Crítica | Quarteto Fantástico #1 (2018)

(imagem de destaque: capa variante de Alex Ross)

  • Aos puristas, há spoilers.

Quando acabei de ler a aguardadíssima volta da revista própria do Quarteto Fantástico não pude deixar de gargalhar lembrando da crítica de meu colega Luiz Santiago sobre o também aguardadíssimo casamento do Batman com a Mulher-Gato em Batman #50. Lá, Tom King não entrega o que promete e, aqui, Dan Slott faz o mesmo. Claro que, no caso do Morcego, o problema é muito mais grave, mas a correlação é inafastável.

Longe de uma publicação própria desde a edição #645, de abril de 2015, depois que, conforme a teoria prevalente, a Marvel Comics passou a agir como gângster e boicotou o grupo para evitar que as HQs servissem de plataforma de publicidade para a Fox, que detinha os direitos cinematográficos dos personagens, o Quarteto Fantástico, grupo que basicamente faz parte dos alicerces da editora  desde que surgiu, diretamente em revista própria, em 1961, faz sua volta triunfal. Só que não, claro. Ou, para ser mais correto, mais ou menos…

Dan Slott, que passou 10 anos ininterruptos escrevendo o Homem-Aranha, ganhando, no processo, uma legião de fãs revoltados com as mudanças que ele fez no Aracnídeo, foi escolhido para capitanear essa volta e, segundo declarações dele, seu projeto é igualmente longevo, com nada menos do que as primeiras 55(!!!) edições alinhavadas. Seja lá o que ele planeja para a Primeira Família da Marvel, a grande verdade é que esse primeiro número é a clássica enganação. A prometida volta não é exatamente uma volta, mas sim o esboço de uma volta. Afinal, todos os leitores que acompanham as HQs sabem que Reed Richards, Sue Storm e seus filhos, depois de Guerras Secretas, foram viajar pelo multiverso para consertá-lo, seja lá o que isso signifique. Johnny Storm e Ben Grimm ficaram para trás, formando uma dupla na nova versão da revista Marvel Two-In-One, em que eles procuram pelos outros.

Em sua primeira história (Signal in the Sky ou, em tradução literal, Sinal no Céu), a HQ tem foco quase exclusivo em Johnny e Ben, o primeiro ainda esperançoso de que Reed e Sue estão vivos e o segundo já aceitando que o Sr. Fantástico e a Mulher-Invisível jamais voltarão. O choque de expectativas é colocado em xeque por uma brincadeiras de crianças da Rua Yancy que usam um sinalizador antigo do Quarteto Fantástico para “convocar” o grupo, o que funciona para “enganar” o Tocha Humana e o Coisa e, também, os leitores mais desavisados e inocentes. Quando tudo é revelado como um chiste, o que enfurece Johnny, mas enternece Ben, o anti-clímax instala-se fortemente. Eis que, porém, vemos Reed e Sue em algum planeta – ou dimensão – distante tentando justamente sinalizar de algum jeito a Terra, algo que ele convenientemente consegue ao final. O paralelismo das duas narrativas é daqueles bobos, óbvios e completamente sem inspiração. Se era para a volta do Quarteto Fantástico não ser uma volta de verdade, mas sim apenas um prólogo, que pelo menos a história fosse bem construída, com um roteiro mais do que meramente esquemático para encher páginas e páginas de artifícios cansados como uma “história secreta” do Quarteto contada por Ben Grimm e a proposta de casamento que ele faz a Alicia Masters.

(1) A arte “adolescente” de Pichelli e (2) a arte sombria de Bianchi.

Na arte, Sara Pichelli interpreta os personagens seguindo o irritante padrão atual da Marvel de rejuvenescer todos o seu elenco. Aparentemente, ninguém mais pode sequer chegar próximo de parecer maduro, pois ter mais de 30 anos (40 nem pensar!!!) possivelmente afasta leitores. Johnny Storm parece um adolescente e Ben, mesmo todo de pedra alaranjada, dá a impressão de ser um jovem adulto. O mesmo vale para Alicia, Jennifer Walters (em uma ponta) e o pouco que vemos de Reed e Sue. Inegavelmente, porém, Picheli tem traços agradáveis e bem característicos para cada personagem, com uma arte final de Elisabetta D’Amico que realça as expressões faciais e os detalhes de fundo.

Na segunda história, Our Day of Doom and Victory (Nosso Dia de Destino e Vitória em tradução livre), Slott trama outra volta, desta vez verdadeira: Victor Von Doom retorna à Latvéria, novamente como o vilão de rosto deformado que lhe rendeu a armadura clássica, depois de ter seu rosto curado pós-Guerras Secretas e de fazer as vezes de Homem de Ferro por um tempo. A narrativa é simples, com uma jovem revoltada com a guerra civil que se instalou em seu pais invadindo o castelo de Doom, passando incólume pelos doobots e encontrando-se com seu líder que revela seu rosto a ela. Victor veste apenas sua capa e um saiote e, reverencialmente, a moça entrega-lhe seu “rosto” verdadeiro, a clássica máscara do Doutor Destino, o que o leva a sair para tomar a Latvéria de volta. Em outras palavras, o autor não perde tempo em restabelecer o maior inimigo do Quarteto Fantástico, certamente em preparação a conflitos futuros, em uma história substancialmente mais interessante, ainda que fragmentária, do que a primeira.

Claro que muito da qualidade dessa segunda história vem da arte de Simone Bianchi, com seus tradicionais traços mais pesados e sombrios, muito bem exprimindo a força e o poder do Doutor Destino. Mas Bianchi é, apenas, o artista convidado aqui e não sei se ele voltará para futuras edições, já que é Pichelli a artista oficial do Quarteto Fantástico pelo momento. Será interessante ver sua arte mais alegre lidar com Destino.

Fechando a edição, há uma auto-consciente história de uma página de Slott com a característica arte de Skottie Young, tendo o Homem-Impossível como protagonista. Trata-se, aqui, de um pedido de desculpas sobre a “falsa” volta do Quarteto e a promessa solene de que, na próxima edição, os quatro realmente estarão de volta. Sem dúvida, uma forma simpática de tentar tirar o gosto ruim da boca de quem esperava a reunião dos heróis.

Obs: O que mais me alegrou nessa edição foi ver que a Marvel, apesar de ter mais uma vez zerado a numeração, manteve a indicação, logo abaixo do número 1, a indicação do número de “Legado”, com a terminologia LGY, de Legacy. Portanto, esta HQ é a LGY #646 e, pelo visto, a editora passará a usar esse padrão para sua linha editorial. Uma ótima ideia que espero que se perpetue.

Quarteto Fantástico #1 (Fantastic Four #1, EUA – 2018)
Roteiro: Dan Slott
Arte: Sara Pichelli, Simone Bianchi, Skottie Young
Arte-final: Sara Pichelli, Elisabetta D’Amico
Cores: Marte Gracia, Simone Bianchi, Marco Russo, Jeremy Treece
Letras: Joe Caramagna
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 08 de agosto de 2018
Páginas: 44

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.