Crítica | Qualquer Coisa Serve, de Theodore Dalrymple

Quanto mais falar, mais provável que diga bobagem.

Já há alguns anos as diversas facetas de Anthony Daniels tornaram-no um dos autores do momento no Brasil. E não é por acaso.

Médico psiquiatra, ácido ensaísta e elegante pensador, usando o pseudônimo Theodore Dalrymple, o doutor diz logo a que veio com títulos diretos: Em Defesa do Preconceito, Nossa Cultura…Ou o Que Restou Dela, O Prazer de Pensar, só para citar alguns.

Com charme britânico exalando em cada página, Daniels se impõe com precisão cirúrgica na análise dos efeitos do politicamente correto no comportamento contemporâneo, desde as camadas mais expostas às mais recônditas ou disfarçadas, mesmo que por boas intenções.

Em Qualquer Coisa Serve, o autor também não demora para indicar o sinuoso caminho percorrido em seus trinta e quatro ensaios. Denunciando a falta de parâmetro, seja moral, estético, cultural, religioso – escolha você a sua briga – o que se constata é uma inércia na alimentação intelectual. E o que seria isso?

Antes desejável, o próprio ato de se nutrir em um ambiente culto passa a ser odioso, uma vez que a própria definição de cultura – assim como a de bem, mal, racional, sentimental – se mistura em um amálgama conduzido, geralmente, por quem grita mais alto.

O problema em filosofia é velho, convenhamos.

Novo, porém, é o bisturi com o qual Daniels opera. Com olhar de raposa, literalmente viaja o mundo e perpassa por cenários e sintomas variados com extrema facilidade, tanto no relato descritivo quanto na incisão com que derrama seus apontamentos.

Atualizando o método cético dos moralistas franceses do XVII para situações de concretude atual até brutal – presentes graças às experiências médicas deste nômade doutor – o escritor inglês consegue trazer o leitor às suas viagens, sejam as concretas, sejam as mentais, graças à coragem com que eleva, como bom colunista de jornal, a temperatura em praticamente cada ensaio.

De tão amplo, Qualquer Coisa Serve pode demorar a se fixar na mente após primeira leitura. Ainda que os breves ensaios tenham em comum uma problemática que dá título ao livro, certamente uma segunda leitura solidifica a opinião peculiar do autor. Alguns dos ensaios, evidentemente, merecem uma leitura no mínimo semestral de tão vitais que são. Aqui, destaco rapidamente alguns deles para dar a ideia do poder de escrita de Daniels.

Estreando a obra, Diário de uma viagem pela Europa (2005-2006) foca sua lente na juventude, discussão perfeita para uma apresentação inicial. Em uma era na qual Lord of the Flies se tornou um livro genérico, a fé nos jovens nunca foi tão grande.

Pedagogos, historiadores, filósofos e sociólogos militantes não arrefecem o ânimo do brado otimista sobre o futuro da nação repousar nos jovens. Evidente é, ainda que escuso, que o projeto universal desses melhoradores passa somente pelos preconceitos e intolerâncias dos próprios melhoradores.

Pergunta Daniels: Quem foi que inventou essa história de que a juventude é idealista? Ela é egocêntrica e egoísta. Sei disso porque também fui jovem um dia.

A provocação aponta: a experiência empírica é mais confiável do que qualquer teoria de gabinete. É ela, afinal, que será a base da escola cética conservadora britânica, fundamento para a defesa do preconceito que Daniels advoga em outro livro.

Voltemos à juventude, todavia, ela que está sempre em busca de respostas completas. Sonda-se nessa vontade inexpugnável aquele velho desejo totalitário que alimenta a militância, seja qual ela for ou contra quem for.

Em um sentido geral, a juventude ouve tanto que é intocável aos vícios do resto da humanidade que passa a acreditar piamente nesse diagnóstico.

Impossível falar sobre a ilusória auto percepção de pureza sem passar pelo comunismo. Em As realidades do mal, o autor retoma o tema das suas Viagens aos confins do comunismo de forma sucinta e pontual, discutindo um cenário que, apesar de óbvio, se tornou polêmico. Entre nazistas e comunistas, pouca diferença haveria, a não ser aquela que exista, talvez, porque certos elementos do comunismo ainda exercem atração sobre muitos intelectuais, e ninguém quer reconhecer que seus ideais justificaram, e em parte também motivaram, assassinatos cometidos em escala jamais dantes vista. Quem não preferiria negar o significado de milhões e milhões de mortes a abandonar as próprias ilusões?

Direto, Daniels vai da ideologia para as microideologias, pois bater no comunismo de Lênin e Stálin é bater em cachorro morto – para uma conversa com um mínimo de bom senso e para não citar Marx e Chávez, a quem o autor dedicou graciosas linhas.

Já em Liberdade e seus dissabores, o autor toca na banalmente chamada “ideologia de gênero” para flertar com uma questão de fundo maior. Das tantas bandeiras quantitativamente insignificantes que a mídia em massa resolve apoiar, Daniels conversa com o transexualismo e expõe, corajosamente, suas suspeitas: que há algo de grotesco, e até mesmo repugnante, nessa ideia de mudança de sexo, quanto mais no caso de meninos de doze anos. Sensação de repugnância não é um argumento moral completo, claro: é necessário algo mais profundo. Ainda assim, a intuição de que determinada ação ou política é um equívoco completo representa o começo, quiçá, até o final, da reflexão moral.

