Crítica | Punho de Ferro: A Arma Viva – Vols. 1 e 2 (#1 a #12 – 2014/15)

estrelas 3

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Punho de Ferro sempre foi um de meus guilty pleasures dos quadrinhos Marvel. Leio histórias com o personagem desde os tempos do (terrível) formatinho da Editora Abril, quando ele lutava normalmente junto ao lado de Luke Cage pelas ruas de Nova York e pouco ou nada tinha o lado místico da cidade de K’un L’un desenvolvido de verdade na narrativa. Era pancadaria do começo ao fim, com direito a convocações de “punhos de ferro” uma ou duas vezes por edição e aquele pavoroso (mas lindo!) uniforme verde e amarelo, com peito de fora e tatuagem de dragão, além das sapatilhas (e o uniforme de Cage não ficava muito atrás…).

punho_de_ferro_a_arma_viva_capa_1_plano_criticoAs histórias do personagem setentista só realmente chegaram ao ponto de serem chamadas de memoráveis quando Ed Brubaker e Matt Fraction embarcaram no projeto O Imortal Punho de Ferro em 2006, que continuou mesmo quando eles saíram no 14º número, chegando ao 27º, em 2009, sem contar com os especiais e spin-offs. Foi uma curta, mas excelente fase em que, sem fazer um reboot, o personagem foi virado de dentro para fora e chacoalhado dos pés à cabeça, efetivamente alcançando todo seu potencial escondido.

Mesmo assim, porém, o herói nunca teve grande destaque no Universo Marvel. Sua presença sempre foi constante (ele até já tomou o lugar do Demolidor!), mas sem grandes arroubos de criatividade que não seja o curto período acima. Com isso, então, chegamos à Nova Marvel e a Punho de Ferro: A Arma Viva.

Depois de O Imortal Punho de Ferro, este é o primeiro projeto solo com o herói e um esforço hercúleo de Kaare Kyle Andrews (ou só Kaare Andrews), já que o canadense assina o texto e faz toda a arte, incluindo as cores e as capas, algo cada vez mais raro de se ver neste meio. O resultado é uma maxissérie de 12 números que, porém, nasceu como uma série mensal normal, mas que acabou sendo cancelada com a chegada da nova saga Guerras Secretas. Mas calma, pois a Marvel deve ter comunicado o cancelamento antes ao autor, que, então, teve a oportunidade de encerrar seu arco narrativo ou pelo menos ele tentou (mas estou me adiantando aqui).

Composto de duas partes, cada uma de seis números, com a primeira intitulada Fúria e a segunda Redenção, vemos uma história que pega muito emprestado do trabalho inicial de Brubaker e Fraction com o personagem, em que sua origem e o lado fortemente místico da cidade de K’un L’un têm importância vital. Na verdade, em Fúria Andrews revisita a trágica origem de Daniel Rand como Punho de Ferro em belíssimos e detalhados flashbacks que nos contam minúcias da obsessão de Wendell Rand em achar a cidade perdida que só aparece no plano terrestre uma vez a cada 10 anos.

O cuidado e a dedicação do escritor e desenhista fica logo evidente com seu respeito pelo material original, trabalhando cada aspecto da expedição da família Rand com Harold Meachum (sócio de Wendell) com reverência e adicionando pequenos elementos que servem para amplificar a história sem de forma alguma desvirtuá-la. No presente, a ação vai em ritmo alucinante, com Daniel e seu novo caso, a repórter Brenda, sendo atacados por um exército de ninjas desmortos, com direito a uma demonstração de todo o potencial destrutivo do herói, que acaba, então, sendo convocado para K’un L’un quando Pei, uma jovem monge, finalmente chega. Ao retornar para a cidade que o acolheu quando pequeno, ele vê tudo em chamas pelas mãos de um novo (ou será que não é tão novo assim?) inimigo.

