Crítica | Punição Para a Inocência (2018)

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Punição Para a Inocência, livro de Agatha Christie lançado em 1958, é uma obra, acima de tudo, sobre as questões morais e éticas envolvendo o exercício da justiça, a sensação comunal de justiça e o papel e/ou sentimento dos inocentes que de alguma forma circundam o culpado. Antes desta versão da BBC, em parceria com a Amazon, a Agatha Christie Productions e a Mammoth, houveram duas outras adaptações para o livro, uma no cinema, em 1984, com Donald Sutherland, Faye Dunaway e Christopher Plummer no elenco; e outra para a TV, em 2007, como parte da série Agatha Christie’s Marple, em sua terceira temporada. Uma das muitas queixas (inclusive minhas, nesta crítica) feitas à versão de 2007, dava conta das mudanças dos personagens e dos eventos que eram a essência do livro. Mas se o texto de Stewart Harcourt pecava por retirar do original aquilo que lhe formava a alma, esta versão de 2018 simplesmente termina de fazer o serviço, despedaçando por completo a obra de Agatha Christie.

Visualmente falando, temos um trabalho muito interessante, a única coisa realmente boa desta adaptação — em termos gerais, porque existem erros de montagem e direção imperdoáveis aqui, sobre os quais falarei adiante –, mostrando a mansão dos Argyll (no livro o sobrenome é Argyle) em toda a sua glória, numa fotografia belamente saturada, deixando intensos os verdes do jardim e as diferentes cores para cada cômodo ou setor da casa, servindo de composição dramática. Encontramos esses espaços com destaques de vermelho/marrom, amarelo/bege, azul, verde… e em cada um deles, acompanhamos uma sequência importante, baseada na atmosfera sugerida pela paleta de cores. É o único momento, nos três episódios, que existe uma interação aplaudível entre enredo e composição visual. Todo o restante parece ter sido feito para irritar profundamente o espectador.

Quando falamos de adaptação de uma obra literária para o cinema (ou de uma mídia para outra, não importa quais), o que devemos identificar e cobrar é a manutenção da essência do original. Se isto for mantido, fatos, ações individuais e destinos podem ser mudados, assim como personagens podem ser adicionados ou retirados da narrativa. Não há mal nenhum nisso. Adaptação não é transliteração. No entanto, o produto perde toda a consideração que poderia ter, quando retira a essência do original para, apenas assumindo um caminho narrativo, reler a história fazendo atualizações que desfiguram por completo o material de origem. Se na versão de 2007 já era difícil identificar ou mesmo suportar alguns personagens, tamanhas foram as mudanças de comportamento e construção dramática para eles, nesta obra escrita por Sarah Phelps a situação é ainda pior. É compreensível que adaptações venham com “pequenas histórias” para dar suporte a uma ou outra ação de um indivíduo, mesmo não tendo indícios disso nos livros. Mas aqui, essa “pequenas histórias” pioram o que já está ruim.

Como já levantei, se tais mudanças ou acréscimos não descaracterizam a obra, não há nenhum problema que sejam feitas. Agora peguemos o caso deste Ordeal by Innocence dirigido por Sandra Goldbacher. Nada do que ela nos apresenta tem o mínimo de caracterização ou essência da obra original. Seus únicos acertos como diretora estão nos já elogiados planos de contexto para o ambiente — o elemento de “ação” da minissérie é realmente bem dirigido — e na exposição de Jack (Anthony Boyle), o único personagem que recebe um bom tratamento, contando com uma excelente interpretação de Boyle para o perverso rapaz. Infelizmente, porém, o terceiro capítulo tira dele aquilo que o livro inteiro se baseou para marcar território em uma discussão ético-moral. Sem esse elemento, coube à roteirista levar adiante sua auto-indulgência e explorar os sentimentos através de uma quase novela mexicana ao longo de todo o terceiro episódio, cabendo até uma reescrita do final, que da revelação de quem é o culpado até o destino que lhe é dado, nos envergonha e encoleriza.

A despeito das notáveis atuações de Bill Nighy (Leo), Matthew Goode (Philip) e principalmente de Anna Chancellor (Rachel) a forma como o roteiro desenvolve esses personagens faz com que a gente perca o interesse por eles, prejudicando nossa visão do trabalho dos atores e atrizes. Mas talvez o caso mais infame seja o que envolve Luke Treadaway, que faz um aplaudível esforço para criar um bom Dr. Arthur Calgary, mas aquilo que o roteiro lhe dá para trabalhar é algo que o público não consegue digerir. Não é palatável, não se encaixa nessa situação de crime e nesse tipo de drama (embora pertença, historicamente, a este ambiente), o que o deixa como um estorvo o tempo inteiro, mesmo com uma grande interpretação do ator.

Infelizmente, mais uma adaptação da obra de Agatha Christie que sai pior que a encomenda. Se a olharmos por um ângulo puramente dramático, será possível gostar pelo menos do primeiro episódio, mas o segundo e o terceiro são um verdadeiro banho de clichês com boa direção de fotografia, excelente trabalho de figurinos e um roteiro atroz, assim como a montagem, que repete o tempo inteiro cenas do passado como se o público pudesse se esquecer de determinadas coisas já mostradas em flashbacks de diferentes durações. Esta é uma das obras mais fáceis de Agatha Christie para se adaptar para a TV, e vejam só no que deu. Infelizmente, não foi dessa vez.

Ordeal by Innocence (Reino Unido, 2018)
Direção: Sandra Goldbacher
Roteiro: Sarah Phelps (baseada na obra de Agatha Christie)
Elenco: Anthony Boyle, Morven Christie, Anna Chancellor, Christian Cooke, Bill Nighy, Ella Purnell, Crystal Clarke, Eleanor Tomlinson, Matthew Goode, Luke Treadaway, Brian McCardie, Luke Murray, Catriona McNicoll, Alice Eve, Rhys Lambert, Hayden Robertson, Abigail Conteh, Frances Grey, Sandy Welch, Sammy Moore
Duração: 3 episódios de 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.