Crítica | Quando as Luzes se Apagam

estrelas 3,5

Depois de tantos filmes de terror ruins e risíveis em suas tentativas de provocar o medo, o gênero surpreendentemente parece estar passando por uma revolução dentro de Hollywood. Esta que é avalancada pelo produtor e diretor James Wan e de novos talentos que são descobertos graças a sucessos nas redes sociais e produções caseiras. Foi assim com Andrés Muschietti, que teve seu curta Mama transformado no filme homônimo de 2013, Fede Alvarez que viralizou seu curta sobre invasões alienígenas até lhe garantir as chaves da franquia no remake A Morte do Demônio e Mike Flanagan com o surpreendente O Espelho, também nascido de um curta-metragem.

Agora é a vez de David F. Sandberg, que sacudiu as redes sociais no ano passado com seu eficiente curta Lights Out, e agora é apadrinhado por James Wan para dar origem a este Quando as Luzes se Apagam, que expande a artimanha criativa – porém limitada – do vídeo em um longa interessante e que se beneficia da inventividade visual de seu realizador.

Para quem não conhece, o curta trazia a aparição de uma criatura sinistra que só era possível de ser identificada com as luzes apagadas, desaparecendo com a qualquer incidência de luz. Aqui, temos a família desestruturada formada por Sophie (Maria Bello) e seus filhos, Rebecca (Teresa Palmer) e Martin (Gabriel Bateman). Lidando com a morte do marido (Billy Burke), Sophie encontra-se em um estado quase insano no qual interage com a tal da entidade misteriosa que só se manifesta no escuro e atende pelo nome de Diana, o que leva os dois filhos a iniciarem uma investigação para descobrir seus motivos.

É incrível que o roteirista Eric Heisserer tenha conseguido extrair tanto suco de um fruto que parecia todo esgotado em seu curta, já que é uma ideia que sustenta por alguns minutos e garante um bom susto no final. Porém, o texto de Heisserer acerta ao criar bons personagens e um drama familiar pesado que é capaz de amedrontar e envolver muito mais do que a silhueta sinistra de Diana, o que por si só já mostra o amadurecimento que o gênero vem recuperando. Todos os personagens baseiam-se em arquétipos já conhecidos, mas as pequenas mudanças e apostas, desde um Bateman carismático e esperto, uma ótima Palmer que encontra a coragem de enfrentar o desconhecido até a excelente Bello, cujo arco de sua personagem sofre uma reviravolta audacisosa em sua conclusão. E, claro, Alexander DiPersia agrada como Bret, enfim tornando o estereótipo do “namorado” em uma figura que serve à trama e ainda garante um arco simpático com Palmer.

Visualmente, eis que David F. Sandberg estreia como cineasta, e temos aqui um promissor início de carreira – não por acaso, Sandberg ganhou a confiança de Wan e o trabalho de comandar a sequência de Annabelle. Sendo um filme curto, Sandberg vai direto ao ponto e é bom na hora de construir tensão e montar boas transições entre passado e presente para explicar o backstory de Diana (mesmo que este sofra de muita exposição), resgatando as artimanhas visual de seu curta. Sandberg e o diretor de fotografia Marc Spicer trazem ótimas soluções para as aparições e ataques de Diana, apostando desde lanternas, velas, celulares, armas e até luz negra para construir as sequências mais intensas do filme, e essa criatividade diverte.

Infelizmente Sandberg acaba preso aos clichês do gênero, no que diz respeito a sustos falsos. Raramente temos os valiosos momentos de silêncio aqui, sempre prejudicados pela excessiva e óbvia trilha sonora de Benjamin Wallfisch que sempre nos alerta quando devemos temer algo. A expectativa do susto também é muito previsível, e o recurso de se ter um plano aberto com profundidade de campo alta onde temos um corredor escuro acaba repetindo-se mais do que o esperado.

Mas no geral, mais um bom exemplar de terror de uma geração que vai cada vez mais redescobrindo as maravilhas do gênero e introduzindo novos e criativos conceitos.

Quando as Luzes se Apagam (Lights Out) – EUA, 2016
Direção: David F. Sandberg
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Teresa Palmer, Maria Bello, Gabriel Bateman, Alexander DiPersia, Billy Burke, Alicia Vela-Bailey
Duração: 81 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.