Crítica | Pura Adrenalina

estrelas 3,5

Pura Adrenalina é, muito facilmente, a pior obra de Wes Anderson. Mas isso não faz do primeiro longa metragem do diretor um filme ruim. Longe disso aliás. A fita emana uma simplicidade e doçura que é literalmente impossível não se deixar envolver pelas desventuras dos amigos Anthony e Dignan, vividos pelos irmãos Luke e Owen Wilson, o segundo também responsável pelo roteiro junto com Anderson.

Baseado no curta-metragem indie de mesmo nome (em inglês) que Anderson e Wilson fizeram em caráter experimental e que deu o pontapé inicial na carreira dos dois, em 1994, Pura Adrenalina aborda a banalização da violência de maneira minimalista, com um disfarce de comédia. É uma espécie de prévia do que Anderson, depois, viria a fazer com muito mais propriedade e técnica. Luke Wilson vive Anthony, um rapaz que, quando a fita começa, está saindo de um sanatório voluntário, em razão de um ataque de nervos tempos antes. Ele “foge” pela janela para se encontrar com seu amigo de muitos anos, Dignan (Owen Wilson), que, como fica evidente, merecia muito mais estar no sanatório do que Anthony. Dignan tem um projeto de 75 anos de pequenos roubos e furtos aqui e ali, em uma espécie de plano de carreira criminosa e Anthony é meio que levado a ser seu comparsa, muito porque ele não tem mais o que fazer. Engajando a ajuda de um terceiro amigo – esse rico – Bob (Robert Musgrave), os três partem para roubar uma livraria e viver uma vida de fugitivos pelo interior do Texas.

O que logo chama atenção é a qualidade das atuações. Não estou falando necessariamente do tipo de intensidade artística de um Robert De Niro em início de carreira, mas sim de uma qualidade que se encaixa perfeitamente no propósito da obra: naturalidade. Os irmãos Wilson não parecem estar vivendo seus personagens muito mais do que vivendo suas próprias vidas. No minuto inicial, em que somos apresentados a Anthony, somos fisgados pela tranquilidade e perfeição dele em seu papel. É algo agradável de se ver, ainda que, claro, o roteiro ajude em muito, ao criar situações imediatas para ele que ficam entre o nonsense e a comédia. E isso acaba funcionando também para Dignan, que espera ansiosamente pela fuga de seu amigo do sanatório, como se estivesse preparando um complexo plano. E fazer planos é a especialidade de Dignan, planos esses muito mais difíceis em sua cabeça do que na vida real, ainda que todos carreguem o peso e a crítica que Anderson imprime em seu primeiro longa, a banalização de atos criminosos.

Mesmo assim, outro tema que faz um contraponto à banalização é o valor da amizade. Anthony e Dignan são louquinhos (cada um do seu jeito bem característico), mas, acima de tudo, são grandes amigos. Inseparáveis mesmo. A química entre os irmãos atores é absolutamente perfeita – confesso que tive dificuldade em tratá-los apenas como amigos, tamanha a semelhança entre eles – e, acima de tudo, extremamente agradável. Mesmo quando o terceiro vértice no triângulo está entre eles, o amigo rico Bob, a coisa flui bem, sem soluços.

No entanto, ao expandir o que haviam criado para o curta-metragem, Wes Anderson e Owen Wilson acabam desviando o foco narrativo. É o que acontece com a fuga do trio depois do roubo da livraria. Ele se hospedam em um motel e Anthony se apaixona pela camareira paraguaia Inez (Lumi Cavazos), que quase não fala inglês. São momentos inegavelmente belos, mas que resultam em uma quebra de ritmo e a abordagem de assunto que não se encaixa organicamente em tudo que veio antes ou que vem depois. Em separado, o romance entre Anthony e Inez funcionaria como outro ótimo curta-metragem, mas, dentro da estrutura de Pura Adrenalina, ele transparece muito claramente o que é: uma forma artificial de transformar a obra original em um longa metragem.

E o último grande golpe, que toma o terço final da projeção e que conta com uma ótima ponta de James Caan no papel do mafioso local, não é muito mais do que a reiteração do que já vimos, dessa vez de maneira mais grandiosa e complexa. A montagem brusca de David Moritz (que continuaria a trabalhar com Anderson em Três é Demais e A Vida Marinha de Steve Zissou) , emulando a do curta, funciona bem para dar energia ao assalto ao frigorífico e o estilo de Anderson, com muito close-up e planos bem estruturados e simétricos acabam nos fazendo aceitar sua longa e, em última análise, desnecessária duração, além de um final surpresa – mas completamente previsível – que trai o espírito do curta.

Nesse momento, porém, já estamos tão enamorados pelas inesquecíveis atuações dos Wilson e pela toque “europeu” da fita, que conseguimos perdoar um bocado de problemas e apreciar Pura Adrenalina (aliás, título rasteiro esse em português, não?) como uma pequena e agradável obra de um diretor que ainda não errou de verdade nenhuma vez e que vem encantando as plateias com suas inovadoras criações.

Pura Adrenalina (Bottle Rocket, EUA – 1996)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson
Elenco: Owen Wilson, Luke Wilson, Robert Musgrave, Andrew Wilson, Shea Fowler, Lumi Cavazos, Donny Caicedo, Jim Ponds, Kumar Pallana, James Caan
Duração: 91 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.