Crítica | Punho de Ferro (Minissérie – 1996)

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Os anos 90 foram como uma epidemia quase mortal para os quadrinhos de super-heróis, epidemia essa que, dizem, começou lá no quartel-general da primeira encarnação da Image Comics, hoje uma das melhores editoras por aí. Afinal, basicamente todas as publicações daquela década parecem ter o exagero como traço comum. Exagero nos desenhos, exagero das (des)proporções corporais, exagero nos detalhes sem sentido, exagero nas reformulações, exagero em logotipos novos, exagero em basicamente a totalidade do que chegava ao leitor, que era bombardeado por atrocidades sem fim que para sempre deixariam sua marca em quem viveu a época.

No lado dos heróis urbanos da Marvel não foi diferente. O Demolidor ganhou uma armadura (afinal, todo herói, do nada, passou a precisar de armaduras nos anos 90) e um novo esquema de cores, Luke Cage trocou a roupa espalhafatosa amarela por algo pior ainda, além de Nova York por Chicago em sua primeira publicação solo desde o cancelamento de Luke Cage e Punho de Ferro, em 1986 e Punho de Ferro, claro, não poderia ficar de fora. Também longe das publicações solo (ou em dupla) desde 1986, que acabou com sua morte, somente para ser “ressuscitado” em Namor #21 a 25 (dezembro de 1991 a abril de 1992), o herói apareceu com alguma constância nos anos seguintes em Marvel Comics Presents e algumas participações em títulos de outros heróis aqui e ali.

A efetiva tentativa de se reerguer o interesse pelo herói e iniciar uma nova publicação solo veio com uma minissérie em (misericordiosamente) apenas duas edições, publicadas ao final de 1996. O roteiro ficou ao encargo de James Felder, com o lápis de Robert Brown sendo tratado pela arte-final de Rey Garcia em uma trinca criativa das menos inspiradas que já tive o desprazer de ver.

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Olha o exagero dessas capas. E isso nem arranha a superfície do que está lá dentro!

A história é praticamente a mesma que Chris Claremont e John Byrne haviam escrito e desenhado ao final do grande arco de origem do Punho de Ferro, em Marvel Team-Up #63 e 64: Davos, o Serpente de Aço tenta mais uma vez roubar o “punho de ferro” do herói, por achar-se o herdeiro natural do poder que Danny teria usurpado. Mas, para todos os efeitos, o vilão havia morrido ao final do primeiro encontro dos dois, o que, obviamente, nunca foi impedimento para nada na Marvel ou na DC. Descobrimos que ele, na verdade, fora transferido para dentro da joia da anomalia (onde residem as almas de todos os Punhos de Ferro anteriores) que Danny, no começo da publicação, está tentando reconstruir para fazer com que seu “punho de ferro” volte ao nível de poder de outras eras. Quando ele finalmente consegue, depois de um embate nevado no Himalaia, o Serpente de Aço se materializa e a pancadaria recomeça. A partir daí, é o padrão básico: o chi de Danny é roubado, ele fica deprimido, volta à ganhar confiança em si com a interferência de Misty Knight e Colleen Wing (que aparecem do nada), além de Lei Kung, desafia Davos e, claro, recupera o poder. Chega a dar vontade de bocejar…

Só não dá mesmo para dormir lendo essa história, pois a arte de Robert Brown é o equivalente a enfiar o dedo em uma tomada de 220 volts. Tudo é uma grande ode ao descomedimento. No melhor estilo “liefeldiano”, as musculaturas são impossíveis, os membros – pernas e braços – se contorcem e aumentam como se todos os personagens fossem variações do Senhor Fantástico e os rostos são homogêneos e praticamente idênticos, seja o de Danny, seja o de Misty Knight. É como entrar em uma montanha-russa ruim e enjoativa ao ponto de ser até difícil ler os balões de texto de Felder e não por culpa do letrista Jack Morelli, mas sim pela poluição visual absurda cortesia de Brown e do arte-finalista Rey Garcia que ainda decoram as laterais de algumas páginas com motivos orientais que se relacionam com a mitologia do herói.

No final das contas, talvez com exceção da ressurreição canônica do Serpente de Aço, essa minissérie é absolutamente imprestável. A não ser que o leitor queira aprender exatamente como não fazer uma HQ ou tenha alguma tendência ao auto-flagelo. Ainda bem que o Punho de Ferro continuaria enterrado por mais algum tempo, mesmo considerando que esta tenha sido apenas a primeira tentativa de retirá-lo do marasmo nos epidêmicos anos 90.

Punho de Ferro (Iron Fist, EUA – 1996)
Contendo: Punho de Ferro (1996) #1 e #2
Roteiro: James Felder
Arte: Robert Brown
Arte-final: Rey Garcia
Cores: Mike Thomas
Letras: Jack Morelli
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro e outubro de 1996

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.