Crítica | Quarteto Fantástico: 1234

estrelas 3

Quando o nome de Grant Morrison é falado em meio a fãs de quadrinhos, pode até haver uma divisão entre aqueles que gostam e não gostam do roteirista escocês, mas todos provavelmente concordarão que a linha narrativa do que quer que ele tenha escrito será filosófica, metafísica ou qualquer coisa semelhante, ou seja, nada trivial. E isso é bem verdade mesmo, pois o autor é responsável por obras como Grandes Astros – Superman, Asilo Arkham – Uma Séria Casa em um Sério Mundo pela DC Comics e Os Invísiveis e We3 pela Vertigo Comics.

Seu currículo na Marvel é bem menos extenso e Quarteto Fantástico: 1234, publicado sob o selo adulto Marvel Knights, é costumeiramente citado entre os destaques dele na Casa das Ideias. Mas, apesar de começar de maneira a parecer que a narrativa será complexa como vários de seus trabalhos, a minissérie em quatro números é surpreendentemente – diria até que chega a ser uma decepção – simples e objetiva, sem querer ser mais do que uma nova e pouco ousada aventura da primeira família da Marvel.

quarteto fantastico 1234 capaMas não falarei dos aspectos negativos agora. Focarei, ao contrário, no que essa história tem de bom e o primeiro elemento é o resgate das características marcantes originais do Quarteto Fantástico. Não que muitos autores não tenham feito isso ao longo das décadas, mas Morrison, como o profundo conhecedor de quadrinhos que é, escreve um texto que sabe inserir, com fluidez, os elementos informadores do grupo: a tristeza de Ben Grimm por ser um monstro laranja; a irresponsabilidade de Johnny Storm; o isolamento intelectual de Reed Richards e, finalmente, a solidão de Sue Richards. Cada uma das personalidades – com exceção talvez da do Tocha Humana – é bem trabalhada e serve a um propósito dentro do plano maior do Doutor Destino. A relação de Sue com Namor também é abordada, assim como a paixão do Toupeira por Alicia Masters e toda a dinâmica dos heróis dentro do Quarteto, ainda que Morrison tenha escolhido tratar de cada um separadamente, reunindo-os brevemente apenas no final.

Outro aspecto que muitos até consideram negativo, mas que vejo com bons olhos é o quanto o enfoque do autor é sombrio, algo que claramente é o oposto das mais clássicas abordagens do Quarteto ao longo de décadas. Há um clima forte de depressão, de baixa auto-estima, como por exemplo durante o fenomenal jantar de Sue com Alicia em que a Mulher-Invisível fica o tempo todo em sua forma invisível, como que se escondendo do mundo.

A arte de Jae Lee, conhecido por seu trabalho nas minisséries em quadrinhos baseada na saga literária A Torre Negra, de Stephen King, além da minissérie Inumanos e por sua recente incursão na DC, com Batman/Superman, não é de fácil absorção e poderá causar estranhamento em quem já não tiver visto sua obra antes. Lee trabalha corpos esguios, mas não necessariamente bonitos, rostos sérios com alguns contornos quase deformados e uma transição de quadros com grande variação, mas também grande eficiência. Não é, definitivamente, uma arte que agradará a todos – eu, particularmente, acho sensacional – ou que todos considerem que se funde perfeitamente com o Quarteto Fantástico. No entanto, o texto de Morrison pede algo mais sombrio, mais pesado e mesmo que os puristas achem que não dá para engolir um Quarteto assim, aqueles que conseguirem ultrapassar esse preconceito terão uma bela arte para admirar, arte essa que é pintada por José Villarrubia com uma paleta de cores fria que transmite magnificamente o estado de espírito dos personagens.

O grande problema, porém, está no que a história lega a seus leitores. Como disse, o texto traz de volta elementos clássicos do Quarteto Fantástico como se estivéssemos entrando em um “túnel do tempo” de volta à década de 60, quando Stan Lee e Jack Kirby criaram o grupo. Mas, quando a leitura acaba, a sensação é de vazio pelo fato de a trama se resumir a “Doutor Destino tem plano maquiavélico para acabar com o Quarteto, mas Reed Richards é mais esperto”. Simples assim. Parece a volta a uma época em que Destino era movido apenas por sua raiva cega ao grupo, sem mais elucubrações, mas o vilão já havia evoluído muito quando a minissérie foi lançada e a simplificação de sua função dentro do Universo Marvel é completamente inadequada, para não dizer equivocada. Parece mais uma criança contrariada fazendo beicinho para os pais. E Reed Richards, no alto de sua sapiência, literalmente tira da manga um ás deus ex machina para resolver a trama em um piscar de olhos em um final que consegue ser desnecessariamente confuso e atabalhoado. Em suma, toda a portentosa preparação dos três primeiros números cai por água abaixo com um conclusão clichê e boba no quarto número. É como se Grant Morrison tivesse perdido o fio da meada em seu roteiro ou sofrido pressões para emburrecer o texto.

Quarteto Fantástico: 1234 começa de um jeito e acaba de outro e nem de longe cumpre o que promete. Mas é inegável que a volta ao passado proporcionada por Morrison no início da minissérie e a arte sombria de Lee e Villarubia tornam a leitura suficientemente interessante para prender o leitor. É só ajustar as expectativas.

Quarteto Fantástico: 1234 (Fantastic Four: 1234, EUA – 2001/2)
Contendo: Quarteto Fantástico: 1234 #1 a 4
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Jae Lee
Cores: José Villarrubia
Letras: RS & Comicraft
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação nos EUA: outubro de 2001 a janeiro de 2002
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: março de 2013 (encadernado)
Páginas: 124

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.