Crítica | Quarteto Fantástico (2005)

estrelas 2,5

Depois do ótimo começo da franquia X-Men, o cinema passou, progressivamente, a entrar em produções de super-heróis que, impulsionados pelo boom tecnológico, tornaram-se, seja pelo público ou por quem os transporta para o audiovisual, fantásticos pela experiência sensorial que são capazes de proporcionar com a retratação de seus poderes. Tão fantásticos que deixam todo o resto em segundo plano, resultando em personagens rasos, quase chegando ao cúmulo de se apresentar em tela, tal como falamos em violência pela mera violência, baseando-se no poder pelo mero poder — o bom e velho espetáculo, que só não é gratuito, sem ter nada de relevante a dizer, a começar pelo valor do ingresso.

É essa abordagem rasa, com poucos momentos realmente interessantes, que vemos em Quarteto Fantástico (2005), baseado nos quadrinhos de 1961. Na trama, quatro jovens vão para o espaço afim de pesquisar as propriedades de raios cósmicos, acompanhados por seu financiador, o doutor Victor Von Doom (Julian Mcmahon). Claro que algo dá errado e todos são atingidos pelos raios, descobrindo, após retornarem à Terra, que adquiriram superpoderes. Idealizador da expedição “fracassada”, por assim dizer, Reed Richards (Ioan Gruffudd) tem o poder de esticar o corpo feito borracha (Senhor Fantástico). A ex-namorada, Sue Storm (Jessica Alba), pode ficar invisível e criar campos de força (Mulher Invisível). O irmão da moça, Johnny Storm (Chris Evans) é capaz de elevar a temperatura corporal até produzir chamas (Tocha Humana) e Ben Grimm (Michael Chiklis) tem seu corpo transformado em pedra e ganha força sobre-humana (Coisa).

Com o conflito resultante da descoberta de seus poderes, os quatro se tornam celebridades, por bem ou por mal. Reed tenta encontrar um modo de reverter os efeitos dos raios e logo descobrimos que Victor, o ego-centrista que financiou a viagem ao espaço, também adquiriu habilidades especiais: absorver e manipular energia, e que ele será o vilão do filme, o que não nos surpreende nem um pouco — aliás, esperamos por isso desde o começo. A ideia de que cada poder reflete a personalidade daquele que o possui é interessante, mas acaba funcionando contra o longa já que muito é superficialmente desenvolvido. Por exemplo, o filme passa e simplesmente não compreendemos por que Sue quer ou não ser invisível. A relação dela com o irmão, Johnny, por sinal o personagem mais interessante, já que sua personalidade exibicionista e sua libido não se esvanece em nome de nenhum moralismo, também é precariamente desenvolvida, ao ponto de esquecermos o parentesco dos dois. A relação de Ben com a mulher que o abandona após ver sua nova aparência não é diferente, restringindo-se a um largar de aliança que ignora toda uma história vivida até ali e que se dá a entender no princípio da trama. É o tipo de produto audiovisual, como tantos hoje no mercado, que simplesmente não sabe ou pouco quer trabalhar o elemento humano.

O filme ainda conta com sérios problemas de roteiro: que o diga a sequência na qual Sue fica invisível para passar por uma multidão, tudo para que Reed simplesmente a acompanhe mais visível do que nunca, tornando a ação da mulher completamente desnecessária – um erro, como se vê, totalmente estúpido. O ponto alto da obra com certeza são suas piadas em horas válidas, incluindo-se, é claro, situações com os poderes da equipe (Ben é que o diga — e que por sua vez até consegue conferir certa profundidade ao seu personagem, dado o óbvio caso da sua aparência, embora a dinâmica seja bastante previsível). A trilha sonora não chega a incomodar, mas nada acrescenta na maior parte do tempo, parecendo genérica, como que só estando lá para preencher um requisito.

Quando a fita termina, é fácil pensar nos personagens como figuras que esqueceremos em pouco tempo. De herói a vilão, apesar do elenco a maioria parece tão fantástica quanto insignificante.

Quarteto fantástico (Fantastic four), EUA – 2005
Direção: Tim Story
Roteiro: Mark Frost, Michael France (baseado em obra de  Stan Lee e Jack Kirby)
Elenco: Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans, Michael Chiklis, Julian McMahon, Hamish Linklater, Kerry Washington, Laurie Holden, David Parker, Kevin McNulty
Duração: 106 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.