Para os evoluídos espiritualmente, livres de qualquer preconceito e anunciadores da nova era de amor livre e de “odeie seu ódio”, uma intuição dessas é lixo. A cabeça tão conscientizada desses espertinhos dá “tilt” se ouvem uma opinião ácida contrária. Não à toa há “safe spaces” em universidades americanas onde se proíbe opiniões controversas – leia-se, fora das normas de grupos minoritários estridentes. Na intuição de Daniels, o transexualismo seria algo fundamentalmente egoísta e antissocial. E concordo com ele, para não deixar essa crítica blasé em demasia.

La Rochefoucauld declarou que, na maioria dos homens, o amor à justiça é tão somente medo de ser injustiçado. Por analogia, o amor à liberdade de expressão não passa, neles, de medo de ser calado. Fossem essas pessoas mais fortes do que são, teriam apenas monólogos, a mais agradável de todas as formas de discurso. Quem de nós jamais tomou parte numa conversa tendo, como principal preocupação, o que falaria em seguida, sem se importar com o que os outros diziam e esperando apenas uma pausa em que fosse possível interpor suas maravilhosas propostas? A ameaça à liberdade de expressão, portanto, não é inerente apenas aos governos, mas também aos nossos corações.

A denúncia vem a galope, mas com ressalvas: todo intelectual adora travar lutas contra bichos-papões imaginários; ele mesmo faz isso de vez em quando. Sua sóbria escrita se torna polêmica exatamente porque, tal como o transexualismo adotou o bonitinho lema da resistência – contra tais bichos-papões da imaginação – também a arte moderna e a religião gozam de uma certa intocabilidade: uma como bandeira política, a outra como bicho-papão poderoso. Nesta leva surgem autores-chave: Richard Dawkins, a encarnação do ateu mais dedicado a Deus do que qualquer cristão.

Nas diversas camadas de secularização, Uma análise de custo-benefício da análise de custo benefício e Uma doença para cada comprimido servem como orientação primorosa para o simples ato de andar em uma terra tecnicista, obsessiva com a otimização do bem-estar e repulsiva a menor agonia.

Da tentativa de eliminar todos ‘’os personagens’’ do grupo de empregados – isto é, todas as pessoas ineficientes, cuja contribuição é ser quem são em vez de fazer o que fazem (espécies de Kevins, para os fãs de The Office) à mensuração do mundo com uma régua estritamente técnica, já denunciada por gente do calibre de Einstein e Heidegger, Daniels carimba um mal-estar latente hoje em dia: a seu ver, as tentativas de dessacralizar a vida humana em nome da racionalidade resultaram nos mais terríveis crimes.

Frisa-se que a teia é a mesma. A percepção de Daniels segue um fio condutor que se espalha sem se embaralhar.

No penúltimo ensaio – o melhor do livro – o autor indica a chave-mestra para compreender suas denúncias. É tudo culpa sua é destes pequenos textos que mereceriam ser lidos e trabalhados em salas de aula, pois trata do sentimento mais pungente e palpável, ou melhor, da doença epidêmica contra a qual não se possui imunidade.

O ressentimento. Matéria dessa aula, é esmiuçado com o devido cuidado, inclusive – e principalmente – para se aprender o porquê de sua força.

Você conhece, caro leitor, um torcedor de time adversário que ama desvalorizar a vitória do seu? Ou um colega de trabalho, de turma? Um primo distante ou um irmão próximo, que não para de falar sobre si mesmo sem nada revelar, ou que não faz distinção entre desigualdade e injustiça quando discorre sobre alguém melhor que ele?

O ressentimento é um labirinto com atrativos homéricos, predominante em uma época onde todos estão em estado de alerta, atentos àquelas causas de vitimização. Ele nunca nos decepciona pois muda as polaridades do sucesso e do fracasso.

Melhor do que qualquer molde marxista sobre luta de classes, a percepção de que o ressentimento é nosso companheiro mais íntimo e fiel gira a chave para abrir em nós mesmos uma noção de insuficiência.

Falhos, frágeis, invejosos e sem a menor noção do ridículo, elevamos a culpa ao jogo da fantasia, jogando-a para quem quisermos. Ora o sistema, ora a religião, ora o professor malvado, ora os pais. O colega mais inteligente, o aluno mais dedicado, a menina mais bonita. O melhor esportista, o melhor leitor, o mais extrovertido ou o menos. Todos são ou já foram culpados pelos nossos abundantes fracassos.

Convenhamos, todavia, que o ressentimento tem o poder de mover montanhas. Uma vida secretamente pautada por ele tem pouco perigo de ser frágil. Substituir a lente clichê da luta de classes no capitalismo malvado pela lente filosófica do ressentimento pode trazer, e normalmente traz, grandes surpresas na análise dos casos de sucesso ou de fracasso.

Ressentimento, a mais longeva, gratificante e daninha das emoções humanas.

Qualquer Coisa Serve não é o melhor livro de Daniels, mas, além de bela introdução ao estilo e pensamento do ensaísta, também consegue o feito de ser um documento poderoso para ajudar a enxergar por baixo do véu cotidiano em busca de visão mais lúcida. E lúcida aqui é sinônimo de descontaminada de uma visão que se sabe viciosa e que, exatamente por tocar no tom de sua banalidade, consegue enxergar no ordinário e nos arautos do bem, da tolerância, da virtude e da famigerada vida feliz, o horror puro e suas mil faces.

Mesmo não havendo escapatória definitiva da nossa monótona rotina, certamente há, e Daniels não se cansa de mostrar, uma desonestidade que dialoga constantemente com a fragilidade da nossa condição e que nos chama ao duelo. E o melhor: tal como Shakespeare, o escritor nunca vocifera.

Qualquer Coisa Serve (Anything Goes) — Reino Unido, 2011
Autor: Theodore Dalrymple
Tradução: Hugo Langone
Editora no Brasil: É Realizações
Páginas: 272

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.