O objetivo de Andrews é tirar tudo de Daniel Rand e reconstruí-lo. É a famosa narrativa do tipo “queda e ascensão” que não permite muito espaço para surpresas, ainda que o autor saiba efetivamente “quebrar” o personagem, retirando inclusive seu “punho de ferro” em um momento muito interessante e dolorido. Assim, o arco Redenção, como o nome diz, serve para trazê-lo de volta das cinzas, o que envolve um período de convalescença em uma caverna, um reencontro com Pardal e os ensinamentos do misterioso To-Lô, uma versão de K’un L’un do Yoda.

Paralelamente, Davos está em Nova York atrás de Pei e cabe à Brenda impedir que a menina e sua preciosa carga sejam capturadas ou mortas. E aí está o primeiro problema do trabalho de Andrews: é difícil acreditar que Brenda tem a coragem e as habilidades que tem. Ela, no começo, parece uma personagem qualquer na vida de Rand que vai ganhando mais proeminência até tornar-se, literalmente, protetora de Pei em demonstrações pouco críveis de “poder”. A grande questão é que o autor não parece ter tido o tempo necessário para desenvolvê-la e, ao fechar o segundo arco, a correria que ele imprime à história, com revelações “surpresa” atrás de revelações “surpresa”, parecem estranhas e jogadas ali somente para dar a tudo que vimos antes algum sentido minimamente razoável. Infelizmente, porém, “minimamente” é a palavra-chave aqui, pois Brenda acaba se tornando ainda menos crível que no começo.

Falando em fechamento do segundo arco, depois do belo desenvolvimento da história em Fúria, Andrews mete os pés pelas mãos na segunda metade de Redenção, exagerando no escopo e no fator “ameaça aleatória”. Chega a ser um tanto ridículo o que acontece ao final – especialmente um determinado “momento Transformers” – destoando fortemente de toda a estrutura que vinha sendo montada até então. É muito possível que esse descompasso de que a história é vítima seja resultado do cancelamento, mas a impressão que dá é que Andrews abocanhou mais do que podia comer, regurgitando um pastiche de Punho de Ferro que chega a dar pena.

punho_de_ferro_a_arma_viva_capa_2_plano_criticoNo entanto, mesmo considerando os sérios problemas do segundo arco, a narrativa completa é um deleite visual. Andrews desenha corpos em luta de maneira impressionante e cria sua própria versão do “punho de ferro” que põe a maioria das anteriores no chinelo. Há gigantescos exageros contorcionistas e habilidades dadas a Daniel que talvez não combinem exatamente com sua formação em kung-fu, mas essas liberdades já são plenamente esperadas e fáceis de aceitar. Os flashbacks, que o artista colore em tons bem diferentes da história no presente, ganham um efeito de “papel amassado” ao fundo que empresta um certo grau de veracidade ao que vemos desenrolar à nossa frente e deixa claro o detalhismo e a originalidade do trabalho.

Talvez pela mesma questão da pressa em encerrar a história, o segundo arco ganha um lápis gradativamente mais caricato que não atrapalha muito até o clímax, pois, ali, nada que Andrews desenhasse funcionaria mesmo, mas a arte, já um tanto perdida, acaba servindo como a cereja no bolo – no caso, a pá de cal – que termina de destruir Redenção. Uma  pena, pois o trabalho artístico até esse momento é fenomenal.

Punho de Ferro: A Arma Viva tinha enorme potencial para ser uma história memorável do Punho de Ferro. O primeiro arco, Fúria, mostra uma promessa invejável que, porém, não é nem de longe cumprida em Redenção. Ainda é um material acima da média e uma leitura divertida, mas, infelizmente, não muito mais do que isso. Fica a esperança de a Marvel retomar o personagem logo, sem deixá-lo no limbo criativo por muito tempo.

Punho de Ferro: A Arma Viva (Punho de Ferro: The Living Weapon, EUA – 2014/5)
Contendo: Punho de Ferro: A Arma Viva #1 a #12
Roteiro: Kaare Kyle Andrews
Arte: Kaare Kyle Andrews
Cores: Kaare Kyle Andrews
Letras: VC’s Joe Caramagna
Capas: Kaare Kyle Andrews
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: de abril de 2014 a maio de 2015
Editora no Brasil: Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: outubro de 2015 (vol. 1 encadernado) e janeiro de 2016 (vol. 2 encadernado)
Páginas: 264

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.