Crítica | Quadribol Através dos Séculos, de J.K.Rowling

estrelas 4

No mesmo ano em que lançou Animais Fantásticos e Onde Habitam – marcado pelo humor e pela intertextualidade com a saga original – Rowling também trouxe a público outro livro lido e citado diversas vezes pelos personagens do mundo de Harry Potter: Quadribol Através dos Séculos. Título mais autoexplicativo, impossível: trata-se de um apanhado da história do esporte mais popular no mundo bruxo, incluindo suas origens, regras, evolução e textos explicativos sobre grandes times da Grã-Bretanha e do mundo. Se em Animais Fantásticos temos como autor fictício o magizoologista Newt Scamander, aqui o escritor é o especialista em quadribol Kennilworthy Whisp.

Além da premissa já interessante, Quadribol Através dos Séculos apresenta o mesmo tom cômico da obra de Scamander; de cara, já há uma ficha com os empréstimos do livro para grandes jogadores de quadribol de Hogwarts, como Olivio Wood, Cedrico Diggory e o próprio Harry Potter – claro, pois se trata de “uma cópia do exemplar guardado na Biblioteca Escolar de Hogwarts”, segundo ninguém menos que Alvo Dumbledore, responsável pela introdução do volume. Também há menção à intragável Madame Pince sobre cuidados com  a peça – o retrato rapino e antiquado da bibliotecária de Hogwarts é uma decepção à parte, oriunda da saga original, mas bem divertido nesse contexto. Para fechar o quesito intertextualidade, existe uma seção de críticas ao livro escritas por pessoas como Batilda Bagshot, Gilderoy Lockhart e Rita Skeeter, velhos conhecidos do leitor de Harry Potter.

A primeira parte do livro é dedicada à origem do esporte, começando antes mesmo disso para retratar aspectos históricos como o surgimento das vassouras voadoras. Seguem-se explicações sobre evoluções nos modelos disponíveis e outros esportes jogados em vassouras (alguns, definitivamente radicais) até chegar ao “jogo do brejo de Queerditch” – o início do quadribol (quidditch, no original). O leitor descobrirá que o esporte surgiu entre os séculos XI e XIII e que, no início, não havia pomo de ouro, mas sim um passarinho (!) a ser capturado.

A evolução do jogo é narrada de maneira bastante leve e divertida, permeada de anedotas e comentários jocosos do narrador. Em meio a fatos e documentos históricos, acompanhamos a progressão do esporte – por exemplo, pedras que são substituídas por balaços de chumbo, mais tarde trocados pelos de ferro; a primeira Copa Mundial, em 1473, e o surgimento do pomo de ouro tal como o conhecemos.

Essa parte histórica conta com a presença de fragmentos de diário, cartas e figuras explicativas, o que contribui para a verossimilhança da obra e, claro, dá maior credibilidade a qualquer relato histórico: Rowling despretensiosamente brinca com o gênero de maneira bem interessante. Os comentários do narrador, no entanto, impossibilitam qualquer vestígio de seriedade, e não é de se estranhar que esse livro seja “manuseado, babado e de um modo geral maltratado diariamente” na Biblioteca de Hogwarts.

Para um trouxa fã de quadribol, Quadribol Através dos Séculos é uma leitura prazerosa e esclarecedora, além de bem espirituoso – até então, eu nunca havia pensado em como pode ser perigoso ser juiz de um esporte no qual os jogadores têm varinhas mágicas, por exemplo. Entretanto, seu final é um pouco abrupto, tendo apenas um parágrafo pouco satisfatório como conclusão. Para enriquecer a veracidade do relato histórico, do caráter de pesquisa, seria interessante uma seção de “considerações finais” ou algo do gênero. Ainda assim, com certeza é um livro que agradará fãs de Harry Potter e também fãs de História e esportes… bruxos.

Quadribol através dos séculos (Quidditch through the ages) – Grã-Bretanha, 2001
Autor: J.K.Rowling
Publicação: Editora Rocco, 2001
64 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.