Crítica | Quando as Mulheres Esperam

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Bergman não dirigia um filme desde Isto Não Aconteceria Aqui (1950), quando a produção cinematográfica foi retomada na Suécia, após um ano de interrupção — por disputas com o governo, relacionadas a impostos –, período no qual o artista trabalhou apenas com comerciais de TV e co-escreveu alguns roteiros. Na primavera de 1952, após uma rápida pré-produção, ele começou as filmagens de Quando as Mulheres Esperam, precisando de pouco mais de um mês para terminar o filme. Com as finanças em perigo e precisando desesperadamente de um sucesso, o diretor afirma que foi pego de surpresa com a recepção positiva que o público teve em relação ao filme. E principalmente pelo fato de rirem do último ato, algo que jamais tinham feito em uma de suas obras e que ele realmente não entendia, porque a situação do elevador, apesar de ter uma nuance cômica, não tinha exatamente essa intenção de divertir. Mas o público viu de forma diferente. E a obra brilhou nas bilheterias.

Baseado em uma ideia de seu esposa na época e pautado nas noções de construção narrativa dos filmes Êxtase (1933) e Nocturno (1934), de Gustav Machatý, o roteiro de Quando as Mulheres Esperam se passa em uma casa de verão, onde as esposas de quatro irmãos esperam que eles cheguem para as férias. Enquanto os homens estão a caminho, as mulheres conversam na sala, com uma ou outra intromissão dos filhos no decorrer da fita. Após um breve desabafar de uma das cunhadas, dá-se uma série de relatos individuais, cada uma delas contando um fato importante de sua vida ao lado do marido, talvez o início dos eventos que as levaram até o momento atual de suas vidas.

Fotografado de maneira soberba por Gunnar Fischer, Quando as Mulheres Esperam está entre os filmes mais elegantes desta fase de Ingmar Bergman, mostrando de maneira muito sóbria as paisagens da propriedade no verão e entrelaçando de maneira fluída o cenário da cidade, a casa de campo e a presença das protagonistas nestes espaços, em momentos diferentes de suas vidas. Com um pouco mais de contraste nas cenas do presente, o fotógrafo também optou por focar mais nos planos médios e nos primeiros planos na fase de abertura, onde o contato com as cunhadas é essencial para vermos a construção psicológica de cada uma. À medida que as histórias se finalizam e entendemos as angústias matrimoniais que vivem, a câmera se afasta, até que termina com planos gerais pela casa, com todos se divertindo e depois, com o jovem casal coadjuvante partindo de barco, símbolo de um momento corajoso, irresponsável, intenso e fugaz do amor.

Embora todas as atrizes estejam muito bem em cena e nenhum dos relatos seja ruim, o desenvolvimento do filme não se ergue muito bem. É como como se estivéssemos vendo uma coleção de curtas à parte o tema principal da obra, um tipo de antecedente que não deveria ser projetado junto com as cenas do presente. Produto de uma montagem não muito competente ou má administração da parte textual que liga o flashback às conversas das mulheres, o fato é que apenas um dos momento do passado funcionam em plenitude, de sua apresentação, desenvolvimento, finalização e retorno ao presente, aquele que é narrado por Karin, interpretada pela brilhante Eva Dahlbeck, que faz parte romântico com o excelente Gunnar Björnstrand, dupla que voltaria a conquistar o coração do público como o casal de uma rara comédia dirigida por Bergman, Uma Lição de Amor (1954).

Talvez pela grande experiência dos dois atores ou pelo fator claustrofóbico do cenário, as cenas com os dois se destacam facilmente em todo o filme, especialmente as do elevador, que são uma aula bem dada de dramaturgia e contam com um dos mais bem escritos diálogos de Bergman no filme, mostrando também como diretor conseguia extrair vitalidade de uma cena que tinha de tudo para ser apenas um pouco estranha. Até a sensação cômica que fez muitos espectadores rirem vem dessa exploração da relação entre os dois, fazendo com que este seja o relato mais interessante e o que melhor interage com a obra, em todos os seus aspectos.

Podemos entender Quando as Mulheres Esperam como um filme de confissão. Construído de maneira rápida e muito próxima aos sentimento dos personagens, os conceitos abordados vão do tratamento mais conservador ao mais liberal dado à relação entre homens e mulheres (espectadores mais apressados, que queiram classificar a obra como “machista”, apenas pelas falas de alguns personagens masculinos, deverão pagar a língua) e aos laços humanos como um todo. Há reflexos de Juventude aqui, mas predomina um tom mais sério, mais ciente das responsabilidades a despeito dos muitos amores e prazeres da vida.

Quando as Mulheres Esperam é uma deliciosa obra de caráter teatral e cheia de grandes momentos conjugais sob uma base estética aplaudível. A maioria dos relatos internos não abraçam tão bem o todo, mas não deixam de ter sua graça nem de mostrar um pouco da intimidade e vazio existencial das mulheres, presas a um ciclo social opressivo (em sua visão interna) e conveniente (em sua disposição externa), onde tentam deixar tudo mais suportável. Nem que seja através da memória.

Quando as Mulheres Esperam (Suécia, 1952)
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman (baseado em uma história de Gun Grut, esposa do diretor)
Elenco: Anita Björk, Eva Dahlbeck, Maj-Britt Nilsson, Birger Malmsten, Gunnar Björnstrand, Karl-Arne Holmsten, Jarl Kulle, Aino Taube, Håkan Westergren, Gerd Andersson, Björn Bjelfvenstam
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.