Crítica | Pyongyang: Uma Viagem à Coreia do Norte

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estrelas 4,5

O armistício que interrompeu, mas não acabou oficialmente* a Guerra da Coreia (1950 – 1953) estabeleceu a divisão da Península em dois países. De uma lado, a Coreia do Sul, com um sistema capitalista. Do outro, a Coreia do Norte, em um sistema socialista que, durante o longo governo de Kim Il-sung (como Primeiro-Ministro, de 1948 a 1973 e como presidente, de 1972 a 1994), passaria para um regime comunista amparado pela Ideia Juche, uma versão mais bizarra do Marxismo-leninismo (que a gente sabe para onde levaria a URSS), mas com um caráter próprio, buscando a histórica inimizade dos coreanos com o Japão e a então recente inimizade com os Estados Unidos para construir uma nação que olha para fora de suas fronteiras com um medo mesclado de fascínio e a plena noção de que a Grande Coreia do Norte não é melhor por causa daquelas que estão fora dela.

Esse é basicamente o contexto, com seus frutos nos anos 2000, que o artista canadense Guy Delisle encontra em sua viagem de dois meses à Coreia do Norte, enquanto trabalhava como animador-supervisor para uma empresa francesa que terceirizava serviços de animação para a Ásia, dado o barato valor da mão de obra em alguns lugares daquele continente, principalmente na China e, no presente caso, na Coreia do Norte, país que apenas no início dos anos 2000 — e para suprir uma colossal carência de injeção na economia –, permitiu a entrada de algumas empresas internacionais.

Trata-se, portanto, de um quadrinho político, uma espécie de relato jornalístico (mas nem tanto), ou mesmo um tipo de diário daquilo que o autor presenciou e foi obrigado a viver durante a sua estadia no país do Presidente Eterno Kim Il-sung. Duas notas cabem aqui:

  1. Em 1997, a Coreia do Norte passou a ter dois calendários, o gregoriano, como o nosso, e o “Calendário Juche”, que marca o “1º Ano da Nação” em 1912, que foi o ano do nascimento de Kim Il-sung.
  2. Em 1998, quatro anos depois da morte de Kim Il-sung, ele foi declarado, por lei, o “presidente eterno” do país.
Monumento à Fundação do Partido. Arte de Delisle. Foto de Deemer and Wood em Pyongyanf Too (2011).

Monumento à Fundação do Partido. Arte de Delisle. Foto de Deemer and Wood em Pyongyang Too (2011).

Com uma arte simples, minimalista e desenhos em preto e branco, Delisle começa com a sua chegada ao aeroporto (tendo na mala uma cópia de 1984) e termina com a sua partida, com um ato quase poético em sua brincadeira com o aviãozinho de papel. Na HQ, ele coloca tanto a sua experiência cotidiana quanto suas opiniões políticas e observações, algumas delas problemáticas, mas falaremos disso adiante. O foco de sua obra é tanto de denúncia — por contrato, ele não poderia publicar nada sobre a sua estadia no país asiático, e só o fez quando o estúdio para o qual trabalhou, faliu — quanto de observações sarcásticas, cínicas e cômicas de um canadense que, tendo passado a vida inteira em países com liberdade de expressão e livre comércio, vai sim ter opiniões bastante “fortes” sobre aquilo que experimenta no país mais fechado do mundo, uma ditadura comunista em forma de dinastia. Imaginem só.

Aqui chegamos a um ponto mais ou menos delicado da obra. Não é preciso ser um historiador ou um cientista político para fazer uma leitura contextualizada de uma graphic novel como esta, tendo em conta que se trata da opinião de alguém, que estamos vendo a Coreia do Norte pelos olhos de um artista, portanto, sabemos que esta é uma visão assumidamente parcial das coisas. Mesmo assim, alguns elementos da obra me incomodaram e eu gostaria de levantá-los e pedir que vocês opinem a respeito.

A relação do autor com os norte-coreanos é, em alguns pontos, paternalista demais (não do modo como Hergé diz que foi com os congoleses em Tintim no Conto, mas…), muitas vezes infantilizando os cidadãos para colocar um ponto de vista particular, deixando de lado o contexto que ele mesmo sabe existir naquele país, o mundo daquelas pessoas que foram ensinadas (obrigadas/ameaçadas) a amar e obedecer. Penso que não foi, para dizer o mínimo, elegante da parte do autor colocar coisas como “o fato de um monte de porcarias serem enfiadas goela abaixo da população e todo mundo parecer acreditar“. A indignação é parcialmente respondida por ele mesmo em outros momentos, ou seja, o cidadão médio norte-coreano não tem culpa de ter aquele tipo de controle estatal em sua vida e só age ideologicamente com base naquilo que foi ensinado e sabe que é para fazer, mais ou menos como a maioria de nós, de países não ditatoriais, com a diferença de que podemos escolher que caminhos (ou prisões) seguimos e acreditamos. Esse povo não tem essa escolha. E em muitos momentos o autor tende à mímica preconceituosa para arrancar um riso fazendo piada com uma condição política direcionada às pessoas erradas!

