Crítica | Quando Meus Pais Não Estão em Casa

iloilo

estrelas 3,5

Família tradicional de classe média, um pai, uma mãe, um filho e mais uma criança a caminho. A extensa jornada de trabalho impede que os adultos da casa forneçam atenção e cuidado em tempo integral ao menino. A solução parece não ser muito complicada: ela reside na contratação de uma “empregada doméstica”. Muito provavelmente você tenha se familiarizado com esse quadro; caso não o tenha vivenciado, a probabilidade de que conheça alguém que tenha passado por ele é grande. Embora Quando Meus Pais Não Estão em Casa seja um filme singapurense, a realidade abordada pela película é comum a muitos dos Estados em desenvolvimento, incluindo o Brasil. Além da economia em ascensão, essas nações possuem um traço peculiar em comum: devido sua colonização, o trabalho que era antes atribuído aos escravos — de amas, babás e afins — agora é conferido a outro setor que ficou comum nas classes médias desses países: a presença das chamadas “empregadas domésticas” nesses lares.

O cenário da produção do estreante Anthony Chen seria extremamente harmonioso se não fosse a época retratada: o final dos anos 1990, marcado por uma forte crise nos Tigres Asiáticos — adversidade essa também conhecida pelos brasileiros nessa mesma década e na anterior. A estrutura familiar é abalada. Aquilo que parecia sólido é desmantelado, e as transformações vão pouco a pouco afetando o núcleo familiar.

Jialer (Koh Jia Ler) é a criança protagonista de Quando Meus Pais Não Estão em Casa. Desobediente, indisciplinado e desrespeitoso, ele consegue ser um pouco pior do que as crianças de sua idade (por mais que relutemos, é quase inevitável sentir ódio da criança em certas partes, em especial no início). Ainda que sua mãe, Leng (Yann Yann Yeo) tente exercer certa influência no filho, o trabalho da mulher a impede de tal feito — principalmente com as demissões que estavam ocorrendo na empresa em que exercia sua labuta. É curioso notar que o pai, Teck (Chen Tianwen), a personagem mais tímida do filme, acaba adotando características infantis como as de Jialer — como quando esconde seu hábito de fumar da esposa, no momento em que negligencia que perdeu seu emprego ou então na ocasião em que fica bêbado quando ela permite que ele tome somente uma dose. Tudo isso somado acaba convergindo para a figura mais complexa de toda a trama: a mãe.

Yann Yann Yeo consegue, em sua atuação, transmitir um sentimento de repulsão pelo telespectador. É como se ela assumisse o papel de mãe de todos os componentes (incluindo de quem assiste ao filme), exibindo todas as facetas negativas da árdua tarefa que é criar filhos. Isto posto, a afeição comumente associada ao lado materno é descaracterizada; Leng é uma mulher que se desdobra como pode, omitindo, inclusive, o cuidado de Jialer.

Apesar da riqueza que podemos encontrar já nesse núcleo familiar, a trama ganha forma somente com a entrada de Teresa (Angeli Bayani), a imigrante filipina que Teck e a esposa contrataram para trabalhar para eles, principalmente cuidando do filho. Inicialmente, a relação entre Jialer e Teresa é hostil. O garoto, como alguém que não respeita sequer os próprios pais, recusa-se a demonstrar alguma obediência ou estima por uma estrangeira desconhecida que, logo de cara, é abrigada em seu quarto. A partir daí, a relação entre os dois vira o centro da produção.

Um dos maiores erros de Anthony Chen foi, por sinal, explorar de maneira superficial o convívio entre as duas personagens. O curto tempo e a distribuição desnecessária de alguns fatos e imagens, que ficaram perdidos e avulsos, não permite ao telespectador acreditar que algo de fato foi construído entre Jialer e Teresa. Tudo acaba ocorrendo de modo muito fugaz e, quando chegam à concretização dessa intimidade estável, o filme acaba sendo interrompido por outro empecilho — o que pode parecer um tanto forçado. Ademais, algumas histórias paralelas, como a da jovem filipina e a do filho que deixou para trás, acabam perdendo importância, dando a incômoda impressão de que algo está inconcluso.

A dificuldade de identificação com qualquer uma das personagens — seja pela antipatia que criamos pela mãe, a timidez do pai, a indisciplina excessiva do filho ou à enigmática vida de Teresa — cria, na realidade, o ambiente ameno para o desenvolvimento da trama. Tal irregularidade acaba sendo, de certo modo, suprida pela tensão carregada nos cenários da casa, que acaba também comprometendo o telespectador. Juntamente da fotografia que dá preferência ao distanciamento aos que assistem ao filme (com a câmera em médio plano e a preferência por elementos reais), o enredo desenvolve-se de maneira intimista e, aqueles que o observam, participam de um processo de reflexão das diversas bandeiras de críticas sócio-econômicos levantadas por Anthony Chen.

Apesar dos deméritos, é preciso reconhecer as belas imagens e cenas de Quando Meus Pais Não Estão em Casa e a ambição de um diretor estreante em realizar um filme intimista, em um cinema pouco conhecido e que alcança uma série de questões extremamente pertinentes. A discussão mais evidente é o da existência das chamadas “empregadas domésticas” e o tratamento que lhes é atribuído. Mesmo em uma classe média em ascensão, o sentimento de superioridade por detenção de poder sobre o trabalho de outrem permeia como algo definitivo. Infelizmente, temos a impressão de que pouco mudou desde a escravidão do período colonial e os vínculos de trabalho no mundo pós-moderno. Além desse perceptível problema, a produção também consegue analisar de maneira crítica a situação dos imigrantes na contemporaneidade, o papel das instituições escolares como métodos coercitivos, a defasagem da relação entre pais e filhos, e mais uma série de temas de caráter social, estrutural, cultural e econômico — fator extremamente raro de ser observado nas obras cinematográficas atuais.

A simplicidade de Quando Meus Pais Não Estão em Casa é a maior qualidade do filme singapurense que acaba, por incrível que possa soar, cativando por seu tema banal. Anthony Chen conseguiu reunir empecilhos comuns a países de culturas diferentes, de localizações afastadas e que, todavia, vivenciam uma experiência sócio-econômica comum atualmente, devido à exploração sofrida no passado. O diretor consegue, concomitantemente, colocar o espectador em uma posição de observador, criar personagens nefastas e estabelecer um convívio subjetivo entre o quadro abordado e aqueles que assistem à película, que acabam fazendo parte de uma experiência cinematográfica formidável.

Quando Meus Pais Não Estão em Casa (Ilo Ilo) — Singapura, 2013
Direção: Anthony Chen
Roteiro: Anthony Chen
Elenco: Angeli Bayani, Koh Jia Ler, Tian Wen Chen, Yann Yann Yeo
Duração: 99 min.

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.