Crítica | Punk Rock Jesus #3 a 6 (de 6)

estrelas 4

SPOILERS!

O desfecho da saga de Jesus-não Jesus-clone é um misto de violência, genialidade e patetismo. Sean Murphy conseguiu criar uma minissérie polêmica, cheia de reviravoltas previstas, porém, pelo modo como são apresentadas, impressionantes; e acima de tudo, conseguiu dialogar com os dois lados da moeda, mesmo que o seu foco fosse uma suposta criação de Cristo a partir do Santo Sudário, como abordado em Punk Rock #1.

A partir da edição nº #3, o autor acompanha de forma mais presente o crescimento do menino Jesus-clone e seus milagres falhos quando criança. Esse período recebe uma atenção toda especial do autor, tanto na arte, que expõe um garotinho e sua melhor amiga (até então ele não sabia que se tratava de sua irmã) em um prédio gigantesco e milionário, sendo exibidos para milhares de cristãos e espectadores das mais diversas orientações religiosas ao redor do globo; quanto no texto, que marca o início de uma dura crítica do autor a Deus e seus feitos, tomando como base o polêmico Antigo Testamento.

O pequeno Jesus-clone cresce ouvindo histórias da Bíblia para crianças, e a partir de certa idade, passa a ter aulas de religião holograficamente. É de impressionar qualquer um o momento em que Jesus-clone e Rebekah assistem a uma aula sobre o Dilúvio. A pergunta que não sai da mente do leitor nessa edição é: “Deus vai afogar todo o mundo de novo?“. Vindo de uma criança apavorada com a ira de Deus isso é de doer o coração, afinal de contas, o amor, o diálogo e a compreensão parecem não fazer parte do cardápio desses trágicos momentos de destruição observados nas Escrituras.

Mas o crescimento de Jesus-clone traz uma nova cara para a história. Em contrapartida, o autor caminha por temas atuais como o conflito entre facções religiosas, as incursões geopolíticas da religião e suas marcas negativas na história, o impasse com a ciência e a cegueira da doutrina, que faz com que um grande número de pessoas acreditem que regras de convívio e garantia criadas por pessoas tão humanas quanto elas são creditadas a seres divinos e obedecidas à risca e sem questionamento.

É uma pena que na reta final, especialmente ao fim da edição nº#5 e em toda a edição #6, Murphy concentre sua narrativa em outro ponto dos fatos. Conforme a história caminha para o seu desfecho, temos cada vez mais a impressão de que ela se torna levemente pessoal e patética, no sentido dramático da palavra. Creio que essa foi a intenção do autor, a fim de mostrar o fim “ridículo” a que todas as lutas religiosas, sejam contra ou a favor à causa não servem de nada e só trazem a morte (Jesus-clone que o diga), mas pessoalmente não gostei desse rumo.

Engraçado é o tom irônico do final da história. Uma estátua é erguida para Chris, o Jesus-clone morto na queda do helicóptero. É como se toda a luta do garoto contra a “adoração” não tivesse servido de muita coisa, e mesmo que a intenção da Dra. Epstein, Rebekah e Thomas fossem boas (assumindo que a estátua foi ideia deles), o seu significado não teria agrado em nada o saudoso Chris.

Punk Rock Jesus foi uma minissérie incrível, com um trabalho extremamente crítico, emotivo e bem desenhado de Sean Murphy, e mesmo que ele desacelere um pouco sua narrativa final, trazendo algo mais “familiar” para as páginas, a atitude não chega a ser negativa, e de nenhum modo irá desagradar por completo quem até então admirava a história. Com um desfecho cheio de desesperança, Punk Rock mostra um lado da mídia + religião que muita gente ainda não percebeu, e em tempos de políticos religiosos, causas de Cristo, Guerras Santa e afins, essa minissérie vem para adicionar lenha à fogueira dos que ainda pensam. É como aumentar o fogo de uma fervura.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.