Crítica | Quando nos Conhecemos

E se pudéssemos voltar no tempo e ter novas chances de conquistar aquele amor inalcançável? Seria esse um macete desonesto para um jogo que deve ser jogado com vendas para o futuro ou a verdadeira chance da felicidade ser encontrada dentro do algo que sempre se esperou que lá ela estivesse? E se pudéssemos voltar no tempo e esquecer de alguns filmes? Há um quê de Feitiço do Tempo presente nesta produção (mesmo que haja distinções no cerne), mas não limito a apontá-la como apenas mais uma versão genérica do clássico dos anos 90. As regras de viagens no tempo são consideravelmente mais simples. Não há um propósito programado pelo universo, por Deus ou o que quer que seja, a não ser a revisitação, por conta própria do protagonista, de uma única noite passada. Quando nos Conhecemos apresenta um jogo de causa e consequência extremamente simples, que realça um roteiro desinteressado. Afinal, em uma lacuna de três anos é fácil para o roteirista John Whittington fazer qualquer coisa acontecer, moldando-se apenas pelo que lhe é conveniente, soando manipulativo e previsível. Somos obrigados a engolir algumas atitudes de personagens que não fazem sentido algum dentro da caracterização proposta para cada indivíduo no início do filme. No caso, Noah Ashby (Adam DeVine) revisita a noite em que conheceu Avery (Alexandra Daddario), seu amor nunca concretizado. Avery está casada e feliz, enquanto Noah fomenta a mesma frustração por mais de três anos. Diante de um cabine de fotos mágica, ele vê a oportunidade de finalmente realizar seu grande sonho, independente dos outros relacionamentos interpessoais que estão em jogo.

Com muitas reviravoltas, o interesse do espectador se limita aos plot-twists, que pretendem ser inteligentes, mas são apenas banais. Noah Ashby é um figura fortemente ilógica, mal construída, que só nos encanta no flashback inicial daquela famigerada noite. Depois daquilo, a viagem no tempo nos força a assistir uma hora de diálogos pessimamente escritos, que reforçam insistentemente os mesmos pensamentos: um piano de uma tecla só. Afinal, existe outro artifício mais batido do que perguntar para alguém em que ano se está, após notar a diferença de data em um jornal? No mais, uma caminhada de sua casa até um posto de conveniência não foi mais do que necessário para que Noah percebesse que ele estava de volta em 2014. Seu quarto permaneceu o mesmo por três anos? Nada de dar uma olhada em seu celular e perceber que ele é diferente, ou, caso ele tenha mantido o mesmo aparelho por todo esse tempo, a data está alterada? Por mais algum tempo teremos que ver sequências de cenas que ratificam a viagem no tempo, tudo porcamente verborragizado, enquanto Adam DeVine demonstra um enorme equívoco interpretativo. Do charmoso flashback, os sinais de overacting são dados enquanto o personagem está sendo levado por uma amiga de Avery, Carrie Grey (Shelley Hennig), e se confirmam quando a viagem no tempo é concretizada. Tudo há de ser exposto pela fala, enquanto a viagem no tempo não é usada de forma alguma com inteligência. Não se há inteligência (muito menos o senso de que algumas tragédias maiores do que ele poderiam ter sido impedidas, mas aí vem o recorte e uma suspensão de descrença) em Quando nos Conhecemos.

Com piadas fora do tom, burrice cinematográfica e atitudes incoerentes com a natureza do personagem, o ator não consegue compensar o péssimo roteiro, que move seu protagonista para caminhos estúpidos. Por qual razão ouvir seu amigo Max (Andrew Bachelor), se comportando de uma forma completamente alterada do seu eu verdadeiro para finalmente conquistar Avery, quando, em uma tentativa passada, ele havia chegado muito perto disso sendo ele mesmo? Apenas um erro miserável, clichê e repetitivo narrativamente – dado o fato de que tempo o suficiente já havia passado para que Noah refletisse o que aconteceu e entendesse que ele viajou no tempo – joga todo aquele charme para cima de Avery no lixo, fazendo-o optar, no round 2, por uma estratégia a beira do imbecil. Não há, por exemplo, o mesmo encanto que Domhnall Gleeson transpõe para o seu personagem no ótimo Questão de Tempo. Todavia, uma cena, neste contexto, dentro do apartamento da garota, é hilária e rende mais um outro momento igualmente cômico, mesmo que muito do entorno dessa parte do longa seja sem graça. Portanto, Whittington emburrece o personagem propositalmente para permitir que tudo siga seus planos originais, provavelmente imaginados enquanto olhava pela janela de seu carro e escutava alguma música triste. Soa artificial e preguiçoso. O que acaba acontecendo é que a amizade/relação entre Avery e Noah se quebra, sustendo-se por conversas pouco inspiradas. A reviravolta maior do filme é desmontada antes mesmo de existir, porque não se há um solo favorável para o desenvolvimento de química entre certos personagens.

O filme, enfim, não dá espaço para nenhum dos seus personagens. Muito do encanto que se pode criar com a obra, no final, se deve à trilha sonora não-original, cheia de músicas que combinam com as ocasiões onde aparecem. Nenhuma cena inesquecível, no entanto. De resto, temos um elenco coadjuvante que, com exceção de Shelley Hennig se saindo um pouco melhor, não tem material para aproveitarem. O próprio Robbie Amell, interpretando Ethan, dá indícios mais interessantes em sua atuação, que poderiam ter sido melhor explorados pela direção de Ari Sandel, valendo-se, em determinado momento, de uma diferenciação dele em relação a Noah, que, anteriormente ao caso, passava por uma situação parecida. Mas a narrativa permanece na superficialidade, brincando com as expectativas do espectador, pretendendo ser esperta, quando é, na verdade, indiferente a muita coisa. Se quer um filme que fale, tematicamente, de assuntos parecidos com os existentes neste, recomendo 500 Dias com Ela, uma obra muito mais honesta na mensagem que quer passar. Quando nos Conhecemos dá sinais pontuais de verdade, mas tende a cair no ostracismo se comparado com produtos muito mais competentes na execução. Está na hora da Netflix entender que quantidade e qualidade não são as mesmas coisas. Buscando tentar se manter revelante, mesmo na ausência de determinados filmes em seu catálogo, a empresa parece se preparar para cada vez mais se sustentar em suas próprias pernas. Mais uma comédia romântica genérica, portanto. Será que dá para voltar no tempo dessa vez?

Quando nos Conhecemos (When We First Met) – EUA, 2018
Direção: Ari Sandel
Roteiro: John Whittington
Elenco: Adam DeVine, Alexandra Daddario, Robbie Amell, Andrew Bachelor, Shelley Hennig, Noureen DeWulf, Tony Cavalero, Bill Rainey, Chelsea Bruland, Adam Henslee, Tenea Intriago, Kyler Porche, Michael Scott
Duração: 97 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.