Crítica | Quadrilha Maldita

estrelas 4,5

Quadrilha Maldita é um longa capaz de deixar qualquer espectador com o queixo caído. Filmado nas belas e gélidas paisagens do Mount Bachelor, no Estado do Oregon, o filme é um Northern do apogeu do western clássico, e traz uma importante abordagem psicológica dos personagens, bem como um estudo quase filosófico sobre a maldade, o confinamento e a ameaça como forma de convencimento.

O húngaro André De Toth já tinha dirigido alguns westerns antes, como A Abrasadora (1947), Renegado Heroico (1952) e Feras Humanas (1954), mas nenhum deles com a densidade da história de Quadrilha Maldita, cujo roteiro foi baseado na obra de Lee Edwin Wells, publicada em 1955, e escrito com primazia por Philip Yordan, escritor e roteirista com bastante experiência, já tendo passado por obras como Johnny Guitar (1954), Um Certo Capitão Lockhart (1955) e Estigma da Crueldade (1958).

A história é quase improvável e já no início delineia o isolamento do espaço geográfico e uma espécie de opressão que o inverno do norte dos Estados Unidos pode trazer. A trama se passa em finais de novembro e início de dezembro, principiando com o conflito entre dois homens pela colocação de uma cerca de arame farpado num racho da cidade, algo que seria ruim para a pastagem do gado que viria na primavera. Mas em pouco tempo o real motivo da disputa é revelado e, quando o duelo mortal está para acontecer, entra em cena os sete homens que mudariam toda a história.

De Toth consegue criar uma situação amedrontadora em pouquíssimo tempo, utilizando-se das condições climáticas, da noite e dos diferentes interesses da quadrilha chefiada pelo ex-capitão Bruhn (papel maravilhosamente interpretado por Burl Ives), para levar adiante problemas como assédio, adultério, tentativas de estupro, ganância, traição, deserção e medo. Sua forma é objetiva e prima pelo sentido pleno do território na trama (nesse ponto ele se parece bastante com Anthony Mann), colocando a câmera em trilhas cobertas por metros de neve onde vemos cavalos e homens sofrerem – o que de fato aconteceu nas filmagens, a ponto de Robert Ryan ficar afastado do set por um período devido a pneumonia que contraiu.

Como se permitiu explorar temas fortes, o diretor conseguiu nos dar não apenas cenas lancinantes, como a da extração da bala alojada em um dos personagens, mas também de tensão a toda prova, como as antológicas cenas do baile de sábado à noite ou da cavalgada pela neve, na parte final do filme. Em cada um desses momentos temos um pequeno detalhe adicionado à história, um elemento que nos serve de contexto ou nos deixa positivamente confusos quanto a postura verdadeira de cada um dos atores em cena.

Assim é o caso do jovem Gene (interpretado por um David Nelson aos 22 anos, um ator que tinha hordas de fã-clubes pelos Estados Unidos), que acaba sendo uma espécie de “anjo do mal” e a quem a paixão vem salvar em momento oportuno e de uma forma muito interessante. Infelizmente, o ator protagoniza o elo mais fraco do longa (o seu romance com Ernine), mas essa relação recebe apenas algumas cenas de atenção e não se dá como real ameaça à qualidade da obra. Em outro extremo, a relação de Blaise (Robert Ryan) e Helen (Tina Louise) é carregada de profundidade e não serve apenas como introdução ao problema de abertura da fita como também contribui para que vejamos a mudança de Blaise ainda no início do filme (como esquecer aquela olhada no espelho?).

Se atentarmos a história do western pós 59, veremos que este filme de De Toth influenciou de maneira decisiva a produção de alguma obras, como por exemplo, O Vingador Silencioso (1968), de Sergio Corbucci, além de marcar uma fase bastante movimentada para o gênero, trazendo mudanças no tratamento de certos assuntos e tendo a coragem de narrá-los sem muita ação, deixando o público digerir compassadamente os enfrentamentos. A música de Alexander Courage ajuda bastante nesse processo, contornando a partitura sinfônica – mais comum nos westerns até esse final da década de 50 – e entregando temas menos épicos para acompanhamento, sugerindo através de instrumentos específicos ou de uma plácida composição para orquestra, os pontos de maior peso na trama, deixando também espaço para o silêncio.

Quadrilha Maldita é um western que reina na lista dos ilustres desconhecidos do grande público, o que é uma pena. O filme é de uma beleza fotográfica inesquecível, marcado por ótimas atuações e com uma construção dramática que se encerra ainda em processo, uma bem vinda reticência para a vida daqueles personagens de figurinos escuros em contraste com a neve branca, pessoas cujo comportamento, anseios e descobertas às vezes punham-se em contraste com eles mesmos, dançando uma espécie de quadrilha moral cujo real resultado, por melhor que queiramos vez o futuro deles, sempre será uma grande dúvida.

Quadrilha Maldita (Day of the Outlaw) – EUA, 1959
Direção:
André De Toth
Roteiro: Philip Yordan (baseado na obra de Lee E. Wells)
Elenco: Robert Ryan, Burl Ives, Tina Louise, Alan Marshal, Venetia Stevenson, David Nelson, Nehemiah Persoff, Jack Lambert, Frank DeKova, Lance Fuller, Elisha Cook Jr., Dabbs Greer, Betsy Jones-Moreland, Helen Westcott, Donald Elson
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.