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Hotel Ryugyong (inacabado). Arte de Delisle. Foto de Deemer and Wood em Pyongyang Too (2011).

Mas o meu maior desgosto está na página 157, quando ele, durante a visita uma escola, é convidado a ouvir uma apresentação musical feita por crianças de 8 anos. A este ponto da narrativa, nós já entendemos que Pyongyang é uma cidade-luxo de um país miserável; que as pessoas são forçadas a trabalhar sem receber, mas fazem isso como se estivessem sendo “voluntárias”; que toda a grandeza da arquitetura contrasta com os rostos das pessoas que olham para ele, na rua, um pouco apreensivas e com grande curiosidade… entendemos que quase tudo ali é praticamente um cenário armado. Entendemos que a vida acontece “normalmente” — bom, nem uma dinastia comunista como esta poderia fazer um trabalho tão bom de figurantes –, mas com estabelecimentos, carros e tudo o mais circulando, estacionado, apresentado e disponível apenas para turistas e oficiais do governo. Entendemos que ele não pode andar sem guia ou tradutor e que, se o faz, é seguido. Sabemos tudo isso. Mas a forma como o autor se coloca em relação às crianças é repudiável. Leiam comigo.

__ Ficamos imaginando o rigor do treinamento necessário para se atingir um resultado tão… robotizado. E é com grande orgulho que exibem esses pequenos animais amestrados.

Sério. Me digam em que contexto isso é válido. Mesmo que ele quisesse “apenas” dizer que as crianças AGIAM COMO “animais amestrados”, forçadas sistematicamente a se comportar de tal forma, ou algo parecido, simplesmente não dá para aceitar a classificação dessas crianças de oito anos, provavelmente morrendo de medo de errar uma nota na frente de um turista e “manchar a honra da grande nação”, de “animais amestrados“. E isso porque a tradução de Claudio R. Martini, para a editora Zarabatana, alivia um pouco o peso. No original o autor escreve “macacos amestrados“. Foi muito difícil continuar a leitura depois disso. E talvez por ter me incomodado bastante, eu comecei a ver pontadas levemente xenofóbicas do autor em relação ao país e seus habitantes. Penso que fazer um trabalho como este que Delisle faz aqui é algo vital para termos informações do que acontece naquele pequeno aquário de opressão e fome na Ásia. Mas uma coisa é criticarmos a infraestrutura de um país, seu governo, sua organização ou mesmo a forma como a prestação de serviços é feita. Mas fazer certas afirmações sobre o povo, cidadãos comuns, crianças, de forma a desconsiderar o que a própria obra se propõe fazer — e faz, no começo! — que é pensar criticamente a respeito, não foi uma sábia decisão. Chega a ser vergonhoso.

pyongyang-capa-delisle-zarabatanaMas à parte essas afirmações, Pyongyang: Uma Viagem à Coreia do Norte é uma leitura sensacional. Ela é um convite à pesquisa, à discussão, e pode trazer uma luz para pessoas que gostariam de estudar mais o assunto mas não sabem exatamente que rumos tomar. O autor ainda coloca na obra pequenas brincadeiras como o divertido jogo de “quem é o espião?” e duas páginas desenhadas de maneira adoravelmente caótica por seu amigo Fabrice, que também esteve lá… tudo isso, elementos que tornam a leitura mais leve e divertida — é preciso, pois o roteiro é composto por colagens dos dias, não há uma verdadeira história acontecendo e se não houvessem essas pequenas e boas amenidades, seria bem difícil terminar o volume –.

Este é um livro crítico, uma história em quadrinhos de cunho jornalístico ou um diário em forma de quadrinhos que deve ser lido, questionado por alguns pontos de vista, mas apreciado pelo que ele é e propõe. E não há como negar: trata-se de um excelente trabalho, desses que nos deixam bastante felizes em ver alguns rumos e realizações possíveis para a nona arte também na política e contra a opressão. O autor poderia experimentar, inclusive, parte desse exame final e repensar alguns de seus quadros na história.

* Ao menos até o momento em que escrevo esta crítica, em janeiro de 2017.

Pyongyang: Uma Viagem à Coreia do Norte (Pyongyang) — França, 2003
Roteiro: Guy Delisle (com duas páginas desenhadas por Fabrice)
Arte: Guy Delisle
No Brasil: Zarabatana Books (2007)
Tradução: Claudio R. Martini
176 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.