Crítica | Punho de Ferro – 2ª Temporada

“Eu sou o Imortal Punho de Ferro.”

Quando saboreamos, não muito tempo antes, o péssimo gosto de uma temporada que não soube fazer jus ao legado de um personagem querido, certamente ficamos descrentes frente a uma vindoura segunda tentativa, com mais aparência de repeteco do que qualquer outra coisa. A iniciativa de diminuir a quantidade de episódios, de treze para dez, porém, é um suspiro mais que necessário para qualquer espectador, ousado o suficiente para dar uma nova oportunidade às desventuras de Danny Rand (Finn Jones) pelas ruas de Nova Iorque. A série, mesmo assim, trabalha com vários contrastes. A quantidade de episódios, no final das contas, parece não surtir muito efeito em relação a narrativa da história, extremamente devagar. A questão é que a primeira temporada permitiu, por meio de ganchos, os roteiristas da segunda continuarem com a história do exato momento em que ela havia parado, com Os Defensores sendo uma adição mediana para o caminho de um ponto para o outro. Davos (Sacha Dhawan) e Joy Meachum (Jessica Stroup) são os antagonistas da retomada de Punho de Ferro. Ambos querem vingança contra Danny Rand e estão prontos para, em uma aliança tenebrosa, destruir o Imortal Punho de Ferro e reconstrui-lo em direção a um horizonte diferente. A segunda temporada da série parece mais uma obrigação da Netflix do que um verdadeiro recomeço, mas o destino e a própria jornada não são tão ruins quanto parecem.

Sem muitos caminhos para percorrer, tendo que lidar com o fardo da temporada anterior, Revin Metzner, o novo showrunner, consegue alcançar mais sucesso nas decisões que toma em relação a série do que Scott Buck conseguiu. A questão maior é que, apesar disso, os obstáculos do passado impedem um progresso maior do coordenador, com particularidades diferenciadas, mas ainda falhas, enquanto outras características são capazes de diferenciá-lo do péssimo trabalhado conduzido pelo seu antecessor, mesmo sem superá-lo definitivamente. Os antagonistas, em certo ponto de vista, dominam dois universos diferentes, sendo que Davos e Joy parecem não se conciliar perfeitamente, ainda mais tendo em vista que a presença de Meachum chama a atenção de seu irmão, Ward (Tom Pelphrey), bastante perdido no cenário todo. Pela metade da temporada, Joy já se mostra insignificante se comparada com a sua presença dos primeiros episódios. A série parece sofrer, aqui, de uma falta de espirituosidade absurda, sem ser guiada de uma maneira realmente engajante. Os poucos momentos em que isso acontece, provocando o espectador, são nos episódios finais, em relação ao destino do Punho de  Ferro. O destino, aliás, em uma tentativa de conciliar uma temporada bastante dispersa, seria uma temática universal para todos os personagens. Quem éramos, quem somos e quem seremos?

Como Revin Metzner decide dar a todos os seus personagens uma história própria, um pequeno arco sobre destino, nenhum deles está, nessa temporada, sem fazer nada, apesar de existir esse desequilíbrio da balança, em que personagens começam importantes e terminam nem tanto. Porém, o contraste é claro, visto que a quantidade não é uma obrigação de qualidade, ainda mais em relação a como a narrativa se movimenta, apressando e, nessa antítese maravilhosa, deixando tudo mais lento. Algumas boas oportunidades são desperdiçadas, com pontos de plot, potencialmente significativos, os quais foram deixados abertos em um episódio, sendo resolvidos rapidamente no seguinte, para não dizer que, em certa instância, o roteiro força muito a barra para acreditarmos em recuperações milagrosas e treinamentos tão rápidos que o público nem ao menos o sente. As inconsistências também são outras. O uso de flashbacks, se fazem sentido dentro de uma visão geral sobre a relação fraterna entre Danny e Davos, não possuem nenhuma sagacidade para amarrar-se acertadamente com a maneira na qual o espectador a enxerga, sem tornar-se um gatilho emocional para o público. Os melhores momentos realmente são os reservados para os últimos episódios, nos quais a série toma uma guinada bem no estilo de Karatê Kid, com até mesmo direito de piada sobre o que está sendo ensinado a alguns jovens, caratê ou kung fu. O longa-metragem de 2010 manda lembranças.

