Crítica | Punho de Ferro: O Retorno de K’un Lun (2000)

estrelas 1,5

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A virada do milênio trouxe mais uma minissérie do Punho de Ferro que, desta vez, nos títulos originais das quatro publicações mensais, dividia os holofotes com Wolverine. O encadernado lançado posteriormente, porém, foi mais honesto ao usar apenas o nome do campeão de K’un Lun seguido do subtítulo da obra, que lidava com o tal “retorno” da Cidade Sagrada. Digo mais honesto, pois, ainda que Wolverine realmente seja o principal coadjuvante, há vários outros – Capitão América, Homem de Ferro, Psylocke, Luke Cage, Misty Knight e Solaris – em uma história que, porém, é essencialmente do Punho de Ferro mesmo.

A premissa mais uma vez apresenta Danny Rand sem os poderes do “punho de ferro”, que haviam sido roubados pelo adolescente Junzo Muto com a ajuda de seu mestre Hiromitsu. Muto, ato contínuo, torna-se o líder do Tentáculo, clã de ninjas responsável pelo treinamento de Elektra e que está sempre nas sombras, em um plano para trazer K’un Lun em definitivo de sua dimensão para a Terra, substituindo Tóquio, de forma que ela sirva de trampolim para seus planos de dominação mundial. No entanto, como Rand havia antes conectado a aparição de K’un Lun a seus batimentos cardíacos (sim, isso mesmo, nem tente entender…), Junzo Muto envia ninjas a Nova York para sequestrar Misty Knight de forma que Rand seja obrigado a ir até o Japão, onde por acaso se encontra com Wolverine. No entanto, sua chegada lá precipita a aparição de uma gigantesca e intransponível muralha que cerca Tóquio e começa a fazer K’un Lun aparecer e aos poucos “apagando” a capital japonesa da existência, além de separar os dois heróis, com Danny lá dentro e Wolverine do lado de fora tendo que se juntar ao Capitão América, S.H.I.E.L.D. e os já citados heróis que tentam reverter a situação.

Ainda que a história seja ambiciosa demais e muito mal executada, exigindo muito da suspensão da descrença do leitor (afinal, não seria mais fácil trazer K’un Lun para um local desabitado da Terra, com os mesmos propósitos nefastos?), pelo menos a minissérie não fica restrita apenas ao Punho de Ferro, já que uma crise de proporções globais de tipo tinha que atrair no mínimo o herói japonês Solaris. Por outro lado, a quantidade de personagens super-poderosos chega a atrapalhar a progressão narrativa, com passagens especialmente do lado de fora do muro completamente desnecessárias, especialmente o esquentado (com trocadilho) Solaris atacando os heróis por achar que tudo é culpa de Danny Rand e que, por isso, não quer mais “heróis americanos” por ali. Além disso, Jay Faerber perde muito tempo com pretensos preparativos especiais da S.H.I.E.L.D. em uma base secreta que de secreta não tem nada e acaba que tudo se resumo a tentar de alguma forma atravessar a muralha, algo ridiculamente óbvio desde o começo.

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Mas mais ridículo ainda é Junzo Muto. O fedelho super-poderoso compete fortemente ao título de personagem mais insuportável da Marvel Comics. Criado como antagonista dos Novos Guerreiros no ano 2000 e tendo lá mesmo absorvido os poderes de Danny Rand, o sujeito é invencível e falastrão, mas nunca, em momento algum, consegue convencer minimamente como o líder do Tentáculo, que costumava ser uma entidade tão série e sombria. Suas bravatas irritam mais do que desenvolvem a história e sua presença contamina a minissérie por completo, jamais parecendo mais do que um personagem raso, mal construído e incrivelmente chato.

Ao mesmo tempo tentando tornar essa história cheia de absurdos mais palatável e afastando leitores que esperam algo minimamente sério ao verem o Punho de Ferro e Wolverine na capa, Faerber dá uma pegada cômica à história. Aliás, cômica só não. Infanto-juvenil. O Retorno de K’un Lun parece uma daquelas minisséries feitas para leitores bem jovens, que estejam começando a ler quadrinhos. Wolverine é uma flor de pessoa. Danny Rand é um bobalhão que só fica se lamentando por Misty e por não ter mais seus poderes – além de ver o inexplicável fantasma de sua mãe – e todos os demais heróis são meras sombras do que efetivamente são em suas publicações solo. Não há nada intrinsecamente errado com essa escolha narrativa, mas, ao trair a essência dos personagens, Faerber afasta o leitor com mais experiência e ao mesmo tempo engana aquele que está começando.

E essa abordagem infanto-juvenil não é exclusiva do roteirista, infelizmente. A arte de Jamal Igle converte todos os heróis – incluindo os veteranos Steve Rogers, Logan e Tony Stark – em adolescentes e, pior ainda, em um estilo que faz com que eles pareçam aquelas bonecas de porcelana da coleção da vovó sabe? A finalização de Rich Perrotta amplia ainda mais essa sensação, retirando quaisquer sutilezas da arte, algo que as cores digitais espalhafatosas terminam de enterrar de vez. É como se uma criança tivesse pintado os quadros todos só com lápis de cera bem brilhante.

O Retorno de K’un Lun é mais uma minissérie fraca do Punho de Ferro, a terceira consecutiva em sua “carreira solo” editorial. Parece que escrever algo sobre um herói que tem um passado tão rico era difícil demais ou, talvez, que a Marvel não tinha nenhuma confiança no personagem, relegando-o a times criativos de segunda linha. Potencial mais do que desperdiçado, como o futuro viria provar.

Punho de Ferro: O Retorno de K’un Lun (Iron Fist: The Return of K’un Lun, EUA – 2000/2001)
Contendo: Punho de Ferro/Wolverine: O Retorno de K’un Lun (2000) #1 a #4
Roteiro: Jay Faerber
Arte: Jamal Igle
Arte-final: Rich Perrotta
Cores: Liquid!
Letras: Troy Peteri
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2000 a fevereiro de 2001
Páginas: 88 aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.