Crítica | Pusher (1996)

pusher-mads-mikkelsen-e-kim-bodnia-plano-critico

estrelas 3,5

Para um filme concebido como um curta-metragem e dirigido por um estreante cineasta de 25 anos, Pusher (1996) conseguiu um impressionante resultado em seu conteúdo, refletindo essa marca na boa recepção da crítica e do público, além de sobreviver bem ao duro teste do tempo. A despeito dos cacoetes de um inexperiente, mas inventivo Nicolas Winding Refn, o filme traz uma temática de violência e um modo de narração e montagem que se tornariam modinha entre diretores mais despojados (estreantes ou não) no final dos anos 90. Isso é, em parte, um dos incômodos que temos ao longo da sessão — a semelhança com filmes do gênero ou dentro do mesmo estilo — porém, há ingredientes únicos e muito interessantes que não só servem de apresentação de identidade para um novo diretor, como também de chamariz para o filme.

No espaço de uma semana, acompanhamos a epopeia do traficante Frank (Kim Bodnia, onipresente e em excelente interpretação), que tenta a todo custo pagar a dívida que tem com um chefão do tráfico — supostamente seu amigo — em Copenhague, Dinamarca. Nesse processo, ele vai de cliente em cliente, cobrando dívidas, recebendo encomendas ou, mais para o final do longa, optando por atitudes desesperadas que acabam piorando ainda mais as coisas.

Na primeira meia hora, o roteiro é impulsivo, valendo-se mais de ações quase mudas de Frank e seu amigo inseparável, Tonny (Mads Mikkelsen, ótimo, mas pouco explorado), uma relação que denota certa homoafetividade, que logo se rasgará e afastará Tonny do enredo durante todo o restante do filme, sem definições sobre seu estado de saúde ou mesmo uma retomada coesa de sua ausência, apenas com um diálogo rápido sobre o que acontece no bar entre Frank e ele. Esse “deixar passar” é uma recorrência no roteiro de Refn e Jens Dahl, assim como a fragilidade das motivações dos personagens, embora isso seja compensado pela violência e certas tomadas de decisão do protagonista depois do minuto 40, que é quando as coisas começam a acelerar.

O marginal pop dos anos 90 encontra no nascente cinema de Refn um tom mais refinado, mais… cinéfilo, por assim dizer [lembra um pouco a estreia de Fassbinder em longas, com O Amor é Mais Frio Que a Morte, também mostrando a criminalidade através da elegância cinéfila], tendo um bom respaldo da direção de arte, que espalhou cartazes de Shaft (1971), O Vôo do Dragão (1972) e Mad Max (1979) pelos cenários, incitando o olhar do espectador de forma muda para ambientes de intriga e tensão. Essa sensação se intensifica pela forma que o diretor escolheu filmar, com a câmera na mão, inquieta, forçando o zoom; pelos planos que sempre se fecham de forma claustrofóbica, e pela direção de fotografia, que se preocupou em retirar o máximo possível de luz ou saturar de vermelho, verde e amarelo boa parte dos ambientes.

Esse impacto visual indica o estado de observação dos personagens, que, drogados, passam a ver o mundo de forma saturada ou sombria; mas também indica a situação geral do subúrbio de Copenhague, com suas gangues, traficantes e dificuldade da polícia em atar as conexões de bandidos menores aos grandes peixes do crime organizado. Com referências visuais, cênicas ou inspiração em A Morte de um Bookmaker Chinês (1976), Taxi Driver (1976), Scarface (1983) e Cães de Aluguel (1992), a impressão de que algo muito maior e bem mais trágico está para acontecer nos segue ao longo de toda semana. A sujeira desse mundo, ressaltada pela fotografia e pela maquiagem, além do fato de Frank não estar exatamente em uma maré de sorte, confirmam esse alerta.

A trilha sonora é muito bem escolhida, mas mal editada. Aliás, a edição e mixagem de som em Pusher, ao lado da montagem, talvez sejam as partes técnicas a dar maiores problemas no filme. As interrupções abruptas — reinserção dos cortes secos para gerar desconforto e deslocamento do espectador, trazidos do Gordard dos anos 70 — não servem ao seu propósito na maioria das vezes. Seria preciso uma maior atenção da direção, e posteriormente da montagem, para o que seria colocado aí (já que o filme foi rodado em ordem cronológica, era algo facilmente contornável), ou como ponte de ligação ou como sequência imediata, fazendo valer o corte seco de maneira visual, auditiva e simbólica.

Pusher apresenta a violência de forma física, moral e estética e termina com um ótimo ponto de interrogação sobre o futuro de Frank. O tom episódico dá um quê de confissão desse protagonista, de algo que o espectador observa isolado, em segredo, e isso serve como isca para o público, que sempre gosta de ser esse tipo de observador. Uma estreia realmente muito boa, que teria mais duas continuações, formando a cultuada Trilogia Pusher.

Pusher (Dinamarca, 1996)
Direção: Nicolas Winding Refn
Roteiro: Jens Dahl, Nicolas Winding Refn
Elenco: Kim Bodnia, Mads Mikkelsen, Zlatko Buric, Laura Drasbæk, Slavko Labovic, Peter Andersson, Vanja Bajicic, Lisbeth Rasmussen, Levino Jensen, Thomas Bo Larsen
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.