Enquanto, de um lado, Punho de Ferro novamente mostra não ter garra para movimentar sua história, tesão em ser uma série diferente das outras – a questão da Tríade parece ser algo tirado da série do Demolidor ou do Luke Cage, que faz sentido envolver-se com o Punho de Ferro, mas, depois de tanto tempo, de tantas temporadas, a fórmula desgastou-se -, de outro, os avanços em uma questão crucial da obra, a coreografia das lutas, não coincidem com uma exploração ao máximo de seu potencial. As cenas de ação estão extremamente melhores, contudo, novamente em uma contraposição, se há a sensação de que são poucas o suficiente para a série. Quando acontecem, em outra esfera, existe uma repetição do estilo de filmagem, decente, mas repetitivo sob um olhar completo. Um dos momentos mais interessantes é quando Davos, sozinho, invade um galpão, tomando conta de alguns inimigos de maneira silenciosa e rápida, em uma sequência mais sacana. Mas esse momento dura pouquíssimo, sendo logo substituído. Uma outra justificativa para a história ser tão pouco envolvente é que, em um primeiro momento, as ocasiões soam avulsas demais para os espectadores, como é o caso do passado de Colleen Wing (Jessica Henwick), parceira de Rand no combate. Quando uma linha é traçada com mais clareza, o recurso do mcguffin, uma tigela histórica, é estendido por demasiados episódios.

A grande jornada central sobre destino, enfim, amarra as atitudes de Davos com as crises de consciência de Rand. Como mostrar ao mundo que determinado personagem seu se perdeu sob o manto de um herói se tudo o que o público enxerga é um grande de um chato. Finn Jones estava ótimo em sua participação durante episódio individual da segunda temporada de Luke Cage, porém, aqui, se a atuação do ator não é um grande passo em falso, os rodopios com o personagem definitivamente são. Os roteiristas realmente não querem que a gente goste do protagonista da série. Portanto, o carisma diferencial de Rand com Mary (Alice Eve), nova figura no elenco, pelo menos nos faz nos sentir da mesma maneira que a personagem se sente, fascinada com a gentileza demonstrada. Aliás, se existe algo na temporada que nos faz dar chance a mais alguns episódios, esse algo é a atuação de Eve, em um papel que, por mais cartunesco e sem-vergonha que seja, cai como uma luva para uma série desnecessariamente acovardada, sem se permitir, por exemplo, em mais outro contraste, usar a máscara do Punho de Ferro o tanto quanto deveria. A mesma coisa, em contradição com Rand, não pode ser dito de Colleen, em trabalho simpático e competente de Henwick, passando muito tempo na temporada ao lado de Misty Knight (Simone Missick), que, apesar de estar perdida como indivíduo particular, impulsiona em muito a sua parceira, em dinâmica e química fortíssimas.

Punho de Ferro, nos últimos segundos desta temporada, também mostra um auto-consciência interessantíssima, mas que deve ser, ceticamente, também pensada como uma auto-indulgência. A gigantesca presença de Colleen Wing é percebida pelos responsáveis da série, transformando a personagem em uma co-protagonista. A série, em razão disso, torna-se sobre os dois, como a própria conclusão do último episódio, além das resoluções da trama, satisfatórias e até surpreendentes, comprovam. A temporada mais uma vez falha com o protagonista, porém, isso não é um problema completamente inadmissível dessa vez, pois agora são dois os protagonistas e, ao menos, eles acertaram a mão em um deles. Os grandes momentos de Rand, dessa forma, devem realmente estar reservados para uma possível – e necessária – terceira temporada. A segunda, por sua vez, sendo uma continuação bastante leal a primeira, sem abrir mão de qualquer rastro deixado para trás, encerra as pontas de um passado problemático e, na falta de melhores palavras, chato. A terceira temporada possuirá mais liberdade e, possivelmente, será a quebra das correntes que Punho de Ferro precisava para mostrar uma identidade própria, não meramente funcional, um feito também complicado até o exato momento, mas competente o suficiente para, um dia, também poder ser chamada de imortal.

Punho de Ferro – 2ª Temporada (Iron Fist) — EUA, 2018
Showrunner:
Raven Metzner
Direção: 
David Dobkin, Rachel Talalay, Toa Fraser, MJ Bassett, Mairzee Almas, Philip John, Stephen Surjik, Julian Holmes, Sanford Bookstaver, Jonas Pate
Roteiro: Raven Metzner, Jon Worley, Tatiana Suarez-Pico, Jenny Lynn, Declan de Barra, Matthew White, Rebecca Dameron, Melissa Glenn, Daniel Shattuck
Elenco: Finn Jones, Jessica Henwick, Jessica Stroup, Tom Pelphrey, Sacha Dhawan, Simone Missick, Alice Eve
Duração: 10 episódios de aprox. 55 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.