pesquisa, sem ele nem mesmo pedir! O texto continua pedindo demais de nossa suspensão de descrença através de diálogos mal-escritos, exageradamente dramáticos e irreais, chegando ao ponto de uma personagem gritar para Danny pedindo que a destrua – convenhamos, ninguém em sã consciência fala que quer ser destruído, bastava dizer “me mate”.

Punho de Ferro no fim, acaba sendo uma grande bagunça, com poucos momentos que se salvam. Com um protagonista que jamais é construído, subtramas desnecessárias que perduram por toda a temporada, péssima direção (em geral, já que estamos falando de inúmeros diretores), roteiro repleto de conveniências e uma montagem que parece não se preocupar em nada com a continuidade, a série definitivamente se configura como um banho de água fria para aqueles que esperavam algo na qualidade das outras produções da Netflix. Esperamos que isso não seja uma prova de o quanto mais se faz, menos se preocupa com a qualidade, já que ainda teremos muitas séries da Marvel pela frente no canal de streaming. A torcida é para que Punho de Ferro realmente seja apenas um tropeço e não uma queda.

Punho de Ferro – 1ª Temporada (Iron Fist) — EUA, 2017
Direção:
 John Dahl, Farren Blackburn, Uta Briesewitz, Deborah Chow, Andy Goddard, Peter Hoar, RZA, Miguel Sapochnik, Tom Shankland, Stephen Surjik, Kevin Tancharoen, Jet Wilkinson
Roteiro: Scott Buck, Scott Reynolds, Gil Kane, Roy Thomas, Dwain Worrell, Ian Stokes, Quinton Peeples
Elenco: Finn Jones, Jessica Henwick, Jessica Stroup, Tom Pelphrey, Barrett Doss, David Wenham, Clifton Davis, Rosario Dawson, Ramon Fernandez, Wai Ching Ho, Carrie-Anne Moss
Duração: 13 episódios de aprox. 